Crítica | O Talentoso Ripley

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Homem requintado, exigente, sério, amante da música erudita, empresário bem-sucedido do setor naval e ‘muito bem, obrigado’ de saúde financeira Herbert Greenleaf (James Redhorn) é um integrante da elite nova-iorquina. Com tudo do bom e do melhor que o dinheiro pode proporcionar, seu filho, Dickie Greenleaf (Jude Law), no entanto, não poderia ser mais diferente de seu progenitor. Descompromissado, boêmio, irreverente, apaixonado por jazz e mulherengo, o jovem Greenleaf prefere gozar das benesses proporcionadas por seu pai do outro lado do oceano Atlântico, mais precisamente na Itália, bem longe da cidade que nunca dorme e de compromissos. E é justamente esse descaso com o trabalho e com os negócios da família (além do seu ódio pelo jazz) que irrita profundamente o velho Greenleaf a ponto de contratar Tom Ripley (Matt Damon), nosso jovem protagonista, para ir até o país da bota e convencer Dickie a voltar.

Apesar da trama girar em torno da difícil tarefa de convencimento de Ripley, que torna-se ainda mais complicada quando este acaba se interessando pela boa vida que leva Dickie e viram amigos, a intenção de Anthony Minghella, diretor do longa, é abordar questões muito mais profundas: o indivíduo e o ser social. E como essas abordagens, que não são as únicas, são realizadas é algo digno de grandes elogios. Confesso que fiquei receoso em determinado momento do filme pela maneira que Minghella vai introduzindo personagens e tornando a trama e seus núcleos mais complexa, a possibilidade de a história ficar muito confusa e comprometer o ato final rondava a minha mente em alguns momentos. Felizmente, o diretor conduz tudo com maestria e termina a obra com uma belíssima rima visual que já havia deixado claro o conflito interno de Ripley no começo da projeção (a abordagem de indivíduo e ser social que comentei há pouco).

Essa abordagem, enfim, é o ponto alto da obra. Percebemos isso conforme a história avança, pois fica evidente a existência de dois seres disputando o controle das ações de nosso protagonista (a constante utilização de espelhos para refletir o conflito de Ripley reforça essa afirmação). Inicialmente somos apresentados ao ser social de Ripley: um rapaz que se encaixa no perfil do jovem americano dos anos 1950, época em que se passa o filme, e exímio dominador das capacidades de imitação e improvisação (daí a alcunha de talentoso no título). Esse é quem conversa com Herbert Greenleaf e conquista tanto a confiança do pai quanto posteriormente a do filho. E é essa versão de Ripley que conhecemos e achamos ser a única existente (até o término do primeiro ato).

A outra versão de Ripley, o indivíduo, é quem ele realmente é, sua essência: um jovem inseguro e confuso consigo mesmo por sentir-se atraído sexualmente por outros homens. Inicialmente essas definições que fiz de indivíduo e ser social de Ripley podem aparentar falta de ligação, mas prometo que há sentido. Suas incríveis capacidades antes citadas são resultado desse conflito interno de má resolução sexual que reflete em suas atitudes externas, criando uma máscara, uma fantasia dele mesmo com a qual pode andar por aí sem correr o risco de ser discriminado simplesmente por ser quem é (se hoje em dia a comunidade LGBTQI+ sofre com isso, imaginem em 1950).

E essa confusão de seres, que acaba interferindo na relação de Ripley e Dickie e na missão de levar o jovem milionário de volta à casa, é a forma que o diretor utiliza para trazer ao debate como somos obrigados a nos condicionar a modelos sociais que nem sempre (para não dizer quase nunca) nos sentimos confortáveis. Claro, para o desenrolar da história todo esse incômodo e desconforto levam a atitudes drásticas, mas, mesmo fictícias e radicais, não impossibilita que sejam realizadas no mundo real, tampouco seriam inéditas em nossa sociedade. Discutir e abordar essas questões que afligem tantas pessoas é sempre louvável, pois a arte possui um gigantesco potencial transformador individual e coletivo, e quando isso é feito de maneira magistral pelo realizador só torna tudo ainda mais gostoso.

Como se não bastasse essa maravilhosa ótica sensível de Minghella, o filme consegue ir além; a começar pelas atuações impecáveis de seu pesadíssimo elenco. Matt Damon, Jude Law, Gwyneth Paltrow, Philip Seymour Hoffman e Cate Blanchett estão, particularmente, memoráveis. É difícil escolher quem constrói uma personagem mais interessante e com mais qualidade: o talentoso e conflituoso Ripley de Damon? O boêmio, festeiro e mulherengo Dickie de Law? A compreensiva e apaixonada Marge de Paltrow? O excêntrico e desconfiado Freddie de Hoffman? Ou a astuta e insistente Meredith de Blanchett? Abstenho-me da escolha e deixo a decisão com vocês, amigas e amigos.

Dirigido esplendorosamente por Minghella e ótimo tecnicamente, com destaque para a fotografia de John Seale e suas constantes demonstrações de embate interno do protagonista através dos espelhos e reflexos, O Talentoso Ripley é o tipo de trabalho que faz