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Crítica | O Show do Zé Colmeia – 1X01: Oinks and Boinks/Major Operation/Out of Luck Duck

por Davi Lima
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Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.
Número de temporadas: 2
Número de episódios: 33
Período de exibição: 30 de janeiro de 1961 – 6 de janeiro de 1962
Há reboot? Lançou em 1973 A Turma do Zé Colmeia, mas não é necessariamente reboot.

Uma boa sugestão para se conhecer a cultura estadunidense é assistir a desenhos animados televisivos da década de 60, especialmente de Hanna-Barbera. Isso porque com a popularidade da TV em crescente desde a década de 50, a construção efusiva de uma cultura televisiva para as respectivas idades do público, em meio a propagandas e programações em constante teste de atrair os telespectadores, buscava diversidade na verossimilhança de se trabalhar com arte que chegasse às casas dos americanos, algo que já fizesse parte da realidade cultural dos EUA. Dessa forma, O Show do Zé Colmeia, financiado pela multinacional de alimentos Kellogg’s, que tinha várias propagandas de cereal com personagens de Hanna-Barbera, é um exemplo dessa diversidade na verossimilhança, trabalhando com o antropomorfismo de personagens caricaturais de animais como trunfo artístico.

Isso é perceptível na organização dessa série de 1961, que deu certo protagonismo para Zé Colmeia e seu parceiro Catatau como venda de uma nova programação televisiva, após ambos participarem da animação Dom Pixote, mas cada episódio do show do antropomorfo urso florestal na verdade se dividia em três segmentos de curtas-metragens: o primeiro de Zé Colmeia no parque Jellystone, uma caricatura do famoso parque estadunidense Yellowstone; o segundo são as aventuras do fino Leão da Montanha sendo caçado pelo Major, semelhante ao Hortelino e Eufrazino perseguindo Pernalonga no Looney Tunes, só que com menos acidez, ao menos no primeiro episódio; e o terceiro segmento é a historiazinha de subúrbio americano do Patinho Duque sendo protegido pelo buldogue Chopper das artimanhas do gato vermelho comer Duque. Todos animais, urso, leão e pato são antropomórficos, quebram a quarta parede e apresentam jargões. Essas características alinhadas às diferentes personalidades interpretadas pela voz de Daws Butler para os três personagens, e as localidades em que cada um desenvolve suas histórias, tornam o primeiro episódio significativo para abstrair uma produção de intenções calculadas em ser relevante nas casas e famílias estadunidenses que assistissem.

Claro que independentemente das propostas e intenções, o piloto da primeira série do Zé Colmeia poderia não dar certo, e tendo como experiência do presente ambos os segmentos animados do episódio soam extremamente datados. No entanto, existe uma arte dos diretores Joseph Barbera e William Hanna que usa a caricatura como campo de possibilidades dentro do direcionamento verossimilhante, colocando aspectos identificáveis da cultura americana para caracterizar os personagens, como inspirações e frases de artistas de língua inglesa que criam uma ambiguidade, uma dúvida de efeito impactante que foge do cenário 2D: os animais antropomórficos estão mimetizando alguma figura conhecida, ou os trejeitos artísticos de outro se moldaram para formar um novo ícone televisivo da animação? Essa ambiguidade é que prende o espectador ainda hoje, e na década de 60, como associação verossimilhante da realidade da época, ainda mais. Assim, há um molde muito bem estabelecido dos diretores em trabalho com os roteiristas Warren Foster e Michael Maltese, tanto como base de conceito dos animais como no movimento narrativo deles, criando personagens que escancaram e formam uma cultura americana pela voz e adaptação colocadas como arte em foco.

Não é à toa que pensando numa distribuição além dos EUA, se por um lado é necessário um trabalho apurado de adaptação na dublagem para determinado país, ao mesmo tempo os moldes antropomórficos são fluidos em adaptação, tendo em vista que a fonte de sucesso é exatamente o dinamismo com o verossimilhante, com a realidade da animação direcionada para a realidade do telespectador. E focando mais no piloto e suas histórias, em como elas contribuem para essa percepção artística, no segmento de Zé Colmeia e Catatau conta-se sobre a reestruturação do conto dos três porquinhos, em que Zé quer sair de sua caverna para outra, enquanto os três porquinhos dão de graça para ele e Catatau, mesmo que o urso pardo menor seja relutante. Toda a comédia, ou graça, não se vale necessariamente da quebra de expectativa, o que desestimula um pouco a apreciação. No entanto, compreendendo mais a linguagem da caricatura e tudo que já foi citado no trabalho artístico que Hanna-Barbera trabalha com a série, o humor acontece pelo reconhecimento antropomórfico, o quesito muito humano dos diálogos, das reações repetidas, mas com falas diferentes, além dos efeitos de memória, como uma cama dentro da caverna, ou os diálogos do lobo-mau descrevendo cenários das casas dos porquinhos que o desenho não mostra. E mesmo que isso não pareça novidade, pensando até em animações como Pica-Pau, de fato não é, porém apenas a dupla Zé Colmeia e Catatau buscam essa interação com o verossimilhante como se fizesse parte da realidade, não busca o humor na transgressão e nas possibilidades ácidas nas quais Pica-Pau tem que montar sua comédia.

Os outros dois segmentos, com Leão da Montanha e Patinho Duque, trazem outras dimensões do trabalho com o antropomorfismo. Leão tem um ironia no sotaque e em todo o seu universo do primeiro episódio que trata de uma associação de caçadores, bem típico nos EUA, com as temporadas de caça, assim como a cultura de preservar grandes parques como o que Zé Colmeia faz referência, o tal Yellowstone. O curta de Leão tem estéticas mais teatrais, em que o humor é como sinônimos de um Pernalonga, sempre dominando o final do episódio, embora muito passivo para que a história inicie. Já o Patinho Duque se constrói no ambiente bem mais próximo do público televisivo, e até indica de maneira mais específica a qual público se direciona: o que vive no subúrbio. Não obstante, no senso comum de que os americanos do subúrbio teriam mais influência na renda pública de visita nos parques públicos dos EUA, além que são os mais ricos que possivelmente tinham tempo para a temporada de caça, ambos os segmentos se tornam ainda mais verossimilhantes compreendendo qual classe social em grande maioria tinha TV na década de 60.

Chegando ao fim e compreendendo a ordem de programação dos segmentos do piloto de O Show do Zé Colmeia, a experiência de assistir vai do campo mais distante ao campo mais próximo, da floresta à casa, com animais domésticos passando no meio pela cidade. Isso não é necessariamente planejado, porém dentro desse piloto, isso delineia a harmonia com toda a arte de Hanna-Barbera em tratar do antropomorfismo de seus personagens. Mesmo que em média qualitativa o peso pela nostalgia seja um grau mais enfático para se empolgar com a animação, compreendendo a arte como transgressora de limites temporais, ainda há bastante espaço para assistir a Zé Colmeia e Catatau, junto de seus outros amigos animais, e se divertir por alguns poucos minutos.

O Show do Zé Colmeia (The Yogi Bear Show) – 1X01: Oinks and Boinks/Major Operation/Out of Luck Duck – EUA, 30 de janeiro de 1961
Criação: Joseph Barbera e William Hanna
Direção: Joseph Barbera e William Hanna
Roteiro: Warren Foster, Michael Maltese
Elenco: Dawn Butler, Don Messick, Vance Colvig, Jimmy Weldon, Jerry Mann
Duração: 22 minutos (cada segmento/curta para cada personagem tem cerca de 7min)

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