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Crítica | O Retrato de Dorian Gray (1945)

por Rafael Lima
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Em 1890, o polêmico poeta e dramaturgo Oscar Wilde lançaria o seu primeiro e único romance, que se tornou uma das obras mais controversos da história da literatura britânica: O Retrato de Dorian Gray. A história sobre os perigos corruptores do hedonismo desenfreado e de uma existência autocentrada ganhou diversas adaptações para o cinema e para a TV ao longo dos anos, mas nenhuma foi tão celebrada quanto a produzida por Hollywood em 1945, escrita e dirigida por Albert Lewin.

Na trama, Dorian Gray (Hurd Hatfield) é um jovem aristocrata que está posando para um retrato feito pelo pintor Basil Hallward (Lowell Gilmore). Ao conhecer um amigo de Basil, Lord Henry Wotton (George Sanders), cujas teorias hedonistas fazem o rapaz temer o fim da própria juventude, Dorian diz em voz alta que daria a própria alma em troca de que o retrato envelhecesse em seu lugar. Algum tempo depois, ao perceber que o seu desejo foi atendido, e que o retrato não apenas está envelhecendo enquanto ele permanece jovem, mas também carregando as marcas de seus vícios e pecados, Dorian passa a viver apenas em nome do próprio prazer, não se importando com as vidas que tiver que destruir para obtê-lo.

O roteiro de Lewin segue o livro de Wilde bem de perto, fazendo poucas mudanças em relação ao material original, e inclusive preservando a figura de um narrador observador irônico, que ganha a voz de Cedric Hardwicke. Mas tendo sido produzido no auge do Código Hayes, que estabelecia “normas morais” para os filmes de Hollywood, o filme sobre um homem que é corrompido pela busca de qualquer prazer ao não precisar encarar a expectativa de envelhecer, acaba perdendo força, pelas limitações impostas. Lewin tenta driblar essas limitações concentrando na narração a responsabilidade de retratar as ações hediondas de Dorian, em uma escolha não muito bem sucedida, pois torna o filme didático. O roteiro fala muito sobre o quão perverso o protagonista é, ao invés de mostrar ou sugerir, nunca passando a sensação de que Gray seria essa figura depravada apontada pelos personagens.

Mas se o roteiro fica longe de explorar todo o potencial que a premissa oferecia, as atuações (em sua maior parte) e o bom trabalho de direção garantem o nosso envolvimento com o projeto. A direção de fotografia é fantástica em retratar a atmosfera sombria da narrativa com um desenho de luz que ressalta cada vez mais as sombras à medida em que Dorian vai se tornando mais corrupto. A escolha da direção ao fazer inserções coloridas nos momentos em que o retrato do título aparece na tela surge como uma opção muito efetiva, pois nos permite compartilhar com os personagens a admiração e o espanto ao ver o quadro, seja por destacar a beleza do protagonista, ou o horror que ele fez com a própria alma.

George Sanders domina todas as cenas de que participa na pele de Lord Wotton, ao dar ao aristocrata um ar sarcástico e blasé, sempre tecendo os seus comentários em um tom clínico e impessoal. Ainda deve-se destacar o trabalho de Angela Lansbury como Sibyl Vane, uma jovem atriz de teatro que tem um pequeno, mas importante papel na trama ao ter sua inocência e juventude destruída por Dorian. Lowell Gilmore e Donna Reed estão igualmente competentes como Basil Hallward, e sua sobrinha Gladys, que acaba se tornando a última chance de salvação para Gray.

Diante de ótimos coadjuvantes, o elo fraco do elenco acaba sendo justamente o seu protagonista. Hurd Hatfield entrega um Dorian Gray bastante inexpressivo, falhando em construir a transição do protagonista mais inocente do começo do filme para o homem mais cruel e vicioso que chega ao fim da obra.

O Retrato de Dorian Gray é um projeto bastante charmoso, que mostra grande reverência pelo icônico romance de Oscar Wilde. O filme conta com uma fotografia brilhante e um elenco bastante comprometido com seus papéis. Mas o protagonista fraco e uma narração intrusiva que torna o roteiro por demais didático sabotam o potencial da obra, e minam as suas boas qualidades.

O Retrato de Dorian Gray (The Picture of Dorian Gray)- Estados Unidos, 1945
Direção: Albert Lewin
Roteiro: Albert Lewin (baseado em romance de Oscar Wilde)
Elenco: Hurd Hatfield, George Sanders, Donna Reed, Angela Lansbury, Lowell Gilmore, Peter Lawford, Douglas Walton, Richard Fraser, Lydia Bilbrook, Billy Bevan, Morton Lowry, Lilian Bond, Mary Forbes, Anita Sharp Bolster, Miles Mander, Robert Greig, Lumsden Hare, Jimmy Conlin, John George, Cedric Hardwicke
Duração: 110 min.

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7 comentários

Ana Mendes 9 de setembro de 2020 - 12:41

Discordo bastante, mas gostei da crítica. Achei a atuação do protagonista condizente com a proposta do filme, já que ficou estabelecido que as expressões de corrupção do Dorian seriam percebidas apenas pelo quadro. Quando a narração era um recurso muito usado e até encorajado na época. Pra mim, é um filmaço. E nem vou rasgar seda para os efeitos especiais, direção…

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Rafael Lima 11 de setembro de 2020 - 02:15

Entendo o seu ponto, e faz muito sentido. Mas senti que faltou ao ator mostrar um pouco mais do fascínio e liberdade que a sensação de não envelhecer e a vida hedonista que adotou provocavam no Dorian. De fato, a narração era um recurso bastante utilizado, mas que já começava a cair em desuso nesse período. Sinto que produções contemporâneas a esse filme se utilizaram do recurso de forma mais acertada, e menos intrusiva.

Muito obrigado pela leitura e pelo comentário!

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Ana Mendes 9 de setembro de 2020 - 12:01

Discordo completamente, mas foi uma boa análise! A atuação do protagonista precisava ser pouco expressiva, já que ficou estabelecido no inicio do filme que até as expressões de malícia transpareceriam somente no quadro. A narração era um recurso muito usada naquela época. Os efeitos também foram primorosos. E depois de assistir ao novo Dorian Gray esse filme cresce ainda mais rs…mas, é só a minha opinião. O Ben Barnes está bem esforçado, mas podia estar ainda mais contido na atuação…

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Lisbeth 31 de agosto de 2019 - 00:11

A Angela Lansbury (copiei e colei o nome, não vou fingir que sabia) está ótima como a Sybil, acho que ela vende bem a personagem; e apesar das limitações apontadas, essa ainda é minha adaptação favorita do livro – as outras parecem que só leram um resumo do livro antes de filmarem.

(Também amo a versão de “Penny Dreadful”, mas aí, já não é filme)

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Rafael Lima 31 de agosto de 2019 - 01:28

Angela Lansbury está mesmo ótima como a Sybil, em uma atuação bem sutil. Fez por merecer a indicação ao oscar que recebeu pelo papel.

Confesso que foi a única adaptação do livro do Wilde que assisti, mas pretendo ver a versão de 2009 com o Ben Barnes e o Colin Firth em breve.

Obrigado pela leitura e pelo comentário, Lisbeth.

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Lisbeth 31 de agosto de 2019 - 14:01

Eu não tenho nada de bom para falar sobre a versão de 2009, mas lerei sua resenha quando sair.

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Rafael Lima 14 de setembro de 2019 - 23:13

Após ver a versão de 2009, esse filme cresceu no meu conceito

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