Crítica | O Rei Leão (Sem Spoilers, 2019)

” Você tem que ocupar o seu lugar no ciclo da vida.”

Como aconteceu com Hamlet, obras marcantes tornam-se outras obras marcantes – no caso, um certo clássico animado de 1994 -, apenas para que essas, consequentemente, se transformem em novas. Assim sendo, que espaço ocupa a refilmagem de O Rei Leão num ciclo cinematográfico de refilmagens, se é que exista um? A começar, o roteiro original é retomado sem reais diferenças – os puristas amarão isso. Em contrapartida a qualquer renovação nesse sentido, mantém-se cenas inteiras intocadas, palavra por palavra, sílaba por sílaba, letra por letra. Exatamente como antes, o pequeno Simba (JD McCrary) é apresentado na Pedra do Rei e, então, precisa compreender que um dia será o sucessor do seu pai, Mufasa (James Earl Jones). Mas o projeto comandado por Jon Favreau permanece sendo uma reinterpretação, por conta da sua estética. Acompanhando a onda de remakes dos clássicos da Disney, o cineasta emprega, por meio de uma computação gráfica primorosa, o realismo aos personagens, que deixam de ser interpretações cartunescas de leões e tornam-se o mais próximo de leões verdadeiros. Como a renovação visual – a tecnologia – impacta os caminhos narrativos do longa-metragem, as suas nuances dramáticas e as propostas de gênero é o que importa. E de empecilhos e contradições, a obra revela, nesse sentido, camadas espessas.

O realismo gerado por uma computação gráfica interessada nas formas da natureza como ela é, substitui, portanto, a criatividade, a expressividade e as inúmeras possibilidades de uma animação que, anteriormente, não se prendia aos limites da realidade. O que há de mágico em um javali e um suricato sem traços próprios, porém, emulando o real apenas para, aparentemente, saciarem uma curiosidade superficial de espectadores do clássico? – a pergunta surge prontamente. O caso era outro, por exemplo, com Mogli: O Menino Lobo, que esse mesmo cineasta dirigira, em 2016. Lá, Jon Favreau possuía como referencial a presença de uma figura humana, compreendendo um universo de naturalismo, com animais realistas, por uma ótica fantástica e extraordinária – mesmo que o extraordinário fosse demais, apontaria um determinado urso. Era um ser humano, naquele caso, convivendo com animais antropomorfizados, enquanto, aqui, são bichos convivendo entre si, conversando como pessoas conversariam, mas sem terem qualquer gancho terreno para os sustentarem como maravilhas. A animação original encontrava a magia, por sua vez, nos números musicais grandiosos que enalteciam a vida e o amor; nos dramas familiares, que humanizavam as trajetórias e engrandeciam suas jornadas; e nas expressões dos personagens, individualizando-os.

Curiosamente, quem realiza essa ponte, entre tornar relevante e pessoal a ordinariedade da vida animal, é o próprio longa-metragem, como já aponta “Circle of Life” na abertura. O discurso destas animações de O Rei Leão, portanto, retrata a importância desse ciclo da vida, sem fim, que conta com o engrandecimento dos papéis de cada um dos animais, tanto de uma mera formiga quanto de um gigante leão, transfigurado na forma imponente de um rei. Há um teor fantástico morando inerentemente na maneira como a obra em si enxerga os seus personagens e suas caminhadas. Por isso, existe um deslumbramento menos vazio – até um certo ponto, no entanto – em animais aparentemente reais, extremamente realistas, estarem ganhando um peso enorme através de uma narrativa épica, que complementa um teor reverencial às suas existências. E isso Jon Favreau consegue capturar às vezes, quando aproxima a câmera de alguns bichos e aproveita as suas rotinas – Simba perseguindo um inseto é gracioso. Em um certo caso, o cineasta até acompanha um verdadeiro ciclo da vida, seguindo espécie por espécie, e contemplando a natureza de uma forma poética e sincera. Surpreendentemente, o problema não mora exatamente nessa tecnologia ou nesse ultra-realismo, que, em termos de discurso, inclusive intensifica todo o processo do longa.

