Crítica | O Ringue (1927)

Tres-estrelas

Dos filmes da fase muda de Alfred Hitchcock, este é um dos meus favoritos. Não só pelos seus ótimos momentos visuais mas também pela história limpa e trabalhada satisfatoriamente em todos os seus pontos, algo que não podemos dizer de toda essa primeira fase da filmografia do diretor.

Pela simplicidade do filme, vemos na tela uma crônica amorosa bem interessante, pontuada aqui e ali por uma alta carga de sentimentos e permeada de indicações visuais e narrativas realmente brilhantes. Em termos de roteiro, percebemos um acabamento ou uma história mais intricada em O Inquilino, mas é em O Ringue que o lado visual do Mestre se encontra satisfatoriamente com o lado textual. O resultado, como eu disse, é simples, mas vale muito a pena. O tema do circo ou do parque de diversões aparece aqui como foco central pela primeira vez, e sabemos que o diretor traria esse meio caminho para o desencadear de tramas futuras, como a de Pacto Sinistro, por exemplo.

O que é interessante observar aqui é a importância quase banal que o diretor dá à história em si, filmando tudo como uma verdadeira crônica, mas adicionando elementos visuais que só poderiam ser observados por algum par de olhos muito atentos. Em boa parte do filme, temos a impressão de que os objetos e seu significado para a obra ou para a formação de uma atmosfera “X” são mais importantes que qualquer outra coisa.

Temos aqui em pauta o triângulo amoroso entre ‘One-Round’ Jack, uma garota sem nome e o rival de luta de Jack, Bob Corby. O plot inicial é de uma normalidade que ganha contornos amorosos e de honra com o passar do tempo, porque Jack, que é um grande campeão de luta, é desafiado por Bob, que além de tudo, se apaixona pela garota de Jack. O filme ruma para um esperado embate entre os dois num ringue. Essa fácil sequência de eventos, porém, é realizada em um ritmo certo (os erros de montagem nesse filme são mínimos) e como já citado nos parágrafos anteriores, acompanhada de ótimas sequências visuais, com direito a sobreposições, câmeras subjetivas e ângulos que não eram muito comuns no cinema do final da década de 1920.

Ficou muito famosa entre os cinéfilos e entre os críticos a frase de Hitchcock “atores são gado“. Posteriormente ele viria corrigir a frase com uma ainda melhor: “nunca disse que atores são gado. O que eu disse é que todos os atores deveriam ser tratados como gado“. Fantástico, não? Brincadeiras à parte, essas duas frases possuem um bom significado analítico quando observamos atentamente o trabalho do diretor com algumas pessoas de seus elencos. Na fase muda, os destaques dados a determinados atores em O InquilinoDecadência e A Mulher do Fazendeiro, por exemplo, mostram a intenção do Mestre em criar personagens cativantes. E é justamente isso que ele consegue fazer em O Ringue, colocando Jack como um dos personagens mais próximos do espectador, mobilizando-o, partindo daí, inclusive, para a criação do suspense amoroso que se fará ver em algum ponto do filme.

Com interpretações realmente notáveis, uma direção de cenas de luta e situações de entretenimento extremamente sóbrias e bom desempenho técnico da equipe e do roteiro, O Ringue se coloca como um dos filmes mais interessantes dessa primeira fase do diretor. É claro que a questão do romance pode desagradar muita gente, e já ouvi reclamações sobre o roteiro, nesse aspecto. Penso que o diretor realizou aqui um ótimo trabalho e entregou um de seus filmes mais visualmente maduros da fase muda. Me incomodam algumas falhas na finalização dos destinos dos personagens, especialmente a mudança de comportamento de maneira bastante abrupta, mas mesmo assim, a obra permanece com um nível bom de qualidade que faz a sessão valer a pena.

  • Crítica originalmente publicada em 20 de outubro de 2013. Revisada para republicação em 27/08/19, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

O Ringue (The Ring) – UK, 1927
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Alfred Hitchcock
Elenco: Carl Brisson, Lillian Hall-Davis, Ian Hunter, Forrester Harvey, Harry Terry, Gordon Harker
Duração: 116 minutos

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.