Número de temporadas: 1
Número de episódios: 112
Período de exibição: 4 de novembro de 1974 a 11 de abril de 1975
Há continuação ou reboot?: Sim, existe um remake da novela feito em 2014.
XXXXXXXXX
As produções brasileiras para a TV em meados dos anos 1970 eram essencialmente de narrativas lineares e conflitos amorosos clichês, com pouquíssimo espaço para quem quisesse fazer algo diferente da fórmula. Em 1974, quando Bráulio Pedroso voltou à TV Globo (após um tempo na Tupi, capitaneando A Volta de Beto Rockfeller) uma ideia maluca foi colocada em prática: comprimir 112 capítulos em apenas 24 horas de história, fragmentando o tempo em três camadas dramáticas (presente da investigação, passado da festa e antecedentes dos personagens) e cobrando do espectador um tipo de atenção que o “horário das dez” nunca tinha exigido. A inspiração para o enredo de O Rebu veio de Crepúsculo dos Deuses (1950). Pedroso pegou o mesmo truque de Billy Wilder para escancarar os podres de Hollywood e o transplantou para a alta sociedade carioca. Este primeiro capítulo é um dos dois únicos que escaparam do incêndio de 1976 nos estúdios da Globo e, em seu texto, estabelece a morte que gerou o famoso “quem matou?” (a alma da novela), com dezenas de suspeitos girando em volta do crime e a câmera de Walter Avancini criando tensão o tempo inteiro.
O episódio abre num deslocamento temporal entre a descoberta do corpo e a festa que rolou antes. Tem um cadáver na piscina (que a câmera nunca mostra) e ninguém sabe quem morreu — até o gênero da vítima é ocultado, adicionando mais uma pergunta ao balaio –, enquanto a polícia interroga o anfitrião Conrad Mahler (Ziembinski). Em uma das cenas, Avancini faz um plongée belíssimo (câmera de cima pra baixo), quando a organizadora da festa explica para o investigador quem eram os presentes e onde estavam sentados. A escolha de enquadramento diminui os personagens diante do tamanho do crime e entrega ao espectador uma visão panorâmica daquele universo de privilégios onde todo mundo tem algo a esconder. Isso diz muito sobre como a direção tratou o material, fugindo do “folhetim de paixões exageradas” para um quebra-cabeça detetivesco, onde cada informação visual tem o seu peso. O capítulo tem problemas de edição (cortes bruscos, continuidade que falha e dramaturgia nem sempre azeitada, sem contar os pequenos erros de fala mantidos no corte final), mas o material em seu todo prova que está bem acima desses tropeços.
Pedroso revela devagar as motivações (iniciais, pelo menos) que trouxeram cada figura àquela festa e planta pistas de possíveis razões para o assassinato. Enquanto as outras novelas de 1974 ainda dependiam de narrativas retas e romances como motor da história, O Rebu apostou na densidade psicológica e num universo moral onde ninguém é totalmente inocente. Todos carregam segredos, todos têm ambições que poderiam justificar, do seu ponto de vista, um homicídio. Os três tempos narrativos fazem o público montar mentalmente os fragmentos oferecidos em ritmos diferentes. Isso forçava um tipo de participação ativa e rara para a televisão brasileira da época. Pedroso sabia que estava propondo algo diferente, o uso de metalinguagem numa novela das dez, horário tradicionalmente conservador, ao mesmo tempo que transformava uma trama policial num meio para falar de poder, classes sociais e corrupção moral sem explicitar nada.
O diretor Walter Avancini vinha de sucessos como Selva de Pedra e Cavalo de Aço, então tinha experiência com histórias de impacto no público, mas foi em Pedroso que encontrou um parceiro disposto a levar os limites da telenovela brasileira ainda mais longe do que tinham ido em Beto Rockfeller (TV Tupi, 1968 – 1969). Mesmo com as limitações técnicas da época, conversaram de forma muito competente com o cinema sem largar os pés da realidade social do Brasil, e o material que escapou das chamas ainda impressiona pela ousadia formal (apesar de sua simplicidade de registro) e por não subestimar a inteligência de quem estava na frente da TV, o que, para as novelas, é algo verdadeiramente raro.
O Rebu (Brasil, 4 de novembro de 1974)
Criação: Bráulio Pedroso
Direção: Walter Avancini, Jardel Mello
Roteiro: Bráulio Pedroso
Elenco: Ziembinski, Buza Ferraz, Bete Mendes, Lima Duarte, Tereza Rachel, Yara Côrtes, Mauro Mendonça, Isabel Ribeiro, José Lewgoy, Arlete Salles, Carlos Vereza, Maria Cláudia, Regina Vianna, Isabel Teresa, Felipe Wagner, Ivan Setta, Lajar Muzuris, Selma Lopes, Rodrigo Santiago, Maria Helena Velasco, Edson França, Ruth de Souza, Haroldo de Oliveira, Clementino Kelé, Élcio Romar, Jacyra Silva
Duração: 37 min.
