Home ColunasCrítica | O Rebu (2014) – Capítulo 1

Crítica | O Rebu (2014) – Capítulo 1

Um rebuliço na forma tradicional de se fazer novela.

por Luiz Santiago
22 views

Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna semanal dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.

Número de temporadas: 1
Número de episódios: 36
Período de exibição: 14 de julho a 12 de setembro de 2014
Há continuação ou reboot?: Não, mas é um remake da novela de 1974.

XXXXXXXXX

Quarenta anos depois da versão original de Bráulio Pedroso, George Moura e Sergio Goldenberg enfrentaram um baita desafio ao recriar O Rebu para o horário das 23h da TV Globo, em 2014. Como transformar uma obra de vanguarda, em 1974, numa produção igualmente ousada para espectadores já acostumados com narrativas fragmentadas do tipo Lost ou 24 Horas? O meio encontrado foi fazer uma novela enxuta, que ocupou a quarta experiência da emissora naquele horário dedicado à experimentação dramatúrgica, onde a Globo testava caminhos formais sem ceder às exigências comerciais das faixas nobres. José Luiz Villamarim assumiu a direção geral e de núcleo, consolidando uma parceria com Walter Carvalho que vinha sendo construída desde O Canto da Sereia (2013) e Amores Roubados (2014). A novela foi gravada com câmera F55 em qualidade cinematográfica e teve como principal locação o Palácio Sans Souci, em Buenos Aires, edifício neoclássico francês construído entre 1914 e 1918 que virou a mansão da empreiteira Ângela Mahler. Os roteiristas leram os 112 roteiros originais, mas só assistiram ao primeiro e ao 92º capítulo, os únicos que sobreviveram ao incêndio de 1976.

Assim como no original, temos aqui 24 horas estruturadas em tempo triangular: a festa na mansão, o dia seguinte (quando o delegado Nuno Pedroso conduz a investigação do assassinato – mas este bloco não se faz presente aqui no piloto), e os flashbacks que expõem os passados de cada convidado e suas possíveis motivações para matar Bruno Ferraz, encontrado morto na piscina. Revelar a identidade da vítima logo de cara mudou o jogo em relação ao original de 1974, onde tanto o morto quanto o assassino permaneciam mistérios até o fim. Moura e Goldenberg apostaram no grande número de suspeitos e nas mais diversas motivações para valer o suspense: poder econômico, alianças empresariais, questões amorosas e ressentimentos familiares, tudo junto e misturado numa teia de decadência aristocrática muito condizente com a proposta original. Trocar o Conrad Mahler de Ziembinski por uma protagonista feminina atualizou a dinâmica de poder e fez do remake um experimento ainda mais curioso.

As escolhas da direção aqui criam algo bem diferente do que normalmente temos na TV brasileira: planos-sequência, câmera em steadicam perseguindo os personagens pelos salões do Palácio Sans Souci e decupagem econômica que está mais interessada na duração dos planos do que no corte nervoso típico das novelas. A fotografia de Walter Carvalho é a única coisa que eu estranhei de verdade aqui, porque cria uma realidade bem saturada de cores frias, e não há núcleo ou local em que esse tipo de filtro e paleta não esteja presente. Vindo de uma produção como esta e de um fotógrafo como Walter Carvalho, é claro que haveria uma motivação por trás (embora eu ainda preferisse filtros e paletas diferentes para cada temporalidade): o ressaltar da artificialidade daquele mundo de aparências, cheio de segundas intenções. 

Pensar na nova abertura foi uma dor de cabeça, já que a da versão original era apenas com desenhos, taças de champanhe cheias e música instrumental acompanhando. Aqui, a essência foi mantida, mas atualizada com fineza, repleta de flashes nebulosos sobre os ambientes da mansão, sugerindo estados alterados de consciência, como se toda aquela riqueza existisse num plano onírico ou intoxicado pela embriaguez da festa. Manter os personagens com as mesmas roupas durante todos os episódios criou uma sensação de tempo congelado e reforçou o tom claustrofóbico da investigação. Essa sofisticação formal, porém, não caiu nas graças do público: a novela terminou com média de 15 pontos no Ibope.

O fracasso de audiência repetiu o que aconteceu com a versão original de Bráulio Pedroso, em 74: um projeto formalmente excelente, com narrativa fragmentada e exigência de atenção concentrada, virou o grande problema da produção, que entregou o contrário do que o público estava acostumado a consumir há décadas na TV aberta. A faixa das 23h, inaugurada pela Globo em 2011 com o remake de O Astro, tentava voltar ao espírito experimental da extinta faixa das 22h dos anos 1970, horário que permitira à emissora abordar homossexualidade, corrupção e especulação imobiliária durante a ditadura militar. O Rebu fechou definitivamente o ciclo de remakes naquele espaço, escancarando uma contradição na TV brasileira, que às vezes produz trabalhos que quebram com a mesmice, mas não cria uma base sólida de exibição para que essas rupturas virem algo além de tentativas isoladas que não renovam a linguagem porque são uma “andorinha só” tentando fazer verão. E isso é uma pena, porque trabalhos iguais ou similares a este remake de O Rebu mereciam muito mais reconhecimento e espaço por sua excelência em todos os aspectos técnicos, dramáticos e narrativos. 

O Rebu (Brasil, 14 de julho de 2014)
Criação: George Moura,  Sergio Goldenberg (baseados em novela de Bráulio Pedroso)
Direção: Paulo Silvestrini, Luisa Lima, Walter Carvalho
Roteiro: Charles Peixoto, Flávio Araújo, Lucas Paraizo, Mariana Mesquita
Elenco: Patricia Pillar, Sophie Charlotte, Daniel de Oliveira, Tony Ramos, Cássia Kis, José de Abreu, Marcos Palmeira, Dira Paes, Bel Kowarick, Jesuíta Barbosa, Mariana Lima, Júlio Andrade, Maria Flor, Camila Morgado, Vera Holtz, Laura Neiva, Jean Pierre Noher, Michel Noher, Vinícius de Oliveira
Duração: 42 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais