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Crítica | O Retorno de Hastur, de August Derleth

Quase uma enciclopédia do horror cósmico.

por Luiz Santiago
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O Retorno de Hastur é uma história muito interessante dentro do Universo de horror cósmico, por ser um pastiche que cumpre bem a função de elencar elementos externos e, através deles, chamar o horror para si mesma, através de alguma novidade. Originalmente publicada na revista pulp Weird Tales, em março de 1939, essa aventura foi escrita por August Derleth, que contribuiu bastante para os Mitos de Cthulhu, além de ser bastante conhecido por fundar, juntamente com Donald Wandrei, a Editora Arkham House. Nessa história, ele reuniu um bom número de personagens, livros fictícios e fatos literários já conhecidos a respeito dos Mitos de Cthulhu e dos Mitos de Hastur (ou Ciclo de Hastur), indo de Um Habitante de Carcosa até  A Sombra em Innsmouth.

No início é um pouco difícil não implicar com o autor. Ele parece fazer questão de citar os livros místicos e tenebrosos sem ter muita motivação narrativa e imediata para isso. Em poucos parágrafos nós o vemos falar do Necronomicon (claro!), do sinistro De Vermis Mysteriis, do terrível Culte de Ghoules, do condenável Unaussprechlichen Kulten, do aterrorizante Livro de Eibon (os Manuscritos Pnakóticos) e por fim, do temível Texto de R’lyeh. Essa toada tem um impacto relativamente negativo, que reforça o caráter de pastiche do conto, mas que pelo menos consegue nos preparar para abordagens similares que o autor faria a partir daí, especialmente na segunda metade do texto, quando cita personagens reais e situações fictícias bastante conhecidas dentro do gênero.

O que não dá para negar é a forma como o autor consegue lançar bem as sementes de uma trama medonha, contando a história de Amos Tuttle que, ao morrer, deixou para o narrador (Haddon) uma tarefa bastante bizarra: a destruição completa de sua mansão. Passado o primeiro impacto negativo gerado pela condescendência do autor para com ele mesmo, o leitor vai mergulhando com vontade nesse mar de medo, “ouvindo” os terríveis barulhos descritos nas páginas e torcendo para que os personagens não sejam estúpidos e façam o que o velho místico e estudioso ordenou, o que não acontece, obviamente. O sobrinho de Amos logra impedir a destruição da casa do tio e passa a morar ali. É quando a segunda parte da história se dá, já ancorada em uma atmosfera de horror cósmico, mas construindo, dessa vez, juntamente com o leitor, uma nova camada para essa atmosfera.

Tanto o início quanto o final de O Retorno de Hastur são abruptos em algumas coisas e insatisfatórios em outras. Nós gostamos das resoluções que o autor escolhe, mas temos a sensação de que falta algo para melhor completar alguns espaços — e não, não estou falando de revelação completa dos monstros, nada disso. Falo de preenchimento narrativo do andamento em algumas ações, com sensações, diálogos e descrição de reações ou de mudanças mais detalhadas do espaço geográfico em torno — ou de que falta alongar cenas que são muito interessantes, mas que que infelizmente são cortadas sem uma boa conclusão.

O que é possível extrair dessa história é que com certas forças cósmicas não se brinca. Eu acredito que, para uma história curta como esta, lidar apenas com um grupo de criaturas seria mais interessante. O autor tem um pouco de dificuldade de trabalhar com Hastur (do espaço sideral) e Cthulhu (das profundezas do oceano), especialmente no final do conto, quando “a grande revelação” (na verdade algo que a gente já tinha subtendido) nos é entregue. Isso não tira, porém, toda a diversão que temos durante a leitura. O medo, como disse antes, é bem estruturado aqui e Derleth consegue desenvolver de forma satisfatória a decadência do jovem Tuttle, bem como a sua morte — a despeito da mista sensação que temos com o tratamento dado pelo autor às criaturas na mesma sequência. É uma história marcante em diversos aspectos e, apesar de tudo, digna do Universo do qual faz parte.

O Retorno de Hastur (The Return of Hastur) – Estados Unidos
Autor: August Derleth
Publicação original: Weird Tales (março de 1939)
30 páginas

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