Crítica | O Solar Das Almas Perdidas

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Os filmes de casas mal assombradas estão presentes desde o início do terror como um gênero no cinema. Obras como A Casa Sinistra (1933); A Queda da Casa Dos Usher (1928); O Gato e o Canário (1927) exploravam a iconografia existente em torno de casas suntuosas, mas decrépitas, que sempre carregavam consigo um passado trágico. Mas é curioso observar que a maior parte dos fantasmas que assombravam essas residências malditas eram muito mais metafóricos do que literais, e mesmo as tramas que sugeriam uma presença fantasmagórica, acabavam revelando tais presenças como engodos criados por seres humanos mal-intencionados. Mas em 1944, surgiu um longa metragem pertencente a este subgênero que se utilizou do elemento sobrenatural como algo genuíno dentro da narrativa, influenciando uma série de filmes que se seguiram. Trata-se de O Solar das Almas Perdidas, dirigido por Lewis Allen.

A trama, baseada no romance de Dorothy Macardle, acompanha os irmãos Roderick e Pamela Fitzgerald (Ray Milland e Ruth Hussey), que durante uma viagem ao litoral inglês, encontram um velho solar abandonado e se encantam pelo imóvel. Cansados da vida de Londres, os dois irmãos compram o solar do Comandante Beech (Donald Crisp), ainda que estranhem o fato da residência ter sido vendida muito abaixo do valor. Ao mesmo tempo em que Roderick começa a se envolver com Stella Meredith (Gail Russell), a bela neta do Comandante Beech que tem uma estranha atração pelo solar, os dois irmãos passam a testemunhar uma série de incidentes estranhos em sua nova morada, sugerindo que os rumores de que o lugar é assombrado podem ser verdadeiros.

O Solar das Almas Perdidas se apresenta como um bom melodrama gótico que abraça com vontade os clichês do gênero (até porque provavelmente criou alguns), mas sem com isso tornar a narrativa enfadonha. O diretor Lewis Allen constrói a atmosfera de terror do filme de forma competente, ao apostar mais naquilo do que não é visto. Elementos como o gato de estimação dos Fitzgerald se recusando a subir as escadas, o frio que os personagens sentem ao entrar em determinado cômodo ou o triste choro que acorda o casal de irmãos, demonstram uma sutileza muito acertada do diretor em construir a tensão da obra. De fato, mesmo as passagens onde Allen opta por recursos mais diretamente visuais acabam funcionando, ainda que não tenham a metade do impacto da atmosfera mais sutil adotada na maior parte da película.

O roteiro, escrito por Dodie Smith e Frank Partos, navega com desenvoltura entre momentos de leveza cômica e passagens mais tensas, conseguindo manter uma identidade coesa. O texto também apresenta de forma direta e sem didatismo a ideia de que existem espíritos de luz e espíritos sombrios, um conceito bastante comum hoje em dia, mas que era estranho ao cinema hollywoodiano da década de 1940. Vale ainda destacar como o longa metragem trata a memória como uma assombração tão poderosa quanto qualquer espírito. A obra, inclusive, não tem vergonha nenhuma de assumir a sua inspiração no clássico de Alfred Hitchcock Rebecca: A Mulher Inesquecível, o que é percebido especialmente através da personagem da Srta. Holloway (Cornelia Ottis Skinner), que deve muito a Sra. Danvers de Judith Anderson no filme de Hitchcock.

Ray Milland lidera o elenco com o seu carisma habitual, concedendo a Roderick uma humanidade que provavelmente não existiria nas mãos de um ator menos talentoso. Ruth Hussey tem uma ótima química com Milland, o que rende uma gostosa naturalidade nas trocas e brincadeiras entre os irmãos Fitzgerald. Já Gail Russell, em sua estréia no cinema, carrega o peso dramático do filme, vivendo Stella como uma jovem imatura que se vê de igual maneira atraída e aterrorizada pelas forças sobrenaturais que cercam o solar, e assombrada pela memória idealizada de sua mãe.

Nos quesitos técnicos, é importante destacar o trabalho de fotografia e design de produção, que conseguem fazer do solar do título ora um local convidativo, ora um local ameaçador, de acordo com o que é pedido pela história, o que também tem coerência com um dos temas da película. Por fim, vale destacar a trilha sonora de Victor Young, que rendeu o melancólico tema Stella By Starlight, que poucos anos depois, ganhou uma letra, resultando em uma canção gravada por nomes como Frank Sinatra, Ray Charles e Ella Fitzgerald.

Apesar da reviravolta do 3º ato poder ser um pouco previsível para o publico atual, O Solar das Almas Perdidas é um filme que merece ser mais conhecido. A obra entrega uma atmosfera elegante e evocativa, construindo o seu terror através de sutilezas. Mesmo não tendo a fama de outros clássicos, o longa metragem de Lewis Allen pode facilmente ser apontado como um dos mais influentes filmes de casa assombrada de Hollywood, ao incluir fantasmas mais literais na fórmula do subgênero.

O Solar Das Almas Perdidas (The Uninvited)- Estados Unidos, 1944
Direção: Lewis Allen
Roteiro: Dodie Smith, Frank Partos (Baseado em Romance de Dorothy Macardle)
Elenco: Ray Milland, Ruth Hussey, Gail Russell, Donald Crisp, Cornelia Otis Skinner, Dorothy Stickney, Barbara Everest, Alan Napier, Holmes Herbert
Duração: 99 min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.