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Crítica | O Segredo de Chimneys, de Agatha Christie

por Luiz Santiago
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O Segredo de Chimneys, originalmente publicado em 1925,  me pareceu um estranho casamento entre três outros livros da Rainha do Crime, a saber, O Misterioso Caso de Styles (1920), O Adversário Secreto (1922) e O Homem do Terno Marrom (1924). A estranheza desse casamento se manifesta basicamente em uma sentença que mesmo as pessoas que gostaram muito do livro terão que admitir: tem coisa demais acontecendo. Com uma trama que começa no Zimbábue, envolve um país fictício e uma propriedade de grande importância política para o Reino Unido (a propriedade de Chimneys, que temos no título), a autora exagera na reunião de elementos e termina fazendo com que o leitor se perca parcialmente ou deixe de se interessar por alguns elementos da história à medida que avança.

Encontramos Anthony Cade no Zimbábue (mais especificamente na cidade de Bulawayo), servindo de guia turístico para um grupo de idosos, algo que ele definitivamente não gostava. Então acontece a primeira de um milhão de coincidências que temos espalhadas por este livro: Cade encontra-se com Jimmy McGrath, um amigo de longa data que propõe um trabalho irrecusável para o colega. Cade deveria voltar à Inglaterra com a missão de levar um importante manuscrito contendo as memórias de um Conde e também uma porção de cartas comprometedoras que deveriam ser entregues a uma mulher chamada Virginia Revel. Já muito cedo, essa organização da trama começou a me incomodar.

A própria autora brinca um pouco com a facilidade absurda com que certos eventos ocorreram na vida de McGrath, deixando em suas mãos esses documentos tão importantes. Mas a brincadeira até que poderia se estender para as muitíssimas outras facilidades que a autora entrelaça aqui, a fim de validar os diversos arcos que ela abre no início. Como grande fã de Agatha Christie, sempre elogiei o fato de que ela consegue dar nó em todas as pontas soltas no decorrer de suas narrativas, algo que também acontece aqui em O Segredo de Chimneys, mas ao custo de certa confusão, excesso de personagens e encontros, desencontros e absurdas coincidências para que uma personagem ou situação pudessem estar ligadas e fazer sentido em outras partes do quebra-cabeça.

Em meio a tudo isso, porém, o leitor ainda consegue se divertir um pouco. Há uma veia cômica no livro que acaba aparecendo em núcleos distintos, com intensidades diferentes. Posta de lado a colocação racista de uma personagem, mais perto do fim da obra, pode-se dizer que O Segredo de Chimneys é o tipo de livro que nos faz querer isolar este ou aquele indivíduo, este ou aquele bloco da obra para conhecer mais sobre tudo o que ali se passa. Essa sensação é fortalecida pelo fato de o livro ter um forte cunho político e geopolítico, com os interesses da Herzoslovákia e possivelmente da Europa inteira em jogo (sem contar os olhos gananciosos dos Estados Unidos para o petróleo herzoslovaco), de modo que não temos uma verdadeira exploração dos personagens — até porque seria difícil com tantos deles em cena.

Entre temores de um escândalo político, a discrição hipócrita de certos setores da alta sociedade, a busca por um assassino e por um famoso ladrão de joias chamado “Rei Victor”, o leitor é jogado de um lugar para outro, mas sempre volta para Chimneys, que atrai a esses personagens como se fosse um ímã. Como disse no começo do texto, parece-me um casamento entre ideias que a autora teve em obras anteriores, mas diante das quais ela não conseguiu fazer a poda correta. É possível se divertir nos momentos cômicos e sentir os bons momentos de ação do livro, mas de tanto ser minado pelo excesso, O Segredo de Chimneys não consegue se alçar acima da média, algo difícil de acontecer em um romance de Agatha Christie.

O Segredo de Chimneys (The Secret of Chimneys) – Reino Unido, junho de 1925
Autora: Agatha Christie
Editora original: The Bodley Head
Edição lida para esta crítica: BestBolso
Tradução: A. B. Pinheiro de Lemos
308 páginas

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