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Crítica | O Segredo do Bosque dos Sonhos

por Luiz Santiago
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Amplamente conhecido por ser o declarado filme favorito — e mais pessoal — de Lucio FulciO Segredo do Bosque dos Sonhos (1972) é um giallo em que o diretor arrisca bastante na condução, procurando guiar as coisas de forma bem diferente se comparadas aos seus já interessantes experimentos no gênero, com Uma Sobre a Outra (1969) e principalmente Uma Lagartixa num Corpo de Mulher (1971).

Uma das primeiras coisas que chamam a atenção do espectador aqui são as locações, que servem como um perfeito espaço para esconder bruxas e malfeitores, seja nas florestas, seja nas cabanas de pedra que vemos nos montes que cercam a cidade. As belas paisagens de Matera (cujo Centro Histórico, chamado Sassi di Matera, foi classificado como Patrimônio Mundial pela UNESCO, em 1993), do Monte Sant’Angelo (famoso por suas grutas e pelo Santuário do Monte de São Miguel Arcanjo) e das Cascatas do Monte Gelado deram vida ao vilarejo onde estranhos assassinatos de crianças passam a aterrorizar a população, cada crime engajando ainda mais policiais, jornalistas e moradores que procuram o culpado pelos terríveis crimes.

Um lado sobrenatural da história é posto em cena já nos primeiros minutos da fita, e a figura de uma bruxa local passa a ser constantemente citada, sendo essa personagem, interpretada por Florinda Bolkan, protagonista da melhor cena de violência da fita. De certo ponto em diante, a prática de bruxaria ganha uma aura um tantinho mais dominante, e o espectador começa a considerar as pistas para os assassinatos vindo desse núcleo, seja por ação direta ou indireta da bruxa. No processo de investigação, o roteiro explora a prisão de pessoas inocentes e infelizmente abandona personagens no meio do caminho (temporária ou definitivamente), o que pesa de modo considerável na parte final, uma vez que janelas importantes ficam abertas ou mergulhadas em sugestões que o texto não faz questão nenhuma de trabalhar melhor ou elucidar.

SPOILERS!

Mortes muito violentas são a marca de O Segredo do Bosque dos Sonhos, especialmente na segunda metade. O sexo e a libido são constantemente tocados pelo roteiro, e essa relação entre a vida local e “o pecado” acaba por ceifar a vida dos garotos da comunidade, vítimas do zelo extremo de um padre louco por sua religião. Não foi à toa que o filme teve problemas comerciais devido ao boicote da igreja católica, que colocou o longa em sua lista de desafetos. Embora não seja algo totalmente espantoso para o espectador — porque a figura do padre é pouco a pouco colocada no centro da história e com amplo acesso às crianças –, a sequência final do filme tem uma grande força, com o diretor explorando bem o suspense e, infelizmente, caindo no ridículo pela forma como encerra o problema.

A cena do padre caindo do monte é uma das coisas mais terríveis e hilárias que se pode ter em um giallo de abordagem tão séria como esta, o que não é exatamente algo esperado. A excelente dilaceração do rosto do personagem, batendo nas rochas, é imediatamente anulada pelo absurdo das enormes faíscas que vemos a cada batida, e pela maneira exagerada com que a tal queda é filmada. No entanto, a tristeza pelo assassinato brutal das crianças permanece até o desfecho, que o diretor filma como o fechamento de um ciclo de tragédias que levou embora muitos inocentes.

O Segredo do Bosque dos Sonhos (Non si sevizia un paperino) — Itália, 1972
Direção: Lucio Fulci
Roteiro: Lucio Fulci, Roberto Gianviti, Gianfranco Clerici
Elenco: Florinda Bolkan, Barbara Bouchet, Tomas Milian, Irene Papas, Marc Porel, Georges Wilson, Antonello Campodifiori, Ugo D’Alessio, Virgilio Gazzolo, Vito Passeri, Rosalia Maggio, Andrea Aureli, Linda Sini, Franco Balducci
Duração: 105 min.

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6 comentários

JC 25 de novembro de 2019 - 03:54

Adorei esse, mas realmente, aquela morte final….socoroooooo ahahahaha
Fora os manequins da criançada morta as vezes é de doer os zoinhos.

É bem curioso a primeira cena de nudez, fica claro que a criança não estava naquela cena, tem um momento que quando parece que é a criança, é claramente um adulto de tão desproporcional que ficou ahahahah

E onde esse povo achava tanta mulher linda assim mon-geová?

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 25 de novembro de 2019 - 11:36

Parece que reservam as grandes beldades para o cinema italiano em geral, porque olha… Pega os filmes do Fellini e é a mesma coisa. Pega os do Antonioni e booom! Ai ai, viu…

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Rafael Lima 27 de outubro de 2019 - 21:23

Esse aqui é um dos meus favoritos do Fulci. Gosto da crítica do filme a ignorância humana embrulhada em uma história de serial killer, trazendo inclusive alguns temas polémicos e pesados. Mas vou discordar de você quanto a sequência final. Lembro de ter gostado muito quando vi, com esse exagero citado com você já sendo característico do Fulci. Mas não foi um arroubo que me tirou do que havia sido construído pelo filme não.

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Acepipe Satã🐂GADO, O PARCIAL 27 de outubro de 2019 - 22:45

Eu entendo. Mas no meu caso não comprometeu taaaaaanto a experiência. Às vezes a gente só acha o filme “bom”, mas nesse caso, para mim, está solidamente acima da média, realmente muito bom. Mas não consigo ignorar de fato esses probleminhas.

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JC 27 de outubro de 2019 - 12:01

Poxa, eu estou querendo comprar as coleções Gillo da Versátil, esse tá no Vol.1 que só encontrei custando os olhos da cara aqui.
RS
Peguei o Vol.3 e 5 num excelente preço.

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Acepipe Satã🐂GADO, O PARCIAL 27 de outubro de 2019 - 12:57

Tem curtido os filmes?

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