Crítica | O Sonho (1963)

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Indra é o deus Védico das tempestades, o rei dos céus. Este posto, segundo a crença hindu, é volátil, podendo haver um candidato ao “cargo de rei dos céus” toda vez que alguém completar mil Sacrifícios de Ashwamedha, algo que deixa o rei atual em vigilância e tensão, sempre tentando impedir que alguém consiga completar a tarefa. Na peça O Sonho (1901), do dramaturgo sueco August Strindberg, Indra tem uma filha chamada Agnes, que desce à Terra para presenciar os muitos sofrimentos pelos quais os seres humanos passam. Nessa jornada, Agnes (aqui interpretada pela sempre excelente Ingrid Thulin), encontra-se com 40 personagens, alguns deles representando versões críticas do autor para ocupações como teologia, filosofia, medicina e direito.

No mesmo ano em que foram lanços Luz de Inverno e O Silêncio, Bergman produziu para a televisão uma adaptação dessa peça de Strindberg, a primeira de três versões que ele dirigiria ao longo da vida. E que adaptação! Sabendo lidar muito bem com o caráter dual de expressionismo e surrealismo contidos no original, o diretor criou um interessante híbrido de forma e conteúdo sem tornar a história cansativa para o espectador. Como não se trata de uma peça pequena e nem de uma peça simples, era necessário uma mão experiente para colocar na TV tantas mudanças de cenários, tantos tipos diferentes de personagens, modelos de apresentar ideias, de usar a música, a fotografia e de discutir questões humanas sob o ponto de vista da filha de um Deus.

Mas há aqui também o fator da maturidade. O Sonho é tecnicamente muito superior a outras obras televisivas de Bergman, como A Chegada do Sr. Sleeman (1957) e principalmente A Mulher Veneziana (1958), até aqui, a sua pior obra, superando o maldito e rejeitado pelo próprio diretor Isto Não Aconteceria Aqui (1950). Talvez por ter um maior domínio das ferramentas de produção ou maior afinidade com o formato para tela pequena, ele criou neste telefilme uma história extremamente cativante e fluída de sonhos dentro de sonhos, tudo isso sem complicações desnecessárias. Apenas o começo do filme sofre um pouco com o peso do tema, confundindo o público. A apresentação, primeiras ações e encontros de Agnes não possuem a mesma delicadeza que as passagens após a chegada do homem que espera sua amada no teatro (“Victoriaaaaaaaa!“) — uma amada que nunca vem. Esse personagem de alguma forma encarna os tormentos do escritor, que estava em um terrível estágio emocional e psicológico quando escreveu a peça, situação na qual se viu após ser abandonado pela esposa.

Depois deste ponto, porém, o espectador entende a ideia de Bergman e o sentido da peça. Todo o texto trata o mundo onírico como uma realidade possível e não existe nada fora dele. O final da peça é, inclusive, o despertar, o momento onde talvez todas aquelas facetas embrulhadas em fotografia inteligente (temos 6 diretores de fotografia aqui!) e encontro com verdades bastante incômodas podem novamente acontecer. Coisas como pobreza, crueldade, exploração humana através do trabalho, rejeição, desamor, os muitos tipos de contendas familiares, o exercício viciado da lei e todas as complicações desnecessárias e pomposas da religião… Tudo isso pode ser encontrado no mundo da vigília, mas não é este mundo que interessa ao autor e nem ao diretor. No sonho, os encontros são acompanhados de um olhar que se importa, que se emociona e que não tem medo de falar o que algumas pessoas em posições dominadoras merecem ouvir nesses espaços sociais.

Em O Sonho Bergman conseguiu o tom correto para trabalhar diferentes tormentos gerais e perturbações íntimas em um ambiente que pode ser o de todo mundo; a vida ou a impressão que temos dela. Sua direção de atores, sua forma de dar atenção aos rostos e de capturar emoções através da câmera adiciona um tom de urgência às tribulações às vezes tão comuns em nosso mundo. Este é o poder de um bom drama e de uma boa adaptação. A capacidade que o artista tem de transformar o trivial em algo extraordinário e de fazer com que o público olhe como se deve olhar para problemas sérios que, por serem tão banais, pararam de ter a importância que tinham quando foram descobertos, observados pela primeira vez. Adota-se o ponto de vista de Agnes, daquela que experimenta a tristeza e a miséria concluindo que nós, humanos, somos sim dinos de piedade. E muito fortes.

O Sonho é o resultado final de um aprendizado obtido no cinema (cenário muito presente na primeira fase da carreira de Bergman) e uma preparação, através de outro formato e com outras técnicas, para o que viria em seus filmes seguintes. Além de uma ótima transposição de Strindberg para as telas, esta obra foi um laboratório exemplar para o cineasta. Uma cartilha de criar sonhos que lhe serviria e que ele aprimoraria muitíssimo no futuro.

O Sonho (Ett drömspel) — Suécia, 1963
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: August Strindberg
Elenco: Ingrid Thulin, Uno Henning, Allan Edwall, Olof Widgren, John Elfström, Maude Adelson, Ragnar Arvedson, Einar Axelsson, Julie Bernby, Carl Billquist, Ingrid Borthen, Helena Brodin, Märta Dorff, Elsa Ebbesen, Signe Enwall
Duração: 113 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.