Essa revisão cinematográfica do clássico animado poderia usar, assim sendo, a revolução técnica para prover uma importância, emoção e sentimento ao aparentemente insignificante, mundano. E pontuais adaptações, especialmente no humor, captam esse pensamento, de renovar a magia através da realidade. Zazu (John Oliver) perde as sobrancelhas negras anteriores, que remetiam a Rowan Atkinson – sua voz no original -, porém, ganha, em troca, os movimentos inexoravelmente cômicos de um pássaro realista, inquietamente mexendo sua cabeça. Timão (Billy Eichner) e Pumba (Seth Rogen), no mais, formam uma dupla que também trabalha bastante com essa relação do humor físico, correndo incansavelmente em situações específicas. Apenas as hienas que não pontuam bem em nenhuma tentativa de comédia. Com isso, a voz alia-se à computação gráfica e ao planejamento de Favreau para as cenas. Noutros casos, os atores precisam ir mais além, o que não conseguem, pois a obra é extremamente dicotômica. Chiwetel Eijofor, como Scar, até tem presença. Favreau, no entanto, decupa a maior parte do roteiro pensando em visualizar o enredo por meio de uma excessiva impessoalidade, não da imersão, que traria sarcasmo, ameaça e tensão pelos planos em si, não por conta de uma mera nostalgia renovada pelo deslumbramento.

O distanciamento não encontra-se na tecnologia, insisto, mas nos estranhos enquadramentos, que trazem um senso documental um tanto banal para cenas que perdem seu potencial gráfico e dramático – e isso vai muito além de animais realistas terem sentimentos expressivos ou não, pois a câmera de Favreau não tem sentimento. Enquanto sequências como Simba atrás de um inseto ou o já citado ciclo da vida personificado são tratadas com extrema sensibilidade, como se fossem extraordinárias, o drama em si é visto de longe. A carga das imagens com um todo é retirada para residir em um fator nostálgico vago, reiterado por cada conversa do original que se repete aqui. O cineasta não toma decisões que criariam uniformidade linguística, uma precisão na proposta. Aos mais corajosos artistas e empresas – o que não é o caso da Disney -, caberia até mesmo uma adaptação totalmente sem conversas, em que a antropomorfização dos animais não se desse por um caráter explícito, mas implícito em seus sentimentos – ora, alguns bons momentos do original, como a abertura, não traziam animais falantes e ainda tinham um poder emocional enorme. Se as conversas precisam continuar, as músicas precisam continuar, por que não o mesmo interesse pelas narrativas, ao invés da preocupação única com as belas imagens, por serem belas imagens?

O impasse é o seguinte: Favreau vai se ater a um retrato quase documental da vida animal, mais impessoal, ou ao caráter fabular da animação original, mais emotivo? Como irá conciliar ambas as questões? Nisso, a conversa de uma parte com a outra não funciona, em termos de linguagem e coerência no estabelecimento de uma proposta imagética. Os números musicais conseguem ser tão decepcionantes e até estranhos, consequentemente, quanto os de Guy Ritchie, em Aladdin. “Hakuna Matata”, por exemplo, é composto por alguns planos-sequências, que acompanham os personagens por tomadas longas, sem nunca se aproximar realmente da energia da canção ou criar musicalidade por meio da direção. Dessa maneira, a tecnologia está longe de ser a causadora de um desequilíbrio, e sim a maneira como é usada, sem qualquer coesão. Até mesmo novidades, como a medíocre canção “Spirit” – que parece meramente existir para Beyoncé  ter um “momento” só seu -, surgem para romper a ordem. O longa-metragem, com exceção de “Circle of Life”, vinha com canções partindo dos personagens em cena. Mas “Circle of Life” tem um caráter introdutório bem específico, enquanto “Spirit” rompe abruptamente a estrutura. Favreau e a Disney, portanto, preferiram uma reverência comercial à obra noventista, ao invés de reverenciar esse ciclo sem fim.

O Rei Leão (The Lion King) – EUA, 2019
Direção: Jon Favreau
Roteiro: Jeff Nathanson, Brenda Chapman
Elenco: Donald Glover, Beyoncé Knowles, James Earl Jones, Chiwetel Ejiofor, Alfre Woodard, John Oliver, John Kani, Seth Rogen, Billy Eichner, Eric André, Florence Kasumba, Keegan-Michael Key, JD McCrary, Shahadi Wright Joseph
Duração: 118 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.