Crítica | O Rei (2019)

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“As expectativas são altíssimas” para um filme que tem nota média de 7,4 no IMDB e 86% de aprovação no Rotten Tomatoes. Porém, quanto maior o aguardo, maior a queda. E este é o caso de O Rei, que não consegue acompanhar sua proposta original, tornando-se um filme que, embora seja bem explicado, não convence pelas suas cenas lentas e diálogos infantis.

Ambientado no início do século XV, O Rei conta a história de Hal (Timothée Chalamet), um príncipe cedido à farra da cidade. Quando seu pai encara uma doença mortal, Hal reivindica o trono com o propósito de trazer paz à Inglaterra. Agora chamado de Henrique V, o novo rei precisa lidar com as ameaças francesas ao passo que tem seus métodos questionados pelos seus seguidores.

Para quem se perde facilmente em dramas de reinos, que geralmente detém de muitos nomes envolvidos, O Rei pode servir como solução para o problema. Embora as cenas transitem repentinamente de um ambiente a outro, somado ao fato dos personagens se parecerem fisicamente, o roteiro redundante não deixa qualquer espectador para trás. Uma mesma ideia, assim, é repetida mais de uma vez na história, de forma que consegue atiçar os mais dispersos. Em exemplo, temos o fato da boemia de Hal ser explorada, no mínimo, três vezes no começo do filme. Uma vez citada já era mais do que suficiente para entendermos a posição do personagem na obra.

E isso é um problema porque torna o filme cansativo. O público poderá cansar da película antes do término do primeiro ato. E a tendência não é de melhora, visto que o segundo ato é ainda mais redundante que o primeiro. Ali, por exemplo, temos o protagonista buscando uma estratégia para deter os franceses durante cerca de 30 minutos; estratégia essa que poderia ser desenvolvida em 10 minutos eficientes. Além disso, o roteiro deixa a desejar no desenvolvimento dos personagens, principalmente do protagonista. Inicialmente Hal é bem explorado, com enfoque em seus ideais diferentes e pacifistas. A partir do segundo, entretanto, parece que ele sofreu uma pausa no tempo: não tem qualquer avanço psicológico e coloca todo o peso da história  nos ombros de Falstaff (Joel Edgerton), que não segura o enredo de maneira convincente. 

Fica nas mãos de Falstaff conduzir o rumo das batalhas, por exemplo. Esse fator seria mais interessante se o rei tomasse as decisões por conta própria, ou seja, sem a influência de um segundo personagem. Isso alimentaria o fator que a própria trama levanta: Hal é um homem corrompido pelas necessidades da guerra e, portanto, o meio o tornou um homem sanguinário. Mas isso se perde.

As cenas de luta são angustiantes. No primeiro ato temos o embate entre Hal e Hotspur (Tom Glynn-Carney). De fato, estamos diante de uma luta produzida por alunos da quinta série. A cena se embasa em dois minutos ininterruptos de batalha sem emoção, acompanhada de sons de batida que nem ao menos acompanham o som de uma armadura ou espada tocando uma na outra. Apesar desse recurso trazer um ar menos lendário ao filme — algo que o diretor David Michôd pareceu destacar, principalmente pela fotografia mais voltada ao realismo — ele é utilizado de maneira ineficiente. E também encontramos problemas nos diálogos. Quem, em meio da guerra, teria tempo para pensar em diálogos reflexivos? Pior ainda: quando os diálogos são reproduzidos de modo infantil, com gritaria sem sentido que mais parecem crianças brigando. Convenhamos que Hal é um homem novo, porém rebaixá-lo em certos momentos do diálogo a uma criança é algo um tanto quanto vergonhoso.

Também quero separar os efeitos sonoros da trilha sonora. No caso das músicas de fundo, Nicholas Britell compõe peças interessantes, que acompanham o gênero de guerra. Também não era de se esperar menos da pessoa que tem em seu currículo nada mais nada menos que a trilha sonora de MoonlightAs atuações também salvam o filme de sua decadência total. Chalamet atua mais uma vez de forma digna, fazendo o papel satisfatório de um personagem jovem, sensato e que precisa lidar com as frustrações da guerra. Acompanhando ele, Robert Pattinson (o nosso querido vampiro que brilha no Sol) também desempenha o papel de modo eficaz, principalmente imitando o sotaque francês. Uma das poucas vezes em obras que acompanhamos alguém imitar um sotaque sem passar vergonha. Outro ponto positivo a destacar é a ambientação.

O Rei é um filme de guerra cansativo. O roteiro tenta cativar todo tipo de espectador, mas se torna cansativo tanto para quem se dispersa fácil quanto para quem deseja uma película mais fluída. O desastre só não é absoluto por causa das belas atuações dos protagonistas, trilha sonora convincente e boa contextualização dos personagens e do ambiente.

O Rei (The King)  – Reino Unido, 1 de Novembro de 2019
Direção: David Michôd
Roteiro: David Michôd, Joel Edgerton
Elenco: Timothée Chalamet, Robert Pattinson, Ben Mendelsohn, Joel Edgerton, Lily-Rose Depp, Dean-Charles Chapman, Sean Harris, Thomasin McKenzie, Tom Glynn-Carney
Duração: 140min.

FERNANDO ANNUNZIATA . . . Por meio de um sonho, fui convocado pessoalmente pela Marilyn Monroe a participar do mundo das críticas cinematográficas. Sem saber o que esse mundo me reservava, cavalguei com a Lady Godiva em busca do Lendário Livro de Verdades. Atravessamos Gotham, Hogwarts e Twin Peaks atrás do nosso objetivo. Com a revelação dentro de um baú feito de mármore a dois metros dos nossos olhos, nos deparamos com o melhor final possível: o Livro era um espelho. Agora sou o dono de todas as verdades e faço parte de um culto de bruxos chamado Plano Crítico. A única resposta que não tenho é se prefiro minha antiga vida, quando eu era um mortal estudante de Comunicação Social de 18 anos, ou a vida atual, na qual eu descobri a verdade sobre Bohemian Rhapsody.