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Crítica | O Sonho do Inútil

O Cinema enquanto agente ressocializador.

por Michel Gutwilen
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O início de O Sonho do Inútil levava a crer que ele se desdobraria como um tipo de filme já muito comum pelos festivais de Cinema, que é o documentário enquanto uma possibilidade de olhar analítico do autor para sua própria história, alternando um fluxo de imagens de arquivo pessoal com o presente. Neste caso específico, parecia que o diretor se aproveitaria do fazer fílmico apenas como uma “desculpa” para reunir os amigos de infância e olhar para o passado despretensiosamente. Porém, existe algo de extremamente potente e político na história de José Marques de Carvalho Jr. e seus amigos que é a ressignificação de suas memórias particulares em uma vivência verdadeiramente universal. Afinal, a história que se vê aqui é uma que não é difícil de ser achada em vários grupos de amigos que vivem na periferia, mas que quase nunca é testemunhada porque ninguém ali tinha uma câmera na mão e teve a oportunidade de registrar o passado. Que José tenha conseguido entrar no ramo do Cinema já é um caso em um milhão e por isso, consciente da sua posição privilegiada, ele usa dela para iluminar o passado e fazer uma mudança no presente, em um movimento do Cinema para o mundo. Aqui, o próprio registro e existência das imagens significa uma força própria.

Em um primeiro momento, o que se vê é um discurso nostálgico do diretor ao revisitar as cenas gravadas por ele ao longo dos anos 2000, envolvendo as várias gags com seus amigos enquanto parte de um grupo de humor (aparentemente uma espécie de Jackass brasileiro que fez muito sucesso, mas confesso só vim conhecer pelo filme). O despojamento marca este arco inicial de O Sonho do Inútil, que nos apresenta as diversas maluquices que o grupo fazia para gerar conteúdo, inclusive se colocando muitas vezes em risco (atear fogo uns nos outros era um leimotif). Ou seja, são moleques fazendo merda como sempre fizeram, só que se aproveitando do boom das imagens digitais para registrarem as suas peripécias na mão. O que há neles é o pensamento que habita na cabeça de todo jovem: o sonho da fama e de ser “alguém”, a irresponsabilidade saudável, o senso de invencibilidade, o bom humor com que se leva à vida, um desafio ao status quo e a vontade de mudança. 

Todos ali acreditavam que seguiriam artistas no futuro. Contudo, a vida nem sempre é o que se planeja, então o presente surge em contraste para mostrar o que aconteceu atualmente com aqueles meninos, que agora viraram adultos. Sem entrar em um tom melancólico ou apelativo, o destino de cada um daqueles humoristas sonhadores vai sendo mostrado. Um virou costureiro, outro barbeiro, outro cozinheiro e um deles ainda resiste no mundo da arte ao tentar emplacar a carreira de rapper. Portanto, José, artista bem sucedido, é a exceção, não a regra. Não se trata aqui de tratar com “desprezo” essas profissões mais “dentro da caixinha”, mas de olhar com honestidade para as próprias reconfigurações da vida, geradas pela necessidade de sobreviver e enxergar que isso mesmo pode ser também uma forma de arte à sua maneira. Em um dos seus momentos finais, quando se vê o rapaz que virou barbeiro emocionado com o post de feliz aniversário dado por sua mulher no Facebook, exaltando como ele era um bom pai e marido é que fica verdadeiramente entendido que esse presente pode ser tão especial quanto o passado também era, apenas de uma maneira diferente.

Neste sentido, há como tema um grande contraste entre a molecagem e o amadurecimento, não só a nível de discurso, mas imagético também. O filme olha com muito carinho para aquelas imagens de arquivo feitas de maneira amadora, com seu pulso extremamente enérgico e sua espontaneidade natural que se mistura com a improvisação. Em contraposição, o próprio olhar maduro de diretor, agora mais adulto, reflete em sua mise-en-scène, que no presente é mais formalista, planejada e “tecnicamente” com uma qualidade melhor. Este contraste entre essas duas mise-en-scène que coabitam o mesmo filme não existe no sentido de que uma é melhor do que a outra, mas de refletir as próprias fases da vida através das mudanças no jeito de enquadrar o mundo pela forma fílmica.

