Crítica | O Rei da Baixaria

Quando a cantora mexicana Selena foi brutalmente assassinada, em 1997, o humorista, fotógrafo e locutor de rádio Howard Stern, considerado por muitos como o Rei de Todas as Mídias fez algo inusitado durante a transmissão da notícia. Em meio aos comparativos com Alvin e Os Esquilos, Stern tocou músicas da artista, acompanhadas por sons de tiros, postura de humor grosseiro que deixou a comunidade hispânica barbarizada com tamanha falta de sensibilidade. Essa é apenas uma das tantas polêmicas provocadas pelo homem que no mesmo ano, ganhou uma biografia cinematográfica sobre a sua vida, uma trajetória de erros, acertos e muita “baixaria”.

Dirigido por Betty Thomas, a cinebiografia de Howard Stern foi concebida tendo o roteiro de Len Blum e Michael Kalesmiko como guia, profissionais que se basearam no livro autobiográfico de Stern para a construção cinematográfica de sua história. Ao longo de seus 109 minutos, o filme narrado pelo protagonista aborda a sua trajetória de garoto tímido, nascido numa época de explosão demográfica e multicultural estadunidense, mistura que segundo seu ponto de vista, tornou a sua “essência” multifacetada. Ele cresce, não se adapta aos colegas, principalmente por sua “estranheza”. Segue um caminho indesejado pelos pais, ao cursar Comunicação, área que o permitirá se descobrir e ser um dos ícones da história do rádio, mesmo colecionando numerosas controvérsias éticas.

Ao flertar com a linguagem do docudrama, O Rei da Baixaria toca em questões que deixam os conservadores com as faces cheias de rubor, tamanha a postura dessacralizadora de Howard Stern para falar de sexo, orgasmo, drogas, aborto, dentre outros temas, ao vivo, em seu programa. Há uma cena bem específica que resume os seus excessos de maneira formidável: o orgasmo de uma fã por telefone, emitido na programação sem censura alguma. A moça conversa com o apresentador e fala de seus desejos e pensamentos proibidos. Assim, ele, como bom conhecedor dos sistemas que regem a sonorização, pede que ela coloque a caixa de som deitada, sente em cima e modifique a amplificação para atenuar o movimento das ondas sonoras, responsáveis por lhe conceder a manipulação vaginal necessária para o orgasmo, como numa relação fisicamente próxima. Mais “Howard Stern que isso”, impossível!

No que tange aos aspectos estéticos, O Rei da Baixaria possui um trabalho competente e traz aos espectadores as imagens e sons ideais para adentramos numa produção que trata do rádio e de suas possibilidades comunicacionais. O design de produção assinado por Charles Rosen conta com a colaboração de Rick Butler (direção de arte) e Beth Kushnick (cenografia), profissionais detalhistas preocupados no processo visual imersivo captado pela direção de fotografia eficiente de Walt Lloyd. Outro detalhe que não pode ser ignorado é a concepção dos figurinos, assinados por Joseph G. Aulisi, fundamentais para expressão dos aspectos psicológicos de Howard Stern, também expostos em seu comportamento a cada cena.

A dinâmica no ambiente radiofônico é bem conduzida pela produção, bastante convincente em seus espaços cênicos que dialogam com as ações dos personagens e nos faz sentir a presença do “rádio”, mesmo que o veículo emissor seja o cinema. Tal como os personagens de Os Piratas do Rock, Howard Stern é o arauto dos seus seguidores, salvas as devidas proporções, obviamente, já que o grupo que emitia o programa musical pela rádio pirata situada em um navio tinha outra proposta. Em suma, propostas diferentes para posturas semelhantes: quebrar paradigmas e estabelecer outras possibilidades de “pensar” e “agir”, tendo a mídia radiofônica como emissora de suas mensagens.

Ciente do poder do rádio e do posto privilegiado que alcançou, Stern deita e rola, tendo como segurança o consentimento de seus fieis seguidores. Lançado em 1997, O Rei da Baixaria é um filme bem característico de seu protagonista, isto é, uma narrativa excêntrica sobre como o poder alcançado por uma pessoa não pode ser colocado em xeque quando o “povo” é quem aprova as suas atitudes, mesmo os momentos mais constrangedores e exagerados de uma persona divertida, mas representante do politicamente incorreto em seu nível máximo.

O Rei da Baixaria — (Private Parts) Estados Unidos, 1997.
Direção: Betty Thomas
Roteiro: Len Blum, Michael Kalesmiko, Howard Stern
Elenco: Carol Alt, Fred Norris, Howard Stern, Jeena Jameson, Mary McCormack, Michael Murphy, Robin Quivers
Duração: 121 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.