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Crítica | O Solar Das Almas Perdidas

por Rafael Lima
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Os filmes de casas mal assombradas estão presentes desde o início do terror como um gênero no cinema. Obras como A Casa Sinistra (1933); A Queda da Casa Dos Usher (1928); O Gato e o Canário (1927) exploravam a iconografia existente em torno de casas suntuosas, mas decrépitas, que sempre carregavam consigo um passado trágico. Mas é curioso observar que a maior parte dos fantasmas que assombravam essas residências malditas eram muito mais metafóricos do que literais, e mesmo as tramas que sugeriam uma presença fantasmagórica, acabavam revelando tais presenças como engodos criados por seres humanos mal-intencionados. Mas em 1944, surgiu um longa metragem pertencente a este subgênero que se utilizou do elemento sobrenatural como algo genuíno dentro da narrativa, influenciando uma série de filmes que se seguiram. Trata-se de O Solar das Almas Perdidas, dirigido por Lewis Allen.

A trama, baseada no romance de Dorothy Macardle, acompanha os irmãos Roderick e Pamela Fitzgerald (Ray Milland e Ruth Hussey), que durante uma viagem ao litoral inglês, encontram um velho solar abandonado e se encantam pelo imóvel. Cansados da vida de Londres, os dois irmãos compram o solar do Comandante Beech (Donald Crisp), ainda que estranhem o fato da residência ter sido vendida muito abaixo do valor. Ao mesmo tempo em que Roderick começa a se envolver com Stella Meredith (Gail Russell), a bela neta do Comandante Beech que tem uma estranha atração pelo solar, os dois irmãos passam a testemunhar uma série de incidentes estranhos em sua nova morada, sugerindo que os rumores de que o lugar é assombrado podem ser verdadeiros.

O Solar das Almas Perdidas se apresenta como um bom melodrama gótico que abraça com vontade os clichês do gênero (até porque provavelmente criou alguns), mas sem com isso tornar a narrativa enfadonha. O diretor Lewis Allen constrói a atmosfera de terror do filme de forma competente, ao apostar mais naquilo do que não é visto. Elementos como o gato de estimação dos Fitzgerald se recusando a subir as escadas, o frio que os personagens sentem ao entrar em determinado cômodo ou o triste choro que acorda o casal de irmãos, demonstram uma sutileza muito acertada do diretor em construir a tensão da obra. De fato, mesmo as passagens onde Allen opta por recursos mais diretamente visuais acabam funcionando, ainda que não tenham a metade do impacto da atmosfera mais sutil adotada na maior parte da película.

O roteiro, escrito por Dodie Smith e Frank Partos, navega com desenvoltura entre momentos de leveza cômica e passagens mais tensas, conseguindo manter uma identidade coesa. O texto também apresenta de forma direta e sem didatismo a ideia de que existem espíritos de luz e espíritos sombrios, um conceito bastante comum hoje em dia, mas que era estranho ao cinema hollywoodiano da década de 1940. Vale ainda destacar como o longa metragem trata a memória como uma assombração tão poderosa quanto qualquer espírito. A obra, inclusive, não tem vergonha nenhuma de assumir a sua inspiração no clássico de Alfred Hitchcock Rebecca: A Mulher Inesquecível, o que é percebido especialmente através da personagem da Srta. Holloway (Cornelia Ottis Skinner), que deve muito a Sra. Danvers de Judith Anderson no filme de Hitchcock.

Ray Milland lidera o elenco com o seu carisma habitual, concedendo a Roderick uma humanidade que provavelmente não existiria nas mãos de um ator menos talentoso. Ruth Hussey tem uma ótima química com Milland, o que rende uma gostosa naturalidade nas trocas e brincadeiras entre os irmãos Fitzgerald. Já Gail Russell, em sua estréia no cinema, carrega o peso dramático do filme, vivendo Stella como uma jovem imatura que se vê de igual maneira atraída e aterrorizada pelas forças sobrenaturais que cercam o solar, e assombrada pela memória idealizada de sua mãe.

Nos quesitos técnicos, é importante destacar o trabalho de fotografia e design de produção, que conseguem fazer do solar do título ora um local convidativo, ora um local ameaçador, de acordo com o que é pedido pela história, o que também tem coerência com um dos temas da película. Por fim, vale destacar a trilha sonora de Victor Young, que rendeu o melancólico tema Stella By Starlight, que poucos anos depois, ganhou uma letra, resultando em uma canção gravada por nomes como Frank Sinatra, Ray Charles e Ella Fitzgerald.

Apesar da reviravolta do 3º ato poder ser um pouco previsível para o publico atual, O Solar das Almas Perdidas é um filme que merece ser mais conhecido. A obra entrega uma atmosfera elegante e evocativa, construindo o seu terror através de sutilezas. Mesmo não tendo a fama de outros clássicos, o longa metragem de Lewis Allen pode facilmente ser apontado como um dos mais influentes filmes de casa assombrada de Hollywood, ao incluir fantasmas mais literais na fórmula do subgênero.

O Solar Das Almas Perdidas (The Uninvited)- Estados Unidos, 1944
Direção: Lewis Allen
Roteiro: Dodie Smith, Frank Partos (Baseado em Romance de Dorothy Macardle)
Elenco: Ray Milland, Ruth Hussey, Gail Russell, Donald Crisp, Cornelia Otis Skinner, Dorothy Stickney, Barbara Everest, Alan Napier, Holmes Herbert
Duração: 99 min.

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