Crítica | O Rei Leão (Com Spoilers, 2019)

A sala de cinema absolutamente lotada e dominada amplamente pelo público adulto não escondia o significado maior do remake em live action de O Rei Leão – uma das animações mais icônicas de todos os tempos e, para mim, a maior obra-prima já realizada no gênero. O sentimento de nostalgia e de reencontro com um passado cinematográfico tão marcante na biografia de toda uma geração dava o tom da sessão e comandava a expectativa do público. Todos queriam ver o que as novas tecnologias, vinte e cinco anos depois, poderiam acrescentar a uma história que o público já sabia de cor. Particularmente, eu acreditava que a abertura (momento hors concours na história das animações) já demonstraria bem a que veio essa refilmagem e confesso que minhas previsões se concretizaram sem grandes equívocos.

A técnica em live action, hiperrealista e esteticamente tão deslumbrante, não trouxe maiores encantamentos nem à abertura nem ao corpo do novo O Rei Leão. A noção de profundidade dada pelo 3D, via de regra, não alcançou nada além de um efeito meramente cosmético, cujo impacto sobre o público rapidamente entrou em esgotamento. Alguns planos mais fechados na expressão do macaco Rafiki ao batizar o príncipe Simba até esboçaram uma tentativa de dar novos sentidos à cena – algo que a limitação técnica de uma animação década de 90 jamais permitiria. Mas é preciso dizer que poucas coisas nessa refilmagem ombreiam ou superam o trabalho original e o motivo não é segredo para ninguém: inspiração e criatividade não tem época e são insubstituíveis. O público que ansiava pelo reencontro com os personagens de sua infância não seria tão facilmente persuadido. E assim a sessão terminou, no mínimo, em clima de frustração.

Não se trata de dizer que nada é bom neste já polêmico remake. A cena memorável da morte de Mufasa adquire contornos bastante tensos quando o diretor Jon Favreau opta por enquadrar a escalada do rei pelo penhasco ao nível dos olhos de Simba. A vilania de Scar nesse momento não deixa a desejar em nada para o original e o trabalho de Favreau acrescenta um tapa no rosto do irmão como ato final do tio usurpador do poder. É preciso reconhecer que as cenas de ação e luta se tornaram bem mais interessantes em 2019 – algo que me parece ser maior mérito dos recursos tecnológicos atuais do que propriamente do trabalho humano envolvido no roteiro e na direção deste O Rei Leão. Mas a mesma tecnologia que deu força a esses momentos fracassa completamente naqueles de maior poesia. O plano-sequência em que um pelo da juba de Simba é levado pelo vento até ser comido por uma girafa parece completamente avulso e dispensável. Inócua também é a cena em que o príncipe ouve a voz do pai vinda do céu. Em vez do rosto de Mufasa aparecendo de forma pujante no original, temos apenas nuvens coloridas que se movem inquietas no céu. Um exibicionismo tecnológico a serviço de nada.

O tratamento dado aos “novos” personagens não é menos irregular. Enquanto leões aparecem belos e altivos e as hienas sórdidas e traiçoeiras (até superando a caracterização original), três personagens essenciais ressurgem completamente apagados e entediantes. O primeiro deles é o macaco Rafiki, que na obra anterior fazia o papel de um autêntico bobo shakespeariano (jocoso e exótico, mas ao mesmo tempo perspicaz e sábio). Em O Rei Leão de 2019, o babuíno não tem qualquer brilho. Foi destituído de todos os trejeitos e maneirismos que o compunham como uma figura carismática e com traços próprios. Senti constrangimento ao vê-lo tão genérico, distribuindo cajadadas nas cabeças das hienas durante a batalha final, como se essa fosse a sua essência. Onde ficaram seu intelecto e sua argúcia? Possivelmente em 1994 mesmo.

 O caso de Timão e Pumba é ainda mais grave, pondo em xeque até a validade dessa verdadeira onda de refilmagens em live action (serão elas meros caça-níqueis ou assim se tornarão por sua própria incompetência?). A dupla mais querida do filme denuncia o seu calcanhar de Aquiles. Não é possível construir tantos momentos engraçadíssimos proporcionados por esses dois personagens através do hiperrealismo das novas tecnologias. Tanto é assim que muitas das piadas executadas por Timão e Pumba foram simplesmente suprimidas neste remake. Para que realmente funcionem, Timão e Pumba necessitam ser o suricato e o javali “de mentira”, coloridos artificialmente e com a graciosidade que só a fantasia poderia lhes dar. Só assim caberiam as piadas e as “caras e bocas” que ainda nos fazem gargalhar tanto.

Esse é o erro primordial que identifico nessa safra de remakes atuais – apostar que prosopopeias hipertecnológicas substituirão a magia das tradicionais e imaginativas animações. Podem dar certo até certo ponto, sobretudo quando é preciso maior tensão e ação. Mas falharão miseravelmente em momentos cruciais para a composição do todo. O Rei Leão do novo século perde uma das características fundamentais de seu antecessor: o perfeito equilíbrio entre doses exatas de poesia, ação e humor. Se todos fomos ao cinema para rever alguns de nossos velhos conhecidos do mundo da animação, o que pudemos encontrar na tela foram só alguns deles. Tantos outros, pilares do encantamento original, simplesmente se ausentaram dessa vez. Continuaram no passado que todos continuarão a buscar para encontrar a antiga magia.

O Rei Leão (The Lion King) – EUA, 2019
Direção: Jon Favreau
Roteiro: Jeff Nathanson, Brenda Chapman
Elenco: Donald Glover, Beyoncé Knowles, James Earl Jones, Chiwetel Ejiofor, Alfre Woodard, John Oliver, John Kani, Seth Rogen, Billy Eichner, Eric André, Florence Kasumba, Keegan-Michael Key, JD McCrary, Shahadi Wright Joseph
Duração: 118 min.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.