Crítica | O Roteirista

Como lidar com a transformação equivocada das ideias do seu roteiro de cinema? E as críticas aos filmes quando lançados? Quem é de fato o responsável por determinados problemas aparentemente dramatúrgicos? O cineasta ou o roteirista? Qual o melhor local e horário para desenvolver um roteiro? Os manuais funcionam para os iniciantes na prática de escrita ou são desnecessários? É comum ser chamado para ir ao set de filmagens para averiguar ou dar consultoria sobre alguma questão no desenvolvimento da produção?

Estas são algumas das questões tratadas em O Roteirista, documentário dirigido por Lucas Paraizo, também responsável pela publicação do livro, posterior ao lançamento do filme, ambos complementares e fundamentais para os interessados na compreensão dos mecanismos que engendram um setor que envolve criatividade e reflexão. Os roteiros, como a própria palavra aponta, direcionam os demais profissionais de uma produção audiovisual, dando-lhe as coordenadas para travessia na cartografia dramática de filme.

Por meio da direção de fotografia de Rodrigo Pastoriza, responsável por captar as imagens que refletem o modo de operação dos 21 roteiristas entrevistados, o documentário flerta com os processos criativos de cada personagem, o que nos permite entender a complexidade da atividade e as distintas estratégias de escrita, algumas convergentes, outras divergentes, mas todas envolvidas no exercício da criação de mundos com personagens e situações, muitas vezes, inspiradas em acontecimentos reais do cotidiano, material transformado em ficção.

O som de Cristiano Pinheiro é agradável e emprega fluência ao documentário, característica que é reafirmada na edição correta de Luara Oliveira, profissional que teve a incumbência de tornar os depoimentos orgânicos e relacionados. Ao longo de seus 51 minutos, O Roteirista abre espaço para excelentes discussões sobre o campo do roteiro cinematográfico no Brasil, algo que segundo o pesquisador Heron Volpi, na publicação de um artigo acadêmico em 2017, é “uma história a ser contada”.

Metalinguístico, o documentário segue a linha tradicional de enquadramentos, cortes e perguntas aos entrevistados, mas que ainda assim, consegue ser irreverente e ter um estilo próprio, indo além do didatismo e funcionando também como entretenimento. Originalmente reunidos para o projeto Arquivo Plano B, idealizado por Tayla Tzirulnik, projeto focado nos diversos pontos de vista do cinema, tendo iniciado com Cinematografia, de Gabriel Barros, produção focada no melhor entendimento da direção de fotografia.

Paraizo entrevistou, dentre diversos roteiristas, Carolina Kotscho (Dois Filhos de Francisco), Doc Comparato (O Beijo no Asfalto), Elena Soárez (Casa de Areia), Bráulio Mantovani (Cidade de Deus), Euclydes Marinho (O Primo Basílio), George Moura (Linha de Passe), Hilton Lacerda (Baile Perfumado), Jorge Furtado (Houve Uma Vez Dois Verões), Jorge Durán (Proibido Proibir), Fernando Bonassi (Carandiru), Paulo Halm (Pequeno Dicionário Amoroso), Marçal Aquino (O Invasor), Marcos Bernstein (Central do Brasil), etc.

Para Jorge Furtado, é preciso investir bastante em literatura, pois ler produz imagens, diferente do cinema, arte que já entrega a imagem pronta; George Moura, ao investir em Amores Roubados e O Canto da Sereia, mergulhou profundamente na pesquisa dos espaços referentes a tais narrativas, para melhor concebê-las; o culto Hilton Lacerda, utilizou, em Amarelo Manga, diversas frases de romances famosos; Euclydes Marinho retrata bem a questão do roteirista por demanda, contratado para desenvolver um trabalho solicitado por “outro”; Carolina Kotscho é uma das participantes com as melhores colocações, principalmente quando alega que há muito diálogo no cinema brasileiro, crítica aos textos que deixam de ser diretos, isto é, apresentar a ação em imagens, para investir em muito falatório, algo que soa sem verossimilhança.

O importante debate sobre a ABRA é bem fundamentado pelos depoimentos. Vinculada à ABRACI (Associação Brasileira de Cineastas), fundada em 1941 por Joaquim Pedro Andrade, Nelson Pereira dos Santos e Leon Hirszman, a ABRA é a representação cabal da luta dos roteiristas por melhores condições de trabalho e reconhecimento. Não chega a ser algo de grande destaque no documentário, tampouco seu ponto nevrálgico, mas é um elemento latente que fica nas entrelinhas de alguns relatos.

Lucas Paraíso, também responsável pelo roteiro, estabelece as mesmas perguntas para cada participante, algo que poderia se tornar monótono, mas que funciona muito bem por conta dos diferentes pontos de vista. Conciso, o documentário trata da crise criativa, dos personagens que passam a tomar rumos inesperados e até mesmo fazer parte da vida de seus respectivos roteiristas, das questões mercadológicas e do fascínio que é construir e reconstruir “mundos”, atividade que os entrevistados e Paraizo, idealizador do projeto, concebem muito bem.

O Roteirista (Brasil, 2011)
Direção: Lucas Paraizo
Roteiro: Lucas Paraizo
Elenco: Doc Comparato, Elena Soárez,  Marçal Aquino, Carolina Kotscho, Euclydes Marinho, Braulio Montavani, Jorge Durán, Jorge Furtado, Hilton Lacerda, Fernando Bonassi
Duração: 51 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.