Crítica | O Regresso do Incrível Hulk (1977)

A estratégia de lançamento da série O Incrível Hulk, pela CBS, foi inusitada. Não houve um piloto propriamente dito, mas sim um longa-metragem de origem do Gigante Esmeralda feito para TV que foi ao ar no canal americano no dia 04 de novembro de 1977 e que ganhou lançamento cinematográfico em alguns territórios fora dos EUA. E, como se isso não bastasse, esse telefilme ganhou uma continuação direta nem bem um mês depois, no dia 27 de novembro, também no formato de longa-metragem, solidificando o início da Era Hulk na televisão que duraria até que por bastante tempo.

Ambos os longas foram, depois, “inseridos” na primeira temporada da série, que estreou em 10 de março de 1978 com o episódio Final Round, com David Banner (Bill Bixby) já transformado no Hulk (Lou Ferrigno) e a origem do primeiro telefilme sendo condensada na hoje clássica e melancólica abertura do episódio. O Regresso do Incrível Hulk, como o segundo longa foi originalmente intitulado, teve sua duração quebrada em duas partes, ganhando um novo título, Death in the Family, ou Morte em Família, hoje com a primeira parte contendo uma abertura ampliada que reconta em mais detalhes os eventos do primeiro telefilme e a segunda já com a versão mais curta e mais conhecida.

Diferente de O Incrível Hulk, que, mesmo tendo sido produzido para ser o backdoor pilot da série, tinha “jeito” de telefilme ou, com algum esforço, obra cinematográfica, sua continuação nada mais é do que um episódio estendido mesmo, com David Banner, a caminho de um hospital para tentar uma cura, esbarra em uma fazenda onde ajuda uma garota que não pode andar (e que misteriosamente não usa cadeira de rodas para se locomover, mas sim muletas). Não demora muito e David descobre que a jovem Julie (Laurie Prange) é a herdeira de uma fortuna construída por seu pai que morreu recentemente em um acidente de barco. Mais do que isso, Banner logo desconfia – e depois confirma – de um plano para eliminar a menina, fazendo de tudo para impedir o assassinato, inclusive sendo “enraivecido” algumas vezes para transformar-se em sua contrapartida esverdeada.

Quando digo estendido, quero dizer, na verdade, que ele é mais longo do que precisava ser considerando a simplicidade da história e sua forma de execução bastante burocrática pela direção de Alan J. Levi, que, diferente de Kenneth Johnson, no primeiro telefilme, se esforçava para emprestar uma continuidade fluida para a narrativa. Aqui, tudo é quebrado em pequenos pedaços para facilitar a digestão e chega a ser surpreendente como o epílogo no hospital força uma elipse que desnecessariamente “come” diversos dias do filme, correndo com algo que simplesmente não precisava ser assim. Até mesmo a participação do insuportável repórter Jack McGee (Jack Colvin) é marginal na melhor das hipóteses, com o personagem aparecendo de maneira esporádica, sem nenhum objetivo maior do que não permitir que o espectador esqueça que ele existe.

No lado positivo, a presença de Bill Bixby é um bálsamo. Sem parecer fazer muito esforço, seu David Banner torna-se um personagem incrivelmente empático, daqueles que torna fácil acreditar sua conexão imediata com toda a sorte de personagens, aqui especialmente Julie e o ermitão Michael (John McLiam). É praticamente impossível não se compadecer pelo olhar triste, mas orgulhoso e corajoso de Bixby, algo que Ferrigno, como a criatura, emula de seu jeito, criando uma combinação inusitada entre o “médico e o monstro“. Como curiosidade, vale citar a participação de Gerald McRaney (o George Hearst, de Deadwood) como o capataz Denny Kayle, já que o ator voltaria a aparecer na série outras três vezes, cada uma como um personagem diferente.

A transformação de Banner no Hulk é mais lenta e detalhada nesse segundo telefilme, com uma maquiagem menos acentuada no rosto de Ferrigno, o que resulta em bons momentos de efeitos especiais considerando a época e a mídia, com um Gigante Esmeralda ainda mais humanizado, capaz de entender comandos e diálogos, além de muito claramente entender o que é necessário fazer em cada circunstância. Essa abordagem para o monstro é a que marcaria a série já a partir de seu primeiro episódio, ainda que haja uma evolução um pouco maior nesses efeitos com o passar do tempo.

O Regresso do Incrível Hulk definitivamente não precisava ser um longa-metragem, pelo menos não da forma como ficou. Até havia material para tornar a história mais cadenciada, ocupando o tempo de maneira equilibrada. Mas, no final das contas, o episódio exageradamente estendido é simpático e abriu de vez o caminho para os 80 episódios e outros três telefilmes que seguiram até 1982.

O Regresso do Incrível Hulk (The Return of the Incredible Hulk // Death in the Family, EUA – 1978)
Direção: Alan J. Levi
Roteiro: Kenneth Johnson
Elenco: Bill Bixby, Jack Colvin, Lou Ferrigno, Laurie Prange, Dorothy Tristan, Margaret Griffith, John McLiam, Mills Watson, William Daniels, Gerald McRaney, Victor Mohica, Robert Phillips, Ann Weldon, Linda Wiser, Roger Aaron Brown, Janet Adams
Duração: 95 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.