Crítica | O Sonho de um Homem Ridículo (1992)

estrelas 5

Escrito por Dostoiévski em 1877, O Sonho de Um Homem Ridículo é uma narrativa fantástica, sombria e pessimista sobre a humanidade e sua perdição. O conto surgiu num contexto bélico (a Guerra Russo-Turca), e exprime todo o sentimento de pesar de um cidadão sobre o mundo massacrante em que vive. A história é levemente alinear e transita entre o sonho, a realidade, e a possibilidade de tudo o que é dito ser pura fantasia do narrador, uma vez que originado na mente de um homem perturbado, vítima de uma doença social — causada pelo convívio que exige demais e abre poucas concessões. O paraíso é corrompido por uma intervenção externa e nada permanece intacto ou invisível aos olhos do mundo, dos homens e de Deus. Devemos lembrar que Dostoiévski já havia sido preso e exilado na Sibéria, além de ter cumprido serviço militar no Cazaquistão, o que lhe dava uma alta dose de pessimismo e visão crítica de como as forças sociais (o governo, especificamente) poderiam interferir na vida de um cidadão e torná-la impossível, a ponto de um homem cogitar o suicídio. É nesse ponto que se centram os questionamentos do Homem Ridículo. E é sob uma falsa felicidade e otimismo que temos a narração da história.

Pode-se afirmar que além de Aleksandr Petrov, pouquíssimos realizadores conseguiriam transmitir o tom de loucura e medo contidos na obra de Dostoiévski. Não se trata apenas de uma adaptação literária. A versão de Petrov é uma animação ao mesmo tempo bela e sombria, e que consegue trazer as nuances literárias, as indicações subjetivas, os murmúrios e desconfianças de um “cidadão comum”, chamado ironicamente de “Homem Ridículo”.

Até que ponto da destruição de si mesma a humanidade conseguiu chegar? É possível que haja um regresso da maldade ou a tendência é que os corações a atitudes humanas tornem-se mais podres e acabem se aniquilando? Através de sua técnica de pintura em vidro e filmagem delicada e paciente, Petrov nos apresenta a passagem entre o mundo “real” e o mundo onírico, seja ele o Paraíso cristão corrompido pelas vontades imediatas de grupos de homens; ou o paraíso terrestre da infância, cuja visão de beleza e paz voltam ao Homem Ridículo como a lembrança mais bela. O diretor opta por trabalhar com diversas fusões de imagem e cortes bruscos de uma dimensão para outra. Pontos expressivos, como os focos de luz, geralmente servem de ligação entre esses dois ambientes.

Os traços formais da animação transitam entre a pintura agressiva, de pinceladas grossas e muita tinta, até a suavidade quase impressionista adotada pelo diretor nos momentos mais doces de seus filmes, como Meu Amor e A Vaca. A edição e mixagem de som trabalham cada ambiente como se ele fossem um pequeno inferno imaginário do personagem principal. Gritos, vozes, risadas macabras e conversas unem-se ao barulho do trem e sons de movimentos diversos. Como linha central narrativa em meio a essa polifonia, temos o monólogo interior do Homem Ridículo, algumas vezes mais para si do que para o espectador; outras vezes tirando sua figura do pensamento e projetando-a na tela de forma dialética, nos incluindo, sem que percebamos, na história contada.

O sonho aparece aqui com o seu caráter essencial: veículo criador de símbolos de natureza complexa, representativa, emotiva e simbólica. Mesmo antes de Freud, Dostoiévski nos apresentava o valor potencial do sonho como captador de motivos do cotidiano para transformá-los em realizações de desejo ou simplificação de preocupações. E o que temos aqui? O homem que tenta se suicidar, mas que “conhece a verdade” quando é interrompido por uma menina que lhe puxa o sobretudo pedindo socorro. Se a salvação não se dá no estado de vigília, o verdadeiro desejo da morte é interrompido pela voz da inocência em sonho. Então, o intento de se matar é transformado em energia para uma viagem pela História da humanidade, pela visão de como a guerra, a morte, a mentira e a corrupção se tornaram pilares da civilização. As semelhanças com o Leviatã de Hobbes é espantosa.

A escolha de Petrov por adaptar o conto não é menos sintomática do que as questões do próprio autor para escrevê-lo. A ironia do diretor está na representação da Rússia como um paraíso comunista e ao mesmo tempo como um possível paraíso capitalista, sendo que o Homem Ridículo povoa os dois mundos e acaba morrendo neles. Independente do sistema político adotado, do tipo de Império no poder ou organização social dando as regras, as perturbações legislativas e a obrigação de socializar-se (acabando por gerar a renúncia de si mesmo) está implícita como inevitável para cada um.

A desesperança e a insanidade põem fim à animação. Sem esperança política, social ou pessoal, o Homem Ridículo parece voltar à realidade, mas não deixa de estar inserido em seu sonho de perfeição do espírito humano e de paz. Talvez esse desejo de que tudo fique bem faça dele um Homem Ridículo. Parece que querer que as coisas fiquem bem é pedir demais, é sinônimo de visão adocicada da História. O curta de Aleksandr Petrov nos mostra bem essa faceta popular do que é o engajamento político ou a identidade pessoal. A ilusão da liberdade, a farsa da democracia, o paradoxo da escolha sugerida, a ilusão do livre arbítrio… está tudo lá, na mente e nas atitudes do homem. Na sociedade. E aquele que se dispuser a fazer algo para propagar uma estrutura muito diferente será taxado de Homem Ridículo e suas ideias não passarão de sonhos desconexos, fantasiosos e sombrios. Mais um delirante que prega utopias no lugar de mudanças?

O Sonho de um Homem Ridículo (Son Smeshnogo Cheloveka) – Rússia, 1992
Direção: Aleksandr Petrov
Roteiro: Fiódor Dostoiévski (conto) e Aleksandr Petrov (adaptação)
Duração: 20min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.