Crítica | O Sangue das Bestas

O maior filme sobre o holocausto que não é sobre o holocausto. O Sangue das Bestas. Plano Crítico.

Pensar sobre O Sangue das Bestas (tradução livre de Le Sang des Bêtes) é também refletir sobre a própria função da crítica e do cinema em si. Resumindo de uma maneira muito simplificada, mas que depois eu desconstruirei, este curta ultra realista de 1949 visita, de forma gráfica, a rotina nos matadouros da indústria alimentícia em Paris. Durante seu 20 minutos de duração, chorei; senti ódio; fiquei hipnotizado como alguém que não consegue parar de olhar para uma cena de um acidente; decidi que ia parar de comer carne para sempre; e me perguntei o porquê de sua existência.  

Afinal, ainda que o seu tema me provoque ânsia de vômito, isto significa que a obra cinematográfica em si é ruim? Pensando na rasa ótica de “dar nota”, é compreensível, à primeira vista, que alguém queira aplicar um 0 a ele. Segundo o historiador Ernst Gombrich, em seu livro História da Arte, “muitas pessoas gostam de ver em quadros o que também lhes agradaria ver na realidade. […] Mas essa propensão para admirar o tema bonito e atraente é passível de se converter num obstáculo se nos levar a rejeitar obras que representam um tema menos atraente.” Esclarecido isso e limpando pensamento de ideias conflitantes, vai ficando cada vez mais claro que o nosso ódio não é do filme em si, mas da situação que ele mostra, sendo este justamente o objetivo do diretor francês Georges Franju

Caso alguém ainda insista nesta ideia de que O Sangue das Bestas é tolerante com o abatedouro de animais, entender a escolha de planos e a função da montagem é essencial. Ainda que o objeto de observação de Franju já seja horripilante por si só, há algo na forma como o diretor conduz o filme que perturba nossas almas. É quase como um fantasma invisível que sentimos a presença. Trata-se do espectro do nazismo e do holocausto. 

Primeiramente, somos apresentados a belas imagens exteriores de Paris, com a câmera passeando por casas e rios. Uma inocência típica que costumamos ver nos longas ficcionais que se passam nesta metrópole global. Posteriormente, quando passamos para a brutalidade do matadouro, a narração extremamente científica escrita por Jean Painlevé — famoso por seus filmes científico-documentais sobre a fauna animal — vai falando de maneira fria sobre a anatomia daqueles animais, quase como se os mesmos não tivessem vida, normalizando o abate. Some isso aos planos de animais sendo enfileirados para a execução e um plano de um portão se fechando, como em um campo de concentração, e o duplo significado se torna assustador. 

Finalmente, quando as casas e os rios voltam a aparecer no final, eles se ressignificam por conta de toda a experiência anterior. Não mais um fluxo de água, mas o sangue jorrado daqueles animais — ou daquelas pessoas — algo que a ambiguidade da fotografia em preto-e-branco fortalece. E agora, aquelas construções, simples componentes de uma paisagem, ganham um ar misterioso. Seriam potenciais abatedouros? Em 1949, poucos anos após a paranoia da invasão nazista francesa, ainda se desconfiava no perigo do vizinho ao lado.

No fim, é curioso que o filme comece com o plano em uma estátua de touro, normalmente associada a força e vigor, como o símbolo da Bolsa de Valores em Nova York. Tudo que vem a seguir é justamente a destruição deste simbolismo. Trata-se da destruição de uma economia, que tem seus alicerces numa indústria que gera sofrimento e, também, é sobre uma sociedade já moralmente morta, no qual pessoas foram descartadas como nada em coisa em nome de um discurso de raça. E assim, a descartabilidade da carne, tanto humana quanto animal, se evidencia nesta cerimônia da morte.    

O Sangue das Bestas (Le Sang des Bêtes) – França, 1949
Direção: Georges Franju
Roteiro: Georges Franju, Jean Painlevé
Elenco: Georges Hubert, Nicole Ladmiral, Alfred Macquart, Maurice Griselle, André Brunier, Henri Fournel
Duração: 22 min.

MICHEL GUTWILEN . . . Entusiasta da política dos autores. Antes de se preocupar com o tema do filme, sempre atento a maneira como o diretor articula o mesmo através de uma unidade estilística. Acredita que há coisas muito mais interessantes na arte a se falar do que furos de roteiros. Prefere que suas críticas sejam vistas como uma extensão a obra, ajudando a sua discussão após a sessão e propondo novas ideias, ao invés que sejam usadas como recomendação para ir ao cinema. Se inspira muito na Cahiers du Cinema. Admira muito o cinema de Alfred Hitchcock, Robert Bresson, Fritz Lang, James Gray, Naomi Kawase, Orson Welles e Pedro Costa. Reconhece Jean Gabin como maior galã do cinema.