Crítica | O Saci (1953)

Lançado no segundo semestre de 1953 (e não em 1951, como algumas fontes erroneamente apontam, confundindo o ano de início da produção do filme com o ano de seu lançamento), O Saci é mais uma marcante adaptação da obra de Monteiro Lobato realizada no início dos anos 1950 (a anterior havia sido O Comprador de Fazendas, dois anos antes) e sangrou-se não apenas como um grande sucesso de bilheteria, ajudando a popularizar a obra do autor para todos os públicos, como também estabeleceu uma marca importante no cinema brasileiro, tornando-se o primeiro longa-metragem infantil da nossa Sétima Arte.

Dirigido e co-escrito por Rodolfo Nanni (em parceira com Arthur Neves), esta primeira versão de uma história do Sítio do Picapau Amarelo para as telonas contou com outros nomes notáveis em seu time de produção, como Nelson Pereira dos Santos trabalhando na assistência de direção (segunda unidade) e Alex Viany, que além de assistente de direção, foi o diretor de produção da fita. O resultado visual disso é um filme que imediatamente nos transporta para o calmo ambiente do Sítio e estabelece o distanciamento que a fantasia da obra irá elencar, tanto pela já citada, no título, participação do Saci (Paulo Matozinho), quanto pela assustadora e muito bem filmada presença da Cuca (M. Meneghelli), além de indicações mágicas e fantasiosas que habitam a floresta que rodeia o Picapau Amarelo.

A narrativa da obra é simples, facilmente relacionável e o tempo inteiro preocupada em explorar elementos do folclore e da cultura popular brasileira, não criando apenas um “caso da roça”, através de um contraste com o pensamento e modo de vida da cidade, mas mergulhando direto no entendimento de mundo e particularidades desse Universo de Lobato. É claro que o texto dá aos personagens negros (Tia Anastácia e Tio Barnabé) uma fala regionalista que destoa do restante dos habitantes do sítio, mas esse olhar crítico, mesmo hoje, encontra facilmente elementos na realidade que comportam esse tipo de tratamento. A relação dos pretos do Sítio com Dona Benta, Pedrinho, Narizinho e Emília difere um tantinho do tratamento mais comum de “patrão e serviçal“, porque o texto não foca em elementos de classe, mas de convivência pura e simples, e mesmo que o ponto de vista não seja exclusivamente das crianças, é mais por seus olhos que enxergamos essa relação.

E notem que eu não coloquei o Saci nas condições anteriores porque a maneira com que ele é tratado aqui é bem diferente. O protagonismo fantástico, exótico, folclórico marcam a relação dele com Pedrinho e o roteiro não dá corda para uma interação de dominação do menino (capturador) frente à criatura (que deveria obedecer ao amo). Há um acordo entre os dois personagens e é ótimo vê-los trabalhando juntos para tirar Narizinho do feitiço da Cuca. A sequência da sacizada é a única, nesse aspecto, que não cumpre bem o seu papel, pois não serve para absolutamente nada dentro da narrativa, uma falha do roteiro que facilmente poderia ser corrigida com uma simples ligação entre a misteriosa reunião de sacis na mata e o trama central da fita.

O maior inimigo do longa, porém, é a montagem. É verdade que Rodolfo Nanni não é um bom diretor de atores e que o elenco aqui não está nas alturas da dramaturgia, mas esses pontos impactos facilmente ser diminuídos se a montagem cortasse os tempos mortos, especialmente o estranhíssimo silêncio que existe entre um diálogo e outro. A montagem chega a piorar a qualidade de cenas bastante simpáticas, especialmente no começo do filme, na apresentação dos personagens e nas provocações que uns fazem aos outros na mesa. As expressões dos atores em contraste com o que a vó Benta fala, no momento, está completamente fora de sintonia, quase parecendo um teste de Efeito Kuleshov mal empregado. Prevalece, no entanto,  a cativante simplicidade da fantasia num ambiente bucólico e numa história com uma moral geral de paz e união entre as mais diferentes pessoas e criaturas. Um belo e cativante filme que abriu as portas para o cinema infantil no Brasil.

O Saci (Brasil, 1953)
Direção: Rodolfo Nanni
Roteiro: Rodolfo Nanni, Arthur Neves (baseado na obra de Monteiro Lobato)
Elenco: Otávio Araújo, Aristéia Paula de Souza, Raimundo Duprat, Olga Maria, Paulo Matozinho, M. Meneghelli, Lívio Nanni, Teresa Nicolao, Roberto Nicot, Maria Rosa Ribeiro, Benedita Rodrigues, Iara von Tressler
Duração: 65 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.