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Crítica | O Som do Silêncio

por Kevin Rick
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A falta de resignação diante do infortúnio é uma característica humana extremamente comum. Às vezes adversidades golpeiam com tal imposição que planos, sonhos, rotinas, toda a estrutura emocional e psicológica do indivíduo em questão é quebrada como a facilidade e velocidade de um copo de vidro jogado ao chão.  Pessoas imaturas muitas vezes encontram-se aumentando o sofrimento perante a tragédia, pois sua rispidez dificulta o processo de aceitação da nova realidade. É dentro desse contexto de aquiescência com os fatos cruelmente impostos pela vida que O Som do Silêncio baseia sua narrativa, acompanhando o baterista Ruben (Riz Ahmed) em sua aflita jornada para concordância de sua nova angustiante existência.

O músico vive com sua namorada Lou (Olivia Cooke) em um trailer abastado de feridas distantes, heavy metal e muito, muito amor. O casal está em uma turnê quando a desgraça que acometeria Ruben começa a atacar o cotidiano romântico do dois. O baterista está perdendo sua audição, e não fica claro se é uma situação que vinha lentamente crescendo, mas a perda auditiva alcança seu limite repentinamente. Sua reação, assim como de qualquer pessoa, especialmente alguém que vive da música, é desespero completo. Ele está derrotado, exausto, frustrado para dizer ou fazer – ou, ele teme, ser – muito de qualquer coisa.  A narrativa expõe o senso de propósito de Ruben sendo estraçalhado, e seu caminho, novamente, pois é um antigo viciado, para a reabilitação. No entanto, não é apenas a sustentação da desintoxicação, mas o entendimento de sua deficiência, e como fazer pazes com ela.

O primeiro ato desorientador do filme se desenrola como a história de um músico comprometido com o tributo físico de sua arte até o ponto da ignorância intencional. A negação é a primeira resposta ao infortúnio, mas a insistência de Ruben é o elemento narrativo que compõe o belíssimo estudo de auto decepção da trama. Lou não aceita a recusa e auto destruição do namorado, decidindo levá-lo a uma clínica reabilitadora de dependentes químicos surdos. O diretor Darius Marder nos dá fragmentos da condição derrocada de Ruben enquanto o casal discute a situação, fazendo malabarismos com ligações unilaterais para seu gerente, discussões calorosas permeadas pelo angustiante silêncio parcial, momentos de ternura sobrepostos pelo mutismo, sentimentos fervorosos enclausurados na falsa quietude, esmorecendo ainda mais o baterista.

Na verdade, é preciso enaltecer o uso de áudio no filme. Ao invés de subjugar-se a contar uma simples história de perda, o cineasta Marder cria uma experiência cinemática sensorial. Desde a explosão estridente de música metal na cena inicial, até as oscilações que iniciam a deterioração auditiva e psicológica de Ruben, atingindo seu ápice no início do segundo ato, ao separar-se de Lou, o diretor usa o som em paralelo com a situação mental do músico. Isto fica evidenciado em toda a segunda parte da narrativa, dentro da clínica de reabilitação, no qual Marder usa o áudio para aprofundar o espectador na caminhada de descobrimento de Ruben. Vemos o contraposto do silêncio com os sons emitidos pela comunidade surda quando utiliza linguagens de sinais, as batidas em um escorregador do parquinho, os exercícios de aprendizado que dão nova voz aos deficientes auditivos, dando vida à localização de um novo mundo para Ruben. Aliás, a ideia do local, assim como do roteiro, é transpor como a deficiência não pode definir a existência, e como abraçá-la é o primeiro passo à paz. À medida que Ruben inicia sua jornada de aceitação, percebe-se como o silêncio deixa as sombras depressivas, adentrando numa quietude contemplativa, brilhantemente transferida ao público pelo som, e pela falta dele.

Entretanto, a trajetória serena de Ruben tem data de validade. Seu progresso é arruinado por uma série de tentativas de retornar ao passado. A trama deixa escapar pequenos detalhes que apontam para o complexo conflito interno de Ruben enquanto ele luta para definir suas prioridades. Seu início próspero para aceitação é descontruído pela inquietação estoica de voltar a ter o sentimento de propósito. Após uma cirurgia de implantes auditivos, Ruben inicia sua marcha de recuperação, que, infelizmente, é inalcançável. Deste momento em diante, novamente usando o áudio como forma de exposição emocional e mental de Ruben, com o retorno da audição composta por ruídos destoantes e bagunçados, Marder exibe a cruel realidade para Ruben, e para nós. Ele nunca vai voltar ao normal, e não apenas sua capacidade de ouvir e sua arte, mas seu relacionamento, tanto com Joe, o líder da casa de reabilitação, quanto com Lou, foram quebrados. Esta não é uma história somente sobre perda, mas da dissociação com uma vida que não é mais sustentável.

O Som do Silêncio é uma injeção de circunstâncias viscerais e tensas com notável sensibilidade, uma devastadora experiência cinemática de aceitação das trágicas adversidades que acometem a vida humana. Não é um filme com sua típica história de superação, afinal, Ruben termina o filme falido, surdo e sozinho. No entanto, ele finalmente decide sentar, em silêncio, não apenas físico, mas completo silêncio, para, finalmente, aceitar e contemplar a vida em toda sua beleza e tristeza.

O Som do Silêncio (Sound of Metal) — EUA, Bélgica, 04 de Dezembro de 2020
Direção: Darius Marder
Roteiro: Darius Marder, Derek Cianfrance, Abraham Marder
Elenco:  Riz Ahmed, Olivia Cooke, Paul Raci, Mathieu Amalric, Lauren Ridloff, Jamie Ghazarian, Chris Perfetti, William Xifaras, Hillary Baack, Chelsea Lee
Duração: 120 min.

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