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Crítica | O Sol Tornará a Brilhar

por César Barzine
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Em meio a crise comercial de Hollywood que se concretizou nos anos 1950 e 1960 – ocasionada pela perda de poder dos estúdios, expansão da TV no lar americano e mudanças ideológicas e sociais nos EUA -, foi-se necessário uma certa reformulação estética que atraísse um público que se encontrava renovado. Mas engana-se quem pensa que somente com o lançamento de Bonnie & Clyde – e a consequente chegada da Nova Hollywood – que os filmes tiveram esse salto adiante. Antes mesmo de surgir essa nova leva de trabalhos, Hollywood já demonstrava um certo amadurecimento no final da década de 1950 e início de 1960. Obras como Um Rosto na Multidão, Marty, Antes da Corrupção, Juventude Transviada, A Embriaguez do Sucesso e A Marca da Maldade denotam precocemente um estilo moderno com uma execução mais obscura e cínica.

E é neste espectro que se insere O Sol Tornará a Brilhar. Porém, de um modo contraditório, pois ao mesmo tempo em que o filme toma partida desse cinema moderno, há também a presença de uma intensa camada de moralismo explícito no centro da obra. O filme de Daniel Petrie é uma história sobre a busca pela manutenção de valores de uma família. Valores conservadores e cristãos que compõem a filosofia da matriarca daquela casa e, mesmo que a obra, em certos momentos, venha a questionar o conformismo e o aspecto reacionário dessa conduta, o filme, na maior parte do tempo, louva esses conceitos, romantizando eles e enfatizando a sabedoria que habita em tais ideias. Apesar disso, em nenhum momento a produção cai no piegas ou no caricato; assim como A Palavra concilia perfeitamente a força da religião com a densidade do drama familiar, O Sol Tornará a Brilhar faz o mesmo em defesa de seu pensamento.

A preservação dessa força se deve a toda a crueldade em que a situação daquela família estimula e é submetida, isso partindo de uma problemática bastante expressiva para os EUA naquela época: o racismo. É essa temática que faz com que o longa seja moderno e tenha todas as características citadas acima. Porém, o mero uso da segregação e discriminação racial como elemento narrativo não é usado de maneira simplista e nem com um desenvolvimento previsível. Os diversos caminhos que o roteiro toma estão sempre distantes do lugar-comum. A prova disso é o fato de que a forma com que muitas pautas são levantadas (identidade negra e ascensão social)  causam a sensação de serem, pode-se dizer, vanguardistas para a época de lançamento do filme.

Walter, a principal figura masculina da família, não está preocupado com problemas típicos de um negro, seu personagem possui uma visão empreendedora: ele é um homem engajado no potencial de crescer e se integrar numa classe elevada. A militância exercida por ele não é coletiva, mas individual; não é com a finalidade de deixar de sofrer preconceito ou agressões físicas, mas por ter um pouco de luxo da mesma maneira que os brancos. Walter é resultado do progresso cívico da classe negra, pois ele, ao contrário de sua mãe acomodada, aspira ampliar a posição social do homem afro-americano. “Antes nós lutávamos apenas para não sermos linchados“, confronta a sua mãe por achar que ele está sendo muito ambicioso. Diante desse contraste, o roteiro expõe duas divisões do povo negro: uns alheios ao desejo materialista e outros querendo progredir na sociedade do consumo, demonstrando que este povo pode ir além de seus direitos básicos.

Adaptado do teatro pela própria autora original da peça, Lorraine Hansberry, O Sol Tornará a Brilhar deixa claro a sua natureza cênica desde o início desta versão cinematográfica. A geografia do filme é toda concentrada numa quantidade reduzida de espaço, sendo a casa da família Young o cenário de quase toda a produção. O espaço assume um papel especial ao ser além de um simples acessório; ele é a marca registrada daquela família, uma peça-chave no desenrolar enfático e, ao mesmo tempo, minucioso dos acontecimentos. O ponto máximo disso se encontra nos momentos em que a esposa de Walter, Ruth, se exalta – num misto de felicidade e amargura – ao saber que irá se mudar daquela casa vista por ela com maus olhos. Indo além dos instantes eufóricos, o simples movimento constante dos personagens pelos cômodos já extrai um certo valor daquele ambiente. O compartilhamento de vários personagens do mesmo território em diálogo com as diversas situações presentes forma um agrupamento bastante convidativo ao drama familiar. Algo inclinado a um minimalismo que concilia momentos banais com passagens eletrizantes e de alta tensão. 

