Home TVEpisódioCrítica | O Show dos Muppets (2026)

Crítica | O Show dos Muppets (2026)

Ninguém para os Muppets!

por Ritter Fan
564 views

Uma das primeiras e também menos comentadas propriedades intelectuais adquiridas pelo conglomerado Disney no século XXI foi os Muppets, do grande Jim Henson, falecido em 1990. Pessoalmente, sempre adorei os personagens e continuo adorando mesmo agora, ainda que eu infelizmente não possa deixar de constatar que as adoráveis marionetes talvez não tenham mais espaço nos dias de hoje em razão do mundo mais cínico em que vivemos e da quantidade de obras ofertadas nos mais variados serviços de streaming que têm tido efeito disruptivo até mesmo no cinema. No entanto, há que se tirar o chapéu para a Casa do Mickey que, de tempos em tempos, insiste em produções dos Muppets, sejam filmes ou séries de TV e até mesmo um belo documentário sobre Henson, com o último desses esforços tendo sido Muppets e o Caos Elétrico, série de 2023 que só sobreviveu por uma temporada de 10 episódios.

O Show dos Muppets é outra tentativa da Disney de dar nova vida aos inesquecíveis personagens e de comemorar os 50 anos dos personagens contados a partir do ano de lançamento do famoso programa de variedades original, mesmo que alguns deles existam desde os anos 50. E o formato escolhido foi justamente o do show original de 1976 que ficou no ar até 1981, com um total de 120 episódios, tendo Sabrina Carpenter como convidada especial e Seth Rogen e Maya Rudolph como “convidados coadjuvantes”. A nova produção segue exatamente a mesma estrutura original, o que a torna ao mesmo tempo valiosa pela coragem em ressuscitar um formato em desuso há décadas (com exceção, talvez, de Saturday Night Live) e anacrônica pela mesma razão, na esperança de que a nostalgia dos mais velhos como eu somado à curiosidade dos mais jovens torne possível o efetivo retorno do show, algo que, muito sinceramente, eu gostaria muito.

Usando de franqueza e autoconsciência, a linha narrativa que perpassa todo o especial de pouco mais de 30 minutos é justamente o retorno ao formato clássico, algo que deixa Kermit (voz de Matt Vogel) ansioso e nervoso em sua função de showrunner que precisa escolher que números das infinitas opções irão ao palco, resolver os problemas de bastidores e, claro, lidar com o estrelismo exacerbado de Miss Piggy (Eric Jacobson) que ganha uma entrada fantástica – e levemente agridoce – à la Norma Desmond em Crepúsculo dos Deuses. A autoconsciência é chave aqui, ou seja, Kermit sabe que é “tudo ou nada”, que essa seja, talvez, a última tentativa de ressuscitar os Muppets e tudo tem que dar certo e, para que tudo dê certo, tudo tem que dar errado, obviamente, o que é justamente o que acontece.

Sabrina Carpenter, atriz e cantora que eu conhecida somente de nome, merece especial comenda aqui não exatamente por seus dotes artísticos, mas sim pela coragem de aceitar um papel que a equaliza justamente com Miss Piggy, já que uma das piadas recorrentes do especial é o quanto Carpenter teria copiado o visual da mais famosa marionete porca da Sétima Arte e o quanto Miss Piggy desgosta disso, ameaçando-a de ajuizar uma ação. Não é todo mundo que aceita ser chamado de “porca rechonchuda” e Carpenter não só aceita como parece genuinamente feliz por estar ali, assim como, subsidiariamente, acontece com Rogen e Rudolph que são usados apenas em breves esquetes. Carpenter tem a honra de abrir o show com um número musical e, mais para a frente, em dividir a tela com outro número musical com Miss Piggy, com os bastidores da produção inteligentemente “sangrando” para dentro do que vemos no palco, o que torna todo o conjunto da obra quase que metanarrativo e, sendo bem sincero, uma súplica ao público para deixar de lado o cinismo e abraçar o humor leve e bobo que é a marca dos Muppets e que os roteiristas da nova produção capturam à perfeição.

Entre os velhos rabugentos e reclamões Statler e Waldorf (Peter Linz e Dave Goelz) no camarote do Teatro dos Muppets prontos para jogar tomates nos artistas, Rowlf (Bill Barretta) docemente tocando a trilha sonora no piano ao vivo, Scooter (David Rudman) correndo por todo o lado para ajeitar a produção e Gonzo (também Goelz) em sua gag recorrente em que ele aparece descontrolado com patins a jato recitando os nomes de todas as atrizes que ganharam o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, tudo funciona perfeitamente errado – ou seria erroneamente perfeito? – na nova versão de O Show dos Muppets. São diálogos espertos para cá e para lá, piadas antiquadas, mas talvez por isso mesmo muito divertidas o tempo todo e números musicais marcantes como é o final que recorre a Queen e Don’t Stop Me Now que poderia ter sido mais longo. Só me resta, agora, torcer para que a insistência valorosa da Disney faça com que O Show dos Muppets encontre seu público novamente, seja ele jovem ou não, e retorne com força total para a telinha mais uma vez nesse exato formato vencedor.

O Show dos Muppets (The Muppet Show – EUA, 04 de fevereiro de 2026)
Direção: Alex Timbers
Roteiro: Albertina Rizzo, Gabe Liedman, Nedaa Sweiss, Kelly Younger, Andrew Williams (baseado em criação de Jim Henson)
Elenco:
Convidados especiais: Sabrina Carpenter, Maya Rudolph, Seth Rogen
Vozes originais: Matt Vogel, Eric Jacobson, Bill Barretta, Dave Goelz, Peter Linz, David Rudman
Duração: 33 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais