Crítica | O Segredo do Bosque dos Sonhos

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Amplamente conhecido por ser o declarado filme favorito — e mais pessoal — de Lucio FulciO Segredo do Bosque dos Sonhos (1971) é um giallo em que o diretor arrisca bastante na condução, procurando guiar as coisas de forma bem diferente se comparadas aos seus já interessantes experimentos no gênero, com Uma Sobre a Outra (1969) e principalmente Uma Lagartixa num Corpo de Mulher (1971).

Uma das primeiras coisas que chamam a atenção do espectador aqui são as locações, que servem como um perfeito espaço para esconder bruxas e malfeitores, seja nas florestas, seja nas cabanas de pedra que vemos nos montes que cercam a cidade. As belas paisagens de Matera (cujo Centro Histórico, chamado Sassi di Matera, foi classificado como Patrimônio Mundial pela UNESCO, em 1993), do Monte Sant’Angelo (famoso por suas grutas e pelo Santuário do Monte de São Miguel Arcanjo) e das Cascatas do Monte Gelado deram vida ao vilarejo onde estranhos assassinatos de crianças passam a aterrorizar a população, cada crime engajando ainda mais policiais, jornalistas e moradores que procuram o culpado pelos terríveis crimes.

Um lado sobrenatural da história é posto em cena já nos primeiros minutos da fita, e a figura de uma bruxa local passa a ser constantemente citada, sendo essa personagem, interpretada por Florinda Bolkan, protagonista da melhor cena de violência da fita. De certo ponto em diante, a prática de bruxaria ganha uma aura um tantinho mais dominante, e o espectador começa a considerar as pistas para os assassinatos vindo desse núcleo, seja por ação direta ou indireta da bruxa. No processo de investigação, o roteiro explora a prisão de pessoas inocentes e infelizmente abandona personagens no meio do caminho (temporária ou definitivamente), o que pesa de modo considerável na parte final, uma vez que janelas importantes ficam abertas ou mergulhadas em sugestões que o texto não faz questão nenhuma de trabalhar melhor ou elucidar.

SPOILERS!

Mortes muito violentas são a marca de O Segredo do Bosque dos Sonhos, especialmente na segunda metade. O sexo e a libido são constantemente tocados pelo roteiro, e essa relação entre a vida local e “o pecado” acaba por ceifar a vida dos garotos da comunidade, vítimas do zelo extremo de um padre louco por sua religião. Não foi à toa que o filme teve problemas comerciais devido ao boicote da igreja católica, que colocou o longa em sua lista de desafetos. Embora não seja algo totalmente espantoso para o espectador — porque a figura do padre é pouco a pouco colocada no centro da história e com amplo acesso às crianças –, a sequência final do filme tem uma grande força, com o diretor explorando bem o suspense e, infelizmente, caindo no ridículo pela forma como encerra o problema.

A cena do padre caindo do monte é uma das coisas mais terríveis e hilárias que se pode ter em um giallo de abordagem tão séria como esta, o que não é exatamente algo esperado. A excelente dilaceração do rosto do personagem, batendo nas rochas, é imediatamente anulada pelo absurdo das enormes faíscas que vemos a cada batida, e pela maneira exagerada com que a tal queda é filmada. No entanto, a tristeza pelo assassinato brutal das crianças permanece até o desfecho, que o diretor filma como o fechamento de um ciclo de tragédias que levou embora muitos inocentes.

O Segredo do Bosque dos Sonhos (Non si sevizia un paperino) — Itália, 1971
Direção: Lucio Fulci
Roteiro: Lucio Fulci, Roberto Gianviti, Gianfranco Clerici
Elenco: Florinda Bolkan, Barbara Bouchet, Tomas Milian, Irene Papas, Marc Porel, Georges Wilson, Antonello Campodifiori, Ugo D’Alessio, Virgilio Gazzolo, Vito Passeri, Rosalia Maggio, Andrea Aureli, Linda Sini, Franco Balducci
Duração: 105 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.