Crítica | O Sabor do Chá Verde Sobre o Arroz

PLANO CRITICO YASUJIRO OZU CHÁ VERDE SOBRE O ARROZ

A primeira versão do que viria a ser O Sabor do Chá Verde Sobre o Arroz foi escrita por Yasujiro Ozu em 1939, sob uma perspectiva bastante diferente. A intensa censura dos militares ao roteiro fez com que o diretor arquivasse definitivamente o projeto, pois não queria seguir as instruções da censura. Ozu voltaria a dirigir em 1941 (Os Irmãos e Irmãs Toda), mas aí já era uma crônica familiar sobre a ingratidão dos filhos, nada que colocasse personagens e contextos abertamente militares na história. Após o encerramento do soberbo Também Fomos Felizes (1951), o diretor voltou ao seu texto da época da guerra, alternado-o bastante ao lado de Kôgo Noda e filmando-o como O Sabor do Chá Verde Sobre o Arroz. Também sem militares.

No primeiro ato do filme, o espectador pensa que haverá algum estreitamento desse roteiro com a Trilogia Noriko. Com o incentivo e a resistência ao casamento em cena, o público imagina estar diante de mais uma história de novos costumes no Japão, com destaque para uma personagem feminina e suas atitudes que se chocam com os sonhos da família. Mas não é isso que acontece. No ritmo típico do diretor, o filme vai se fazendo sentir e tomando caminhos diferentes do conflito de geração, inclusive na perspectiva apresentada para o casamento. No primeiro ato, a forte presença feminina dá uma aparência distinta à obra, inclusive para os padrões de Ozu, que costumava mesclar bem os seus elencos.

É então que percebemos que o roteiro está cercando o casal principal, não apenas como o intuito de mostrar as “consequências de um casamento em crise“, mas para para explorá-lo em diversos aspectos. A delicadeza com que o diretor faz isso é, em tudo, impressionante. Setsuko (Keiko Tsushima) e sua rebeldia ou resistência ao matrimônio é apenas uma das linhas dramáticas que o texto irá entregar, mas progressivamente vemos um número maior de cenas expandindo a relação de Taeko (Michiyo Kogure) e Mokichi (Shin Saburi), camada que se torna um melodrama cheio de sutilizas e visão realista do que a falta de diálogos abertos pode fazer a uma relação.

De muitas maneiras, a película é uma visão sobre a experiência que a vida nos traz, sobre o compartilhamento de problemas, de tristezas, mas principalmente sobre os momentos de felicidade que passamos ao lado de pessoas especiais. Existem cenas aqui que nos fazem ter uma imensa raiva de Taeko, mas essa percepção muda completamente no ato final da fita, o mais íntimo e bonito de todos, com o casal enfim percebendo um ao outro e talvez vivendo o seu primeiro momento feliz juntos. Até a narração de Taeko, no dia seguinte, sobre o jantar que teve com o esposo é bonita. E tudo, como sempre em Ozu, mostrado de forma simples. É inacreditável a quantidade de coisas que esse diretor consegue tirar dos momentos e das coisas mais triviais do dia a dia.

Alguns problemas na direção de fotografia no ato final (nota para a iluminação dos cômodos quando as personagens entram ou saem deles) e da montagem e vários pontos do filme se fazem sentir e incomodam um pouco, mas não cortam a boa experiência que a obra nos traz. Um humor gentil e alguns encontros entre amigas, algumas promessas entre pretendentes e um inesquecível e simples jantar entre marido e mulher são coisas que nos capturam e nos fazem pensar bastante sobre o propósito e a importância que damos (ou não damos) àquilo que temos de mais simples ao nosso redor.

O Sabor do Chá Verde Sobre o Arroz (Ochazuke no aji) — Japão, 1952
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Yasujiro Ozu, Kôgo Noda
Elenco: Shin Saburi, Michiyo Kogure, Kôji Tsuruta, Chishû Ryû, Chikage Awashima, Keiko Tsushima, Kuniko Miyake, Eijirô Yanagi, Hisao Toake, Yûko Mochizuki, Kôji Shitara, Matsuko Shiga, Yôko Kosono, Kinichi Ishikawa, Yoko Osakura
Duração: 116 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.