O que se revela nesta primeira (de muitas) camada de O Sonho do Inútil é uma reflexão sobre a condição do artista (e da arte) no Brasil. Esta é uma narrativa que revela a trajetória de um sonho universal no qual muitos ficam pelo caminho. Ao mesmo tempo, viver esta fantasia por um tempo foi o que afastou esses jovens de toda a realidade que acontecia ao redor deles na periferia. Um sonho dos inúteis, mas jamais um sonho inútil. Por isso, o movimento de José Marques é menos de lamentar o que a realidade se tornou e mais de resgatar com carinho para o que o passado era, usando das possibilidades e recursos que ele tem hoje para eternizar este sonho adormecido compartilhado entre amigos, e usar do próprio fazer fílmico para dar luz à todos esses “atores” esquecidos. É, portanto, fazer Cinema como um gesto generoso, mas ao mesmo tempo sem nunca cair em um egoísmo messiânico, pois seu olhar é mais para seus amigos do que para si mesmo. 

Para além disso, existe uma grande informação perto da metade de O Sonho do Inútil que passa a reconfigurar todo o filme e mudar retroativamente tudo que foi visto até aquele momento. A bem da verdade, já existia ali uma certa sensação de que algo ou alguém faltava, alguns planos estranhos (o helicóptero e a notícia “aleatória” no G1) e de que este não era apenas um olhar saudosista. Enquanto todos aqueles protagonistas funcionam dentro de uma lógica dialética entre passado e presente, descobre-se que um deles só tem o passado para ser mostrado. Com a descoberta de que Douglas Santos (“DG”), um dos integrantes do Inútil, se tornou traficante, após a ruptura do grupo, e faleceu em um confronto com a polícia, o tom muda. Deste modo, o contraste verdadeiro deixa de ser entre passado e presente, mas sobre a presença e não-presença. A ausência de Douglas naquelas imagens atuais frustra, revolta, entristece. 

Afinal, Douglas tinha todas as condições do mundo de estar sendo mostrado no presente junto com aqueles meninos. É uma única decisão errada, que certamente não era passível de morte, que separa o seu caminho dos outros. Que Estado e sistema imperdoável com os pobres é esse, onde não se permite uma segunda chance? Decisão, aliás, é talvez um termo impreciso para designar o que aconteceu, pois a narrativa caminha no sentido de colocar esses indivíduos contextualizados em um meio e não de culpabilizá-los individualmente (e ao mesmo tempo sem “passar a mão na cabeça”). Para além de suas imagens do passado e presente dialogando entre si, O Sonho do Inútil inevitavelmente cria uma terceira imagem, paradoxalmente invisível, que é a do presente hipotético de Douglas que não existe. O que ele teria sido? Estaria ele com uma família? Teria conquistado seu sonho ou descoberto outro? 

Por outro lado, passa a existir também uma certa fantasmagoria no passado e o verdadeiro surgimento de um conteúdo humanista nas imagens. O “DG” que se vê nas gravações antigas é um mero jovem, brincalhão, bondoso e que não faz mal para ninguém. Trata-se de um choque que dá um curto circuito em qualquer um que defenda que traficante tem que morrer. As imagens do passado não são mais meramente nostálgicas, mas que confrontam. Não é possível que alguém concorde que aquela pessoa filmada merecia o destino que teve, que sua bondade tenha ido embora e ele se tornou uma figura malvada que não  merecia a chance de se ressocializar. Esse traficante desumano só existe no imaginário popular do “outro”, todos eles são humanos e têm algum passado. 

Se não valeria enquanto prova jurídica em um tribunal, a imagem do Cinema funciona enquanto prova verdadeiramente moral, feita para o espectador, para a memória de Douglas e sua família. Neste sentido, O Sonho do Inútil se afasta da mentira de Chaplin e Buster Keaton que José Marques acreditava, mas se torna discípulo dos Lumière: a imagem do cinema não mente, ela é verdade. Portanto, ela está ali para inocentá-lo, reconquistar a dignidade do filho perdido, mostrar o seu verdadeiro espírito, Ela é uma retificação tardia, pois a última imagem que deve se ter daquele homem não merecia ser sua foto em uma mera manchete de um jornal. Se o Estado mata o traficante, o Cinema (e José) fazem uma verdadeira ressurreição do ser humano Douglas e eternizam sua imagem no Cinema. Em O Sonho do Inútil, a arte aqui é, literalmente, uma forma de sobrevivência. Portanto, jamais inútil.

O Sonho do Inútil (2021) — Brasil
Direção: José Marques de Carvalho Jr.
Roteiro: José Marques de Carvalho Jr.
Elenco: Douglas Santos, Aluã Topeira, Daniel Nascimento, Diego Ald, José Marques de Carvalho Jr.
Duração: 72 mins.

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