Crítica | O Retrato de Dorian Gray (1945)

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Em 1890, o polêmico poeta e dramaturgo Oscar Wilde lançaria o seu primeiro e único romance, que se tornou uma das obras mais controversos da história da literatura britânica: O Retrato de Dorian Gray. A história sobre os perigos corruptores do hedonismo desenfreado e de uma existência autocentrada ganhou diversas adaptações para o cinema e para a TV ao longo dos anos, mas nenhuma foi tão celebrada quanto a produzida por Hollywood em 1945, escrita e dirigida por Albert Lewin.

Na trama, Dorian Gray (Hurd Hatfield) é um jovem aristocrata que está posando para um retrato feito pelo pintor Basil Hallward (Lowell Gilmore). Ao conhecer um amigo de Basil, Lord Henry Wotton (George Sanders), cujas teorias hedonistas fazem o rapaz temer o fim da própria juventude, Dorian diz em voz alta que daria a própria alma em troca de que o retrato envelhecesse em seu lugar. Algum tempo depois, ao perceber que o seu desejo foi atendido, e que o retrato não apenas está envelhecendo enquanto ele permanece jovem, mas também carregando as marcas de seus vícios e pecados, Dorian passa a viver apenas em nome do próprio prazer, não se importando com as vidas que tiver que destruir para obtê-lo.

O roteiro de Lewin segue o livro de Wilde bem de perto, fazendo poucas mudanças em relação ao material original, e inclusive preservando a figura de um narrador observador irônico, que ganha a voz de Cedric Hardwicke. Mas tendo sido produzido no auge do Código Hayes, que estabelecia “normas morais” para os filmes de Hollywood, o filme sobre um homem que é corrompido pela busca de qualquer prazer ao não precisar encarar a expectativa de envelhecer, acaba perdendo força, pelas limitações impostas. Lewin tenta driblar essas limitações concentrando na narração a responsabilidade de retratar as ações hediondas de Dorian, em uma escolha não muito bem sucedida, pois torna o filme didático. O roteiro fala muito sobre o quão perverso o protagonista é, ao invés de mostrar ou sugerir, nunca passando a sensação de que Gray seria essa figura depravada apontada pelos personagens.

Mas se o roteiro fica longe de explorar todo o potencial que a premissa oferecia, as atuações (em sua maior parte) e o bom trabalho de direção garantem o nosso envolvimento com o projeto. A direção de fotografia é fantástica em retratar a atmosfera sombria da narrativa com um desenho de luz que ressalta cada vez mais as sombras à medida em que Dorian vai se tornando mais corrupto. A escolha da direção ao fazer inserções coloridas nos momentos em que o retrato do título aparece na tela surge como uma opção muito efetiva, pois nos permite compartilhar com os personagens a admiração e o espanto ao ver o quadro, seja por destacar a beleza do protagonista, ou o horror que ele fez com a própria alma.

George Sanders domina todas as cenas de que participa na pele de Lord Wotton, ao dar ao aristocrata um ar sarcástico e blasé, sempre tecendo os seus comentários em um tom clínico e impessoal. Ainda deve-se destacar o trabalho de Angela Lansbury como Sibyl Vane, uma jovem atriz de teatro que tem um pequeno, mas importante papel na trama ao ter sua inocência e juventude destruída por Dorian. Lowell Gilmore e Donna Reed estão igualmente competentes como Basil Hallward, e sua sobrinha Gladys, que acaba se tornando a última chance de salvação para Gray.

Diante de ótimos coadjuvantes, o elo fraco do elenco acaba sendo justamente o seu protagonista. Hurd Hatfield entrega um Dorian Gray bastante inexpressivo, falhando em construir a transição do protagonista mais inocente do começo do filme para o homem mais cruel e vicioso que chega ao fim da obra.

O Retrato de Dorian Gray é um projeto bastante charmoso, que mostra grande reverência pelo icônico romance de Oscar Wilde. O filme conta com uma fotografia brilhante e um elenco bastante comprometido com seus papéis. Mas o protagonista fraco e uma narração intrusiva que torna o roteiro por demais didático sabotam o potencial da obra, e minam as suas boas qualidades.

O Retrato de Dorian Gray (The Picture of Dorian Gray)- Estados Unidos, 1945
Direção: Albert Lewin
Roteiro: Albert Lewin (baseado em romance de Oscar Wilde)
Elenco: Hurd Hatfield, George Sanders, Donna Reed, Angela Lansbury, Lowell Gilmore, Peter Lawford, Douglas Walton, Richard Fraser, Lydia Bilbrook, Billy Bevan, Morton Lowry, Lilian Bond, Mary Forbes, Anita Sharp Bolster, Miles Mander, Robert Greig, Lumsden Hare, Jimmy Conlin, John George, Cedric Hardwicke
Duração: 110 min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.