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Crítica | O Silêncio das Sereias, de Franz Kafka

Devaneios e divagações em torno da mitologia grega e da jornada de Ulisses.

por Leonardo Campos
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O episódio de Ulisses e as sereias na Odisseia de Homero exerce um fascínio perene por condensar a tensão entre a sedução do conhecimento absoluto e a disciplina necessária para a sobrevivência. Enquanto leitores diletantes se encantam com a astúcia do herói que, ao se amarrar ao mastro, experimenta o sublime sem sucumbir à morte, o público acadêmico mergulha em pesquisas profundas sobre a função da música e da memória na cultura grega e as metáforas do desejo contidas no canto dessas figuras híbridas. Essa dualidade entre o prazer narrativo e a complexidade filológica permite que a passagem permaneça como um campo fértil de estudos, bem como traduções imagéticas, instigando desde interpretações psicológicas sobre o autocontrole até análises sociopolíticas sobre a liderança e a resistência humana diante do desconhecido. Como é de conhecimento geral, essa é uma das passagens mais emblemáticas da poesia homérica e, no século XX, dentre todas as suas reinterpretações, ganhou uma que podemos considerar de luxo: uma abordagem em conto do escritor Franz Kafka.

Assim, podemos dizer que O Silêncio das Sereias é uma tomada de empréstimo da mitologia, para ser esmaltada pelo estilo singular do autor de obras-primas da literatura, tais como A Metamorfose, O Processo, O Artista da Fome, dentre outros. Conhecido por uma linha de pensamento que geralmente explora profundamente a alienação, a angústia existencial e a fragilidade do indivíduo perante o poder arbitrário, em suas composições literárias, Kafka constantemente apresentou uma versatilidade que lhe permitiu a fusão entre elementos do realismo com o surrealismo e o fantástico, consolidando sua influência em diversas correntes da literatura moderna do século XX. Lido na juventude, ao menos com a experiência de quem vos escreve, foi ainda mais compreendido na maturidade, em especial, nessa retomada de um texto curto, traduzido assertivamente por Luiz Costa Lima, disponibilizado pela EDUERJ.

Antes de uma interpretação mais profunda e conectada com o panorama geral de debates de especialistas em torno de O Silêncio das Sereias, delineio que ao ler, podemos sentir que uma das ironias da abordagem de Franz Kafka reside na subversão radical do mito clássico: enquanto na Odisseia de Homero o perigo reside no canto sedutor das criaturas, Kafka propõe que o silêncio das sereias é, na verdade, uma “arma ainda mais terrível”, representando um vazio existencial que Ulisses não consegue decifrar. O astuto herói grego usa essa que é uma de suas principais qualidades para ouvir o som proibido, mas na releitura kafkiana, a resistência de Ulisses torna-se irrelevante diante da total ausência de som, sugerindo que o verdadeiro horror moderno não é a tentação explícita, mas a indiferença do destino e a incomunicabilidade absoluta. Essa inversão transforma o épico em um exercício de introspecção absurda, onde o protagonista sobrevive não por sua inteligência, como é tradicional e, o esperado.

Mesmo breve, O Silêncio das Sereias consegue prender o leitor. Na experiência de leitura que apresento aqui, ao analisar o conto panoramicamente, devo destacar que a sua leitura foi realizada logo pela manhã, primeiro contato com qualquer coisa, até mesmo antes de conferir mensagens e outras informações que nos chegam assim que percebemos que acordamos para mais um dia de vida. E, lido com o acompanhamento de um café servido fresquinho, o texto se mostrou arrebatador. Simples, mas muito reflexivo e inteligente, melhor do que qualquer outra coisa que reinterpreta o mito de Ulisses, contemplado nos últimos tempos. Kafka sugere que o canto das sereias possuía uma força avassaladora, capaz de romper correntes e mastros através da paixão dos seduzidos, mas Ulisses, agindo com uma “alegria inocente”, optou por ignorar tal perigo ao depositar toda sua confiança em recursos triviais como cera e amarras.

O autor subverte a narrativa clássica ao revelar que a verdadeira ameaça não residia na melodia esperada, mas em algo muito mais terrível: o silêncio absoluto das criaturas, um vazio ensurdecedor que desafiava a astúcia do herói grego de forma inédita. Em linhas gerais, caro leitor, os mitos, como o das sereias na Odisseia, demonstram seu grande poder ao oferecer múltiplas possibilidades de interpretação: para além do perigo mortal que desvia a razão, as sereias podem ser vistas como alertas sobre a riqueza de significados, sugerindo que a astúcia de Ulisses foi correspondida pela delas, em um jogo de mútua captura. Essa natureza antropológica fundamental do mito, que traduz simbolicamente a visão de mundo de uma civilização e explica origens, encontra paralelos na psicanálise freudiana, onde mitos e sonhos análogos expressam sentimentos inconscientes coletivos e individuais, e na incomunicabilidade kafkiana, que se manifesta na contingência do cotidiano, não como uma abstração extraterrena.

No Canto XII da Odisseia, a narrativa destaca as advertências de Circe a Ulisses sobre os perigos iminentes em seu retorno a Ítaca, focando especialmente na natureza letal das sereias. A característica central desses seres, preservada através dos séculos, reside em sua voz maravilhosa e no poder de sedução que conduz à destruição inevitável daqueles que se aproximam. Diferente do mito em questão, onde Ulisses mantém os ouvidos livres e se amarra ao mastro para ouvir o canto sem sucumbir, a adaptação que utiliza a cera nos ouvidos do herói pode ser interpretada como uma atitude que simboliza uma renúncia à experiência sensorial completa em nome da sobrevivência, evidenciando uma barreira intransponível entre o sujeito e a compreensão do fenômeno. Essa impossibilidade de ouvir e, consequentemente, de relatar a totalidade do encontro, aponta para uma crise na transmissão do conhecimento e na própria definição daquilo que denominamos por verdade. Estou elucubrando, combinado?

É o que fazemos depois da leitura desse instigante conto. O gesto de tapar os ouvidos reflete o caráter profético da obra ao espelhar a era de incertezas que vivemos na contemporaneidade, onde a verdade se torna fragmentada e inacessível. Nesse cenário, o silenciamento forçado diante da sedução do perigo revela a incapacidade do homem moderno de processar narrativas absolutas, restando apenas o vazio de uma experiência que não pode ser plenamente contada ou verificada. Curiosamente, o texto literário de Kafka nos parece profético, por isso, tão atual e envolvente. Publicado em 1917, em plena Primeira Guerra Mundial, essa cuidadosa e breve tessitura demonstra que o autor se apoia no conhecimento prévio do leitor sobre um dos mais difundidos episódios da Odisseia, um mito que se tornou canônico e transbordou para o folclore de diversas culturas, se manifestando desde o âmbito nórdico aos indígenas brasileiros. Ao retomar esse pilar da épica clássica, Kafka não apenas revisita uma base da nossa civilização, mas a utiliza como matéria-prima para uma transgressão literária que desafia as expectativas tradicionais sobre o herói e o destino.

E não pense que é fácil. Lê-lo é como abrir os portões para um caminho de aparências, onde tudo parece simplório por causa da superfície (o texto em si), mas se apresenta como complexo, substancial, no terreno da interpretação. Em linhas gerais, a leitura desse texto de surpreendente contemporaneidade suscita sentimentos profundos de perplexidade, confusão e desestabilidade. O escritor, sendo aqui fiel ao seu próprio estilo, aquilo que se denominou por kafkiano, estabelece uma linguagem marcada por uma clareza em cada sentença, contrastando com um sentido global que permanece obscuro e desconcertante. Ao subverter o mito de maneira sagaz, Kafka lança o leitor em um mar revolto de incertezas interpretativas: embora cada parágrafo pareça cristalino, o conjunto da obra oferece uma resistência que nos obriga à releitura constante. É nesse jogo entre a transparência da forma e a opacidade do significado que o autor reafirma sua genialidade, transformando o silêncio em uma arma mais terrível do que o próprio canto das sereias.

Espero que essa simples e breve interpretação possa lhe seduzir e, consequentemente, levar ao encontro com esse texto curto, mas único.

É uma experiência que vale a pena atravessar. Experimente.

O Silêncio das Sereias (Áustria, 1917)
Autor: Franz Kafka
Editora: Editora EDUERJ
Tradução: Luiz Costa Lima
Páginas: 02

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