Crítica | O Signo da Cidade

O rádio sempre foi uma mídia intimista. A popularidade dos programas era testada com base nas cartas recebidas pelos apresentadores. Muita gente ainda romantiza a imagem do radialista, ao imaginar como é aquela pessoa por detrás do som emitido pelas ondas do rádio. Houve, inclusive no Brasil, a era das cantoras de rádio. O terreno da ficção adentrou por este meio eficaz de comunicação e permitiu o surgimento das radionovelas. Com o tempo, o rádio encontrou alternativas para driblar a televisão, o cinema, atualmente a internet e uma das características é o contato direto com os ouvintes em programas ao vivo, como podemos observar nos interessantes O Rei da Baixaria, Talk Rádio – Verdades que Matam e no brasileiro O Signo da Cidade, lançado em 2007.

Dirigido por Carlos Alberto Riccelli, tendo como base o roteiro escrito por Bruna Lombardi, a protagonista, O Signo da Cidade abre a sua narrativa com Teca, personagem da escritora e atriz. Ela tem um programa radiofônico onde emite opiniões para ouvintes que ligam interessados em saber coisas sobre as suas vidas, baseadas nas cartas manuseadas por Teca em sua mesa de apresentação repleta de uma atmosfera esotérica. Já na abertura, a câmera do diretor de fotografia Marcelo Trotta se movimenta por diversos cantos da cidade e revela os ouvintes em suas práticas cotidianas, tendo o rádio como um companheiro para as suas agruras.

Com a presença constante da trilha sonora assinada por Zé Godoy, acompanhamos Teca em sua apresentação no rádio e em sua casa. Ela é solteira e pensa que um amor bacana ainda está vindo em sua direção. O design de produção de Ana Mara Abreu impõe um tom bem equilibrado para os seus dois ambientes de atuação, a rádio e seu apartamento, o que permite que possamos melhor compreender o seu perfil psicológico e social. O físico fica bem delineado, haja vista a insistência de desnecessárias cenas de nudez que não se apresentam como elementos narrativos, mas apenas flertam com o status de símbolo sexual que a atriz carrega desde as suas incursões televisivas.

Teca descobre a presença de um novo vizinho em seu prédio. Gil (Malvino Salvador) é um marceneiro que está em processo de mudança e constantemente aparece sem camisa, despertando na astróloga desejos comuns a qualquer mulher sexualmente sadia. Ele se apresenta, pede desculpas pelo barulho, flerta com a vizinha, mas não informa que é casado com a instável Lydia (Denise Fraga). Decepcionada, Teca se sente atraída por Gil, mas não consegue se entregar e permitir “algo a mais”, pois teme a reação da esposa e as consequências sentimentais de um caso.

Em seu apartamento ela faz uma extensão do seu programa e atende sempre que pode algumas pessoas que querem a leitura de cartas para previsões do futuro. É neste setor narrativo que as outras histórias se entrelaçam. O enfermeiro que cuida de seu pai no hospital, a tia interpretada pela veterana Eva Wilma, alguém que tem total ojeriza pelo pai enfermo de Teca, o que é explicado apenas próximo do desfecho, dentre outras histórias que envolvem a grande teia de personagens do filme, o que creio, não permite mais foco numa produção que poderia muito bem, e com maior estilo e eficácia, dialogar com o rádio para fazer esses personagens circularem com suas histórias pela narrativa.

Tal solução seria, inclusive, econômica, mais poética e menos caótica. É possível compreender que O Signo da Cidade reflete sobre o caos dos embates cotidianos entre pessoas de identidades e posturas distintas, mas uma narrativa sobre esse caos não precisa necessariamente ser caótica, não é mesmo? O filme segue bem a cartilha das produções de Bruna Lombardi no cinema. Há os “acasos”, os encontros e desencontros, a sorte no amor, os relacionamentos complexos, a dúvida entre se entregar ao novo ou manter-se fiel às velhas convicções, dentre tantos temas que gravitam em torno do esotérico cinema da atriz que possui longa carreira na televisão e na publicidade, bem como em pontuais produções cinematográficas.

Ao longo dos 95 minutos, O Signo da Cidade segue o estilo já consagrado por Robert Altman há algum tempo. Vários personagens, histórias múltiplas, reflexões mistas, etc. O clima adotado para a cidade de São Paulo, espaço narrativo de todo o filme, é constantemente noturno, simbologia que dialoga com o feixe de desgraças que ocorre do começo ao fim do filme: balas perdidas, assaltos, crimes, suicídios, tristeza e desencanto. Um retrato amargo da vida, mesmo que próximo ao final haja uma fagulha de esperança, fraca diante de tanta miséria exposta.

O Signo da Cidade (Brasil – 2007)
Direção: Carlos Alberto Ricceli
Roteiro: Bruna Lombardi
Elenco: Bethito Tavares, Bruna Lombardi, Graziella Moretto, Juca de Oliveira, Laís Marques, Luis Miranda, Malvino Salvador, Marcelo Lazzaratto, Rogério Brito, Sidney Santiago, Thiago Pinheiro
Duração: 95 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.