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Crítica | O Serviço de Entregas da Kiki (1989)

por Ritter Fan
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Baseado em romance infantil de extremo sucesso no Japão publicado em 1985, de autoria de Eiko Kadono, O Serviço de Entregas da Kiki é um belo longa de Hayao Miyazaki que lida muito diretamente com a transição da infância para a maturidade por intermédio de um rito de passagem bem marcado, com a criação de mais uma personagem feminina inesquecível pelo cineasta nipônico. Não é, porém, um filme que segue uma estrutura clássica e, por vezes, parece episódico, com um final que pode desapontar.

Kiki (Minami Takayama) é uma bruxinha de 13 anos que, de uma hora para outra, decidi embarcar em uma jornada que todas as bruxas devem fazer quando chega mais ou menos nessa idade: passar um ano sozinha, em uma cidade estranha, de sua escolha. Saindo do amoroso e protegido seio familiar com a vassoura de sua mãe, seu gato Jiji (Rei Sakuma) e uma pequena trouxa, ela voa pela deslumbrante paisagem da animação até chegar a uma cidade de clara inspiração europeia no que parece ser os anos 50, podendo muito facilmente ser Paris ou, talvez, Praga, só que a beira-mar, em uma quebra de expectativas em termos do que esperar de uma obra japonesa, ainda que Miyazaki, assim como seu conterrâneo Akira Kurosawa, nunca tenha se prendido à geografia de seu país.

Nesse mundo em que a animação se passa, as bruxas são diferentes da imagem maléfica do imaginário popular comum, ainda que se vistam de vestidos escuros – que Kiki faz questão de contrastar com um enorme laço vermelho na cabeça – e sejam acompanhadas de gatos pretos, com os humanos “normais” aceitando-as com facilidade, mesmo que elas não seja exatamente comuns ou existam em quantidade. Mas o mais interessante da abordagem de Miyazaki é que, nessa jornada de autodescoberta e de amadurecimento, “ser bruxa” não significa usar poderes mágicos o tempo todo para fazer o que precisa ser feito. Muito ao contrário, de magia mesmo só há a habilidade de Kiki de voar usando uma vassoura e sua capacidade aparentemente inata de compreender a “língua” de Jiji, podendo conversar com ele normalmente, o que a torna, para todos os efeitos, uma menina comum tendo que lidar com seus problemas comuns.

Encontrando moradia em um quarto extra de uma padaria da simpática e muito grávida Osono (Keiko Toda), Kiki passa a usar seu poder de voo para fazer entregas pela região, conhecendo diversas pessoas no processo, incluindo o jovem Tombo (Kappei Yamaguchi), apaixonado por aviação, que logo se enamora dela, ainda que não haja reciprocidade explícita. Tudo é muito delicado no filme, como, aliás, é marca de Miyazaki, mas diferente de seus longas depois da fundação do Estúdio Ghibli, O Serviço de Entregas da Kiki assume uma estrutura mais episódica, com pequenas desventuras da jovem bruxinha sendo contadas a cada “capítulo” que vão enriquecendo a vida da jovem e estabelecendo seus dilemas, notadamente quando ela parece perder os poucos poderes que têm em uma alegoria que parece pretender marcar sua transição de menina à mulher. Não é uma narrativa completamente resolvida, no sentido de concatenação de narrativa e há um final talvez abrupto demais, mas eu gosto como o roteiro não entrega soluções fáceis e não acaba com uma mensagem unicamente positiva, de que doravante tudo dará certo na vida de Kiki, algo raro de se ver especialmente em animações.

A arte, para variar, é magnífica. Se Meu Amigo Totoro, filme anterior do diretor, lidava com ambientações eminentemente rurais, O Serviço de Entrega da Kiki mergulha fundo em lindos, detalhados e por vezes caóticos cenários urbanos, com direito a tomadas aéreas de tirar o fôlego a partir do ponto de vista das viagens de entregas de Kiki com sua vassoura. A cidade adotada pela bruxinha é vivida e variada, quase imediatamente convencendo-nos de sua verossimilhança e realismo mesmo em uma história de cunho de fantasia, algo de certa forma raro na carreira do diretor. E eu digo quase unicamente pela estranheza inicial que é esperarmos uma “cidade japonesa”, somente para nos depararmos com uma vibrante cidade europeia, o que exige certa aclimatação, por assim dizer.

O Serviço de Entregas da Kiki não tem a mesma fluidez dos trabalhos anteriores tanto de Miyazaki em particular, quanto do Estúdio Ghibli em geral, mas toda a identidade do cineasta está presente na construção da protagonista e na forma como a ambientação é magistralmente trabalhada. Mesmo falhando um pouco na transição entre “episódios”, Miyazaki triunfa mais uma vez ao não simplesmente fazer o óbvio ou resolver a narrativa como um conto de fadas tradicional, elevando sua protagonista a um ou dois patamares acima do que se pode esperar de personagens semelhantes.

O Serviço de Entregas da Kiki (Majo no Takkyûbin – Japão/EUA – 1989)
Direção: Hayao Miyazaki
Roteiro: Hayao Miyazaki (inspirado em romance de Eiko Kadono)
Elenco: Minami Takayama, Rei Sakuma, Keiko Toda, Minami Takayama, Kappei Yamaguchi, Kōichi Yamadera, Mieko Nobusawa, Kōichi Miura, Haruko Kato, Hiroko Seki, Yūko Kobayashi, Keiko Kagimoto
Duração: 103 min.

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