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Crítica | O Resgate de Harrison

por Leonardo Campos
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Diante da necessária dinâmica interna da dramaturgia cinematográfica, torna-se necessário transformar algumas histórias inspiradas em dados da vida real em versões potencializadas dos fatos para permitir que a narrativa contada seja movida por conflitos que coloquem os espectadores para purgar diante do destino dos personagens, numa espécie de reflexão sobre a sua própria condição no lado de cá da tela. Em O Resgate de Harrison, drama lançado em 2000, contemplaremos a sufocante trajetória de uma mulher que não aceita as versões de um fato que lhe é contado de maneira pouco convincente. Ela é Sarah (Andie MacDowell), jovem mulher que não quer acreditar na morte do marido, Harrison (David Strathairn), um fotógrafo aparentemente morto durante a guerra que marcou os movimentos em prol da independência da Croácia entre 1991 e 1995. Ao cobrir o evento histórico pelas lentes de um fotojornalista, o personagem é dado como morto, mas a sua esposa, firme no papel de matriarca da família Lloyd, prefere acreditar que a história contada não é exatamente essa e parte para a investigação.

Diante do exposto, parece que o espectador se encontrará diante de uma agitada narrativa de suspense com toques psicológicos, mas adianto que não é essa a proposta acolhida pela direção de Élie Chouraqui, diretor que investe na letargia da ação, focado na contemplação de cada dado obtido pela esposa ansiosa, num filme mais conectado com o drama profundo, distante da ideia movimentada de um suspense agonizante. Chouraqui assume o roteiro de Didier Le Pêcheur, material que também teve a sua colaboração, o que lhe dá uma dupla função no desenvolvimento de O Resgate de Harrison, inspirado no livro de Isabel Ellsen, também responsável por colaborar com a adaptação da publicação para o suporte cinematográfico. Enviado pela Newsweek para cobrir o acontecimento bélico, o fotojornalista testemunha a morte de vários civis e até mesmo outros jornalistas que estavam lá na mesma função que a sua. Ao longo dos extensos 131 minutos da produção, acompanhamos a mescla de pseudo-entrevistas inspiradas no real.

É um material essencial para que os perfis psicológicos sejam mais adensados enquanto a saga de Sarah na busca pelo seu marido sai da teoria e se materializa. Construída por uma atuação amena, a personagem circula pela narrativa sob o ponto de vista da direção de fotografia de Nicola Pecorini, também calma, com longos planos e iluminação que contemplam apenas o necessário em cena, deixando sempre os personagens no centro das atenções, sem dispersão com os adereços e espaços gerenciados pelo design de produção de Giantito Burchiellaro. Sarah, acompanhada pela sutil condução musical de Bruno Coulais durante a sua jornada, parte em busca de algo além da intuição, pois na última ligação entre ambos, ela acredita ter pistas que possam explicar que o marido de fato não teve a sua vida ceifada na condução do trabalho.

Ele havia se comprometido em deixar os perigos destas viagens para se dedicar aos cuidados da família. Não é aceitável que uma tragédia venha a ocorrer justamente depois de tantos acontecimentos anteriores igualmente perigosos. Ao menos é o que as necessidades dramáticas de Sarah nos transmitem. É com toda a sua garra que a esposa segue em busca de sua verdade, algo que pode estar realmente conduzido por uma bússola interna da personagem, aparentemente certa de suas convicções. Será em meio ao amplo feixe de planos-sequência e nas imagens congeladas que emulam a linguagem da fotografia que adentraremos, na posição de espectadores que dividem as informações com Sarah, nesta investigação que adere ao processo metalinguístico do próprio jornalismo, campo de ação propício aos que possuem “faro” para pesquisa. Será que Harrison está vivo? Há mesmo um resgate a ser realizado? É preciso assistir para saber, no entanto, já adianto: as respostas não são fáceis demais e é preciso acompanhar com paciência as figuras que circulam diante de questões burocráticas e ausência de pistas mais palpáveis para a continuidade da caminhada numa história que tem tudo para ter terminado mal.

Diante das perguntas de ordem dramática, também nos deparamos com outras reflexões ao longo do filme, em especial, ao exercício da fotografia de guerra como registro importante para os anais da nossa história. É uma estratégia de crescimento da fonte de informações para a cobertura dos mais diversos casos, neste caso, o conflito dos croatas em busca da libertação, também conhecido por Guerra dos Balcãs. Ao passo que se apresenta como perigoso, os trabalhos fotográficos nos campos de batalha são definidores da nossa visibilidade diante dos fatos apresentados ao longo de textos que nos explicam os processos históricos que ajudam na compreensão do presente. Em ação numa era prévia ao advento da manipulação digital das imagens, Harrison é um homem que se mantém onipresente ao longo de todo o filme, mergulhado na nebulosa guerra marcada por genocídio, fome e miséria, ocasionada por fervores nacionalistas e crises políticas em torno de questões sociais e de segurança. É o fim da chamada “cortina de ferro”, porta de entrada para as relações capitalistas num território em reconstrução.

O Resgate de Harrison (Harrison’s Flowers) — França, 2000
Direção: Élie Chouraqui
Roteiro: Didier Le Pêcheur, Élie Chouraqui, Isabel Ellsen
Elenco: Adrien Brody, Alun Armstrong, Andie MacDowell, Diane Baker, Scott Anton
Duração: 130 min.

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