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Crítica | O Que é Isso, Companheiro?

por Davi Lima
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O que torna esse longa-metragem do diretor Bruno Barreto um trabalho a se atentar é o exercício de aparências visuais dentro das redes técnicas do cinema quanto ao tecido dos posicionamentos políticos tratados na história do filme. Esse é o meio narrativo audiovisual que revela a humanidade dos personagens e no campo político a partir da ambiguidade de trabalhar cinematograficamente a imagem histórica da Ditadura Militar no Brasil, já reverberada no presente do espectador, e o seu drama imediato da história do filme sobre a história mais intimista do grupo Movimento Revolucionário 8 de Setembro no tempo em que capturou o embaixador estadunidense em setembro de 1969.

Desde a primeira cena, em que o documento audiovisual dos protestos contra a Ditadura se mistura com os atores protestando num plano mais ficcional e fechado nos rostos deles, mas ainda com o preto e branco, reflete muito o trabalho árduo de transpor o material literário homônimo de Fernando Gabeira para as telas. Essa dificuldade pode ser pensada em relação ao advento da guerra de narrativas históricas, pois quando já definidas, e ainda mais no artifício cinematográfico, moral em cada plano gravado pela fotografia, torna o realismo dramático mais sensível para ser retratado, seja fiel ou não ao livro. Por isso pode-se sentir um cuidado estético muito preciso no filme, porque no fervor da obra tentar humanizar tudo dentro de sua narrativa, dramatizando todos os personagens, independentemente de ser estadunidense, militar ou militante, o diretor Barreto define uma especificidade de imagens para os personagens para um desprendimento da falsa sensação de equivalência.

Porque é esse o tema que o filme toma como missão, de desmistificar na dramatização as aparências históricas de cada referência política num contexto histórico que, visto do futuro-presente, é estereotipado e muito definido por narrativas que se sobrepõem na memória, queira o espectador ou não. Assim, no filme o militante também tem medo, o militar também tem uma família e o embaixador estadunidense também não precisa apoiar a Guerra do Vietnã. No entanto, o perigo de humanizar e proporcionalizar discursos em desfeita por oposições ideológicas inerentes, que não podem se agregar realisticamente na narrativa, essencialmente tratando de fatos históricos contados dia a dia no letreiro do filme, faz com que o próprio personagem de Gabeira, interpretado pelo ator Pedro Cardoso, reflita especificamente sobre o presente de 1969 e tenha um tom crítico e desanimado à perda da vida, vivendo perseguido, em prol de uma voz antiditadura não ouvida pela grande população naquele período de tempo. 

Ou seja, é um leque de fatores para que o protagonista tenha seu discurso sobre sua realidade presente, não um indício de revisionismo. Se há uma aparente humanidade no militar, ela é na verdade efeito do desenvolvimento familiar, dramático crítico, não de sua justificativa de tortura. Do mesmo jeito, o embaixador é mais um delator vocal documental e também dramático-individual da percepção ilustradamente humana sobre os militantes em todo o simbolismo fílmico, ou algum apelo ao Oscar daquele ano do filme, do que um retrato desenvolvido de sua posição política que defenda a influência estadunidense na instauração da Ditadura no Brasil.

A partir disso, o discurso do longa vai se afunilando. Humanamente se centra no presente temporal do retrato, não numa interpretação revisionista generalizante como aparenta ter nas representações dramáticas, pois há consciência, na verdade, da impossibilidade da realidade fidedigna, permitindo essa abrangência das personagens dos lados ideológicos, sem necessariamente dar voz impune, exatamente por ser uma visão pessoal de Gabeira. Logo, ao passo que cenas de perseguição de carros e cenas do jogo entre Vasco e Flamengo são colocadas em tela na amarra das imagens com o discurso da luta, do tanto que a narrativa se refere ao presente documentado de 1969, a história invariavelmente concebe a ambiguidade das aparências quanto às lutas na Ditadura vistas do passado. Ambíguo porque são esperanças melancólicas de uma luta militante da época, mas fruto de uma dialética frutífera de um país que se abre politicamente 20 anos após os ocorridos do embaixador feito de refém, como escreve o letreiro vitorioso.

Afinal, há um efeito crítico à voz materialista militante que provoca incessante quanto à recordação histórica de luta, de fazer história, mas se fragiliza em se apegar a isso diante de um presente definido pela causa em si, sem efeito imediato. Não se refere a conhecer a realidade estar por dentro da política, ou se definir no presente para o futuro lembrável por uma narrativa majoritária, e sim compreender o presente da realidade complexa, humana e cheia de nuances que sempre percorre um percurso a partir dos que têm esperança, mesmo que baseada nos fins julgados errados moralmente pelos que estão no futuro. Gabeira como personagem em seu romance com a companheira Maria (Fernanda Torres), em conflito com a máscara e com a arma, julgado senhor do discurso e menos prática dentro do filme, é o resumo humanístico disso, inteirado no relato adaptado do verdadeiro Gabeira.

Em geral, o drama subdividido e que pode-se julgar falsamente imparcial na divisão da história, mas colocado em visões diferenciadas pelo audiovisual, é para o efeito impactante de compreensão do militante fora dos óculos intelectual e heroico por atos reduzidos por uma narrativa “puramente” ideológica, colocado no tecido audiovisual capacitado em registrar as interações afetivas de um registro incompleto para as telas morais-pessoais do cinema. Por isso a foto no final se esmaece em desfoco com o preto e branco fotografado por uma Kodak, registrando os militantes soltos sendo extraditados depois de terem sido torturados. A aparência da foto morre, da luta reverberada, mas as experiências da tortura, dos torturadores e dos reféns nunca são de fato reveladas na imagem. 12

O Que É Isso, Companheiro? (O Que É Isso, Companheiro?) – Brasil, 1997
Direção: Bruno Barreto
Roteiro: Leopoldo Serran (baseado no livro “O Que É Isso, Companheiro?” de Fernando Gabeira)
Elenco: Alan Arkin, Fernanda Torres, Pedro Cardoso, Luiz Fernando Guimarães, Cláudia Abreu, Nelson Dantas, Matheus Nachtergaele, Marco Ricca, Maurício Gonçalves, Caio Junqueira, Selton Mello, Eduardo Moscovis, Caroline Kava, Fisher Stevens, Fernanda Montenegro
Duração: 110 minutos

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