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Crítica | O Retorno de Daimajin

por Ritter Fan
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A chamada Trilogia Daimajin foi filmada simultaneamente pela Daiei Film e lançada em intervalos de poucos meses no mesmo ano de 1966. Qualquer pessoa normal que ouça uma explicação dessas deduzirá automaticamente que se trata de uma história só dividida em três partes e que o diretor, roteirista e elenco são exatamente os mesmos. Mas essa pessoa normal – como é meu caso, pelo menos eu acho que sou normal – estaria redondamente enganada. A fantástica fusão de filme de samurai e de kaiju tem três capítulos que não só são completamente independentes, como só o roteirista e a equipe técnica foram mantidos, com os diretores e os elencos sendo impressionantemente trocados. Uma inegável raridade!

E, melhor ainda, é uma raridade boa. A qualidade da direção de arte de O Retorno de Daimajin é a mesma do primeiro longa, o que é inegavelmente uma excelente notícia aos apreciadores do gênero e, por gênero, quero dizer jidaigeki, drama de época, e kaiju, filme de monstro, já que, por mais improvável que seja, há um cuidado muito grande com cada dela da produção, da diferenciação dos figurinos entre cidadãos comuns e nobreza, passando por cenários construídos e naturais que ajudam na imersão, além de efeitos especiais – todos práticas e/ou óticos, lógico – bem acima da média. Só para o leitor ter uma ideia, a imagem da presente crítica é de um momento em que o deus Daimajin literalmente abre o mar (no caso, um lago) e a sequência não deixa muito a dever ao mesmo momento em Os Dez Mandamentos.

Estruturalmente, porém, O Retorno de Daimajin é essencialmente a mesma coisa que Daimajin, ou seja, um lorde feudal particularmente beligerante se aproveita de um momento estratégico para tomar um feudo comandado por outro lorde, tendo que caçar os filhos dele que acabam fugindo. O roteiro de Tetsurô Yoshida não muda o básico, mas cria algumas diferenças bem interessantes, começando pela geografia do lugar onde o segundo filme se passa. Agora, no lugar de uma estátua de Daimajin em uma região montanhosa, ela está encrustada em uma ilha no meio do lago Yakumo, margeado por três vilarejos. O ambicioso e despótico Lord Danjo Mikoshiba (Takashi Kanda), descontente com seu feudo, decide tomar Chigusa, o que acaba inadvertidamente envolvendo o terceiro vilarejo, Nagoshi, em uma bem construída narrativa tripartite que converge na ilha e lida com uma sucessão de capturas e fugas de reféns.

Em termos comparativos com o primeiro longa, apesar da identidade da trama sob o ponto de vista macro, esses detalhes acabam criando uma dinâmica narrativa maior que o diretor Kenji Misumi usa muito bem em sua decupagem e resultando em uma obra mais ágil. No entanto, são dois filmes decididamente curtos que não perdem seu ritmo em momento algum, com o segundo contando também com ótimas sequências de batalha entre batalhões de samurais. A interferência divina direta, ocupando algo como os 15 ou 20 minutos finais, parece ter cenas idênticas (talvez literalmente as mesmas) do primeiro longa, mas a sequência da abertura do lago cria um ar épico ainda maior, com o salvamento de uma princesa e o extermínio do vilão que funcionam de maneira até poética.

O Retorno de Daimajin pode até ser encarado pelos mais cínicos como um mero reempacotamento do primeiro longa, ou seja, a mesma coisa outra vez. E, de fato, ele é isso. Mas ele definitivamente não é apenas isso. Não só temos o enorme cuidado técnico que eleva a qualidade desses filmes a algo raro na época, como o segundo consegue trabalhar uma narrativa que faz convergir três vilarejos ao redor de uma ilha mística de maneira muito fácil, muito fluida e gostosa de assistir. O segundo capítulo da trilogia que gira ao redor do misterioso deus de pedra é um excelente mais do mesmo que merece se conferido.

O Retorno de Daimajin ( 大魔神怒る – Japão, 1966)
Direção: Kenji Misumi
Roteiro: Tetsurô Yoshida
Elenco: Kôjirô Hongô, Shiho Fujimura, Tarô Marui, Takashi Kanda, Kôji Fujiyama, Yûji Hamada, Chikara Hashimoto, Sei Hiraizumi, Yoshitaka Itô Yoshitaka, Kiyokazu Kagatsume, Hyôsuke Kanbe, Jutarô Kitashiro, Keiko Koyanagi, Hideo Kuroki
Duração: 79 min.

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