Crítica | O Salário do Medo (1953)

SPOILERS!

O Salário do Medo, dirigido por Henri-Georges Clouzot, é uma afronta ao cinema norte-americano, e isso está longe de ser um problema. Na década de 50, período de lançamento da obra de Clouzot, os musicais americanos iniciaram sua trilha para o auge, com o otimismo característico, doçura e leveza. Analisando em um contexto geral, os finais dos longas da época eram, geralmente, felizes. Os desafios enfrentados pelos personagens não passavam de degraus até a redenção. No entanto, O Salário do Medo vai na linha oposta. Não há glória para os personagens, nem durante a jornada e nem no desfecho.

Portanto, começarei esta crítica analisando o final da película. Após sobreviver à tarefa suicida, presenciando a morte de três colegas, Mario (Yves Montand) baila com seu caminhão pela estrada, balançando-o de um lado para o outro, feliz com o dinheiro recebido, enquanto seus amigos e namorada celebram a notícia de seu retorno com uma dança. A cena encaminha para um final feliz, mas isso não acontece. A dança que antecede a tragédia não é ocasional, sendo uma clara alfinetada ao otimismo do cinema norte-americano.

O longa mostra quatro fugitivos em situação desesperadora em um vilarejo na América do Sul. Com o objetivo de melhorar de vida, eles aceitam transportar nitroglicerina em caminhões, precisando passar por um trajeto traiçoeiro e com estradas precárias. A recompensa prometida é de 2 mil dólares, e para conseguir a recompensa, os quatro precisam enfrentar uma viagem marcada pelo medo.

É louvável que o roteiro, escrito por Clouzot e Jérôme Géromini, baseado no livro de Georges Arnaud, reserve a primeira hora de filme para apresentar as motivações dos personagens e, principalmente, a atmosfera de miséria da pequena cidade da América do Sul. A cena inicial, por exemplo, mostra um garoto brincando com baratas ao redor de lama, mostrando a precaridade do lugar. Além disso, a metade inicial permite que compreendamos a dinâmica entre os personagens: Luigi tem carinho por Mario, que é muito amigo de Jô, que odeia Luigi; enquanto Bimba permanece introspectivo. Receber essas informações só aumenta a carga dramática da parte final, fazendo-nos torcer pela redenção dos protagonistas.

Aliás, o elenco destaca com eficiência a falta de perspectiva dos personagens. Folco Lulli destaca como seu simpático Luigi encara a vida sem temor, não tendo mais nada a perder devido a uma doença grave. Já Peter van Eyck ressalta como Bimba possui um baixo apreço pela própria vida. No entanto, é a interação entre Jo e Mario que guia o longa. Charles Vanel impressiona ao descascar a personalidade de Jo, saltando de um homem valente para um ser extremamente melindrado; já Yves Montand cria um arco de insanidade para Mario, expressando como sua ganância o consome aos poucos. Essa diferença entre os dois, medo contra vontade, é o que torna a amizade bem escrita. Em contrapartida, a personagem Linda mostra-se inútil dentro da narrativa e protagoniza os piores momentos da obra, com direito a momentos sexistas.

Mas o auge de O Salário do Medo está realmente na metade final. A jornada dos caminhões pela perigosa estrada sul-americana é uma aula de suspense dada por Henry-Georges Clouzot. Se no início os planos são abertos e mostram os personagens de corpo inteiro, a partir da metade os enquadramentos tornam-se fechados, dando uma sensação de claustrofobia. Ademais, o longa cria tensão com uma edição inteligente, iniciando as cenas com planos externos do caminhão, seguindo para planos médio dos personagens e inserindo, logo após, planos de detalhe, criando uma lógica clara e eficiente. 

Além disso, a montagem intercala as ações dos dois caminhões, fazendo o público manter a expectativa sobre o que acontecerá com o outro, estratégia eficiente para tornar a tensão constante. Contudo, o recurso técnico mais surpreendente aqui é o design de som. Clouzot abre mão da trilha sonora e aposta, inteligentemente, em sons diegéticos, como de grilos ou do motor do caminhão, criando uma sensação de aflição, como se os veículos estivessem prestes a explodir. 

Para completar, é correta a opção de dividir a viagem em três grandes cenas: a curva no desfiladeiro, a explosão da pedra no caminho, e a passagem por uma poça enorme de petróleo. Todas funcionam perfeitamente isoladas, mas são brilhantemente costuradas pela edição, evitando que o filme tenha um caráter episódico, mas criando momentos marcantes.

Tematicamente, além de criticar o otimismo do cinema dos Estados Unidos, o filme ataca o próprio imperialismo estadunidense. O vilão da obra é nada mais que uma empresa de petróleo americana, explorando seus trabalhadores por salários baixíssimos. Por isso, há um leve debate sobre imigração aqui, mas destacando como países imperialistas entram facilmente em nações pobres para se aproveitar de suas poucas riquezas, tornando os países mais precários ainda. É verdade que o chefe da petroleira soa caricatural, com direito a desprezo pela morte de um funcionário, mas a pouca sutileza do roteiro acerta ao deixar claro o alvo da película.

O Salário do Medo abraça temas políticos para desenvolver um excelente exercício de suspense. A jornada dos protagonistas é tensa e árdua como a vida de qualquer trabalhador explorado. Por isso, não há final feliz diante de um sistema tão abusivo, que faz os cidadãos praticamente venderem suas vidas por valores insignificantes. Uma vida não vale 2 mil dólares, como os protagonistas, erroneamente, pensavam. O Salário do Medo nos mostra que só haverá um final feliz quando esse abuso terminar.

O Salário do Medo (Le Salaire de la Peur) – França/Itália, 1953
Direção: Henri-Georges Clouzot
Roteiro: Henri-Georges Clouzot, Jérôme Géromini (baseado na obra de Georges Arnaud)
Elenco: Yves Montand, Charles Vanel, Folco Lulli, Peter van Eyck, Véra Clouzot, William Tubbs, Darío Moreno, Jo Dest, Luis De Lima
Duração: 147 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.