Crítica | O Signo do Leão

Signo do leão plano critico

estrelas 4

O primeiro longa-metragem de Eric Rohmer, apesar das falhas esperadas de um cineasta inexperiente na direção de longas (vale lembrar que a esta altura ele já tinha dirigido 5 curtas), é uma película interessante, e certamente um dos primeiros marcos da Nouvelle Vague. Dentro da filmografia do diretor, O Signo do Leão é quase um elefante branco, porque traz técnicas muito diferentes daquelas que ele firmaria como suas nos anos seguintes. Raramente se vê uma mudança tão grande em assinaturas autorais como a que Rohmer empreendeu dessa estreia para os outros longas. Em seu melhor filme seguinte, A Colecionadora (1967), teríamos uma realidade formal completamente diferente.

A tragicomédia do filme baseia-se na superstição do personagem principal, Pierre, um músico leonino e preguiçoso que, da noite para o dia, se vê rico, herdeiro de uma fortuna deixada por uma tia. O impasse e a tragédia chegam quando Pierre descobre que sua tia o deserdara, deixando toda a fortuna para outro membro da família. Aos poucos, o músico se vê em uma situação financeira deplorável: é despejado dos hotéis, passa a dormir e perambular pelas ruas e procurar desesperadamente por comida. De artista bon vivant a mendigo, Pierre vaga errante por Paris, cidade que a fotografia de Nicolas Hayer torna divina. As locações escolhidas por Rohmer não mostram o glamour dos cafés e da burguesia ou as salas claras e limpas dos museus. A Paris de O Signo do Leão é a Paris periférica, humilde, pobre, é a Paris dos bares noturnos, do contrabando, dos esfomeados, dos artistas de rua.

A música de Louis Saguer marca o filme com muito vigor. A primeira parte é tímida, no contexto musical, exceto pela sequência onde um estranho personagem, interpretado por Jean Luc-Godard, manipula um disco na vitrola. Nessa parte, predomina o diálogo verborrágico, as situações cáusticas, a ironia e o cinismo. O estranhamento rohmeriano acontece na segunda parte, quando a palavra se torna escassa e o silêncio (pasme!) acompanha a vagabundagem e o sofrimento de Pierre. Nesses momentos, um violino melancólico parece chorar toda a situação. A imagem aliada ao som é de tal força, que o filme não peca em nada no tratamento da pobreza — como Os Incompreendidos, de Truffaut, lançado no mesmo ano, também não pecaria em trabalhar. Os erros concentram-se principalmente na citação da astrologia como motivo dramático e do modelo formal meio tacanho: juntos, eles travam uma parte do filme.

Rohmer mistura ingredientes cinematográficos com realismo social e o resultado é um notável filme sobre a pobreza, a riqueza e a sorte. O final é relativamente medíocre, mas essa característica não anula a beleza e a força da fita. Um ar jovem e inovador é claramente perceptível em O Signo do Leão, e sabemos estar diante de uma obra que se enquadra em uma nova fase do cinema.

Poucos erros e muitos acertos marcam esta estreia de Rohmer em longas metragens. Da possibilidade da sorte para o resultado da ação humana, temos um drama levemente cômico sobre a miséria e a preguiça; sobre uma classe social e um acontecimento banal que muda por completo uma vida, tudo isso agrupado em blocos de alguns dias, como uma crônica jornalística com um verniz quase documental. Embora esse seja um filme atípico na filmografia do mestre francês, o caráter do minimalismo cotidiano, dos pequenos objetos e da vida transformada por quase nada já se fazem presentes. Exatamente como na vida real.

O Signo do Leão (Le Signe du Lion, França, 1959)
Direção: Eric Rohmer
Roteiro: Eric Rohmer, Paul Gégauff
Elenco: Jess Hahn, Michèle Girardon, Van Doude, Paul Bisciglia, Gilbert Edard, Christian Alers, Paul Crauchet, Jill Olivier, Sophie Perrault, Stéphane Audran, Jean Le Poulan
Duração: 103min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.