Crítica | O Sonho do Soldado

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O cinema de Aleksandr Sokúrov é puro sonho, arte e poesia. Suas obras transitam entre o escrupuloso visual e a captação da identidade russa através de ângulos praticamente impossíveis, em filmes definitivamente transformadores. Dentre os temas recorrentes na filmografia do diretor, encontramos a guerra, o sonho, a morte e as relações familiares — além, claro, da abordagem histórica, mnemônica e cronológica (tendo nesse aspecto uma particular tendência a mostrar a passagem do tempo na tela).

O Sonho do Soldado, documentário em curta-metragem feito especialmente para integrar o terceiro episódio do seu gigantesco Vozes Espirituais, é uma pequena demonstração do “cinema etéreo” realizado por Sokúrov, trazendo não só o uso não-realista da cor, a aplicação estética da música e a manipulação perceptiva da imagem, mas também uma fuga em meio à guerra. Tanto o cenário quanto os temas que se evidenciam no filme demonstram uma completa interação do indivíduo com o espaço bélico. O sonho revela a liberdade, mas não vai longe dos tanques de guerra, da base militar ou dos tiros das metralhadoras. Ao que parece, a guerra dá mais sentido à vida desses soldados do que a paz quase bucólica mostrada na abertura da obra.

No entanto, em meio a esse mundo onírico marcado pela guerra, uma segunda fuga se revela, e talvez insinue a morte, a alma, o sentido artístico e humano do soldado fora do estado de vigília. A aparição de um anjo em um quadro do filme é inquestionavelmente uma representação cifrada do inconsciente, mas seu significado pleno nos escapa. O filme cerca o indivíduo em seu território de guerra, mas não nos dá pistas sobre sua personalidade ou vida fora daquele espaço. O curta se fecha no sonho e plasma o momento em que um combatente é abordado por outra realidade que não a de sobrevivência.

É difícil descrever exatamente a atmosfera e a sensação que a obra causa no espectador. A sensibilidade e a poesia misturam-se às críticas indicações da realidade, nossa percepção do mundo onírico e da guerra são reformuladas e parece que todas as questões existencialistas saltam das nuvens, da última cena, para o nosso pensamento. Ao terminar o curta, pouco se sabe dizer a respeito. O que fica na mente do espectador é o conjunto de imagens-enigma expostas durante os doze minutos de projeção que se acabou ver.

O Sonho do Soldado (Soldatskiy Son, Rússia, 1995)
Direção: Aleksandr Sokúrov
Roteiro: Aleksandr Sokúrov
Elenco: Soldados russos
Duração: 12 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.