E como a matéria-prima do filme é uma peça teatral, a decupagem fica responsável pelo papel de estilizar o roteiro a fim de deixá-lo moderno em meio a esse minimalismo. A versatilidade dos personagens e suas variadas ações são carregadas por planos longos e fluidos em enquadramentos abertos, muitas vezes com mais de um personagem no quadro e em profundidade de foco. Após uma briga familiar, o espectador pode contemplar um plano soberbo em que, num olhar horizontal com a câmera focada, cada um dos três personagens, um atrás do outro, parece ter algo diferente a dizer apenas pelo fato de estarem ali, enquadrados daquela forma. Um simples plano conjunto que conta três histórias diferentes sobre três almas desoladas.

Sendo Lena a chefe de família, a quem busca prover a harmonia entre todos os moradores daquela casa, conflitos surgem na medida em que cada um de seus integrantes demonstra uma faceta secundária além da ordem moral imposta por ela. Ruth, grávida, quer fazer um aborto; Walter está teimosamente imerso em projetos para enriquecer; e Beneatha cria um embate religioso e cultural com a sua mãe. Neste último caso, além de um intenso momento em que a garota escancara sua falta de fé em uma cena inquietante e agressiva, há diversas passagens voltadas para um teor cômico em que se discute a questão da identidade afro-americana e suas relações interterritoriais.

Lena, munida pela tradição ocidental, não se identifica de forma nenhuma com suas raízes, não havendo nem sequer o reconhecimento histórico de tais origens. Pelo contrário, ela parte para uma negação extrema, demonstrando desprezo pelos aspectos estrangeiros que são importados por Beneatha. O resultado desse multiculturalismo também é apresentado (como foi citado há pouco) através do humor, em especial na cena em que Beneatha e Walter dançam loucamente uma canção folclórica. Este, talvez, o momento mais desorientado e deslocado do longa – o que não é um defeito -, onde o resgate de uma cultura apagada se junta com a necessidade gritante de exteriorizar alguns impulsos que estão além da razão.

O Sol Tornará a Brilhar é dominado por um caloroso uso de overacting, sendo a dança recém apontada um dos principais deles. Mas este caso trata-se de uma parte isolada dentro da unidade do filme, pois nas demais vezes o overacting é aplicado em situações dramáticas essenciais na trama. E claro, com tantas passagens desse tipo, há a necessidade de atuações no mínimo muito boas. O mosaico de intrigas articulado pelo roteiro fornece amplo espaço para a encenação exacerbada do elenco. Em longas falas, os atores transfiguram seus incômodos e desejos distorcidos, colocando em embate a amargura de cada um deles. Mas é, sem dúvidas, Sidney Poitier o grande destaque do elenco. Com uma presença demoníaca, ele grita, chora, ri, dança e vive numa variedade e profundidade difíceis de serem alcançadas. Aliás, não é apenas ele que possui uma atuação heterogênea, mas todos os componentes adultos da família Young, dado a oscilação que há neles entre um clima de lirismo e um de tremor.   

Esse lirismo e tremor naturalmente levam ao melodrama, subgênero que pouco tem de moderno. Mas O Sol Tornará a Brilhar consegue arrancar um vigor deste estilo graças ao seu realismo que o distancia da estética inocente da Era de Ouro de Hollywood. Sem dúvidas é um filme romântico devido à defesa de valores e sentimentos familiares. Mas, assim como nas obras de Douglas Sirk, é escancarado o quão degradante é a sociedade americana – vide Tudo Que O Céu Permite e Imitação da Vida -, Petrie também faz do núcleo conservador uma metamorfose de questionamentos. Os dois diretores trabalham com um romantismo que é trágico e socialmente consciente em conjunto, mas Sirk ainda assim está preso à aparência clássica de Hollywood. Já Daniel Petrie se encontra um passo a frente nesse aspecto pela estética amarga e o fato de ter uma veia marginal por completa: aqui, todos do núcleo principal são negros desafortunados, inexistindo contraste com privilegiados. As observações críticas do roteiro se alteram constantemente, tocando em pontos que um cinema mais limitado jamais tocaria.

De qualquer forma, antes de ser um trabalho sobre raça e classe, O Sol Tornará a Brilhar é um filme sobre família. Não é à toa que ele está rodeado de passagens doces de encher o coração. E do mesmo modo que existem diferenças gritantes nesta família, ódio na sociedade em que vivem e mais o olhar brutal que acompanha este universo de cinco pessoas, há também o frescor do amor compartilhado, que se constrói em cima de qualquer transtorno e em meio ao próprio cinema.

O Sol Tornará a Brilhar (A Raisin in the Sun) – EUA, 1961
Direção: Daniel Petrie
Roteiro: Lorraine Hansberry (peça e adaptação)
Elenco: Sidney Poitier, Claudia McNeil, Ruby Dee, Diana Sands, Ivan Dixon, John Fiedlerm, Roy Glenn
Duração: 128 minutos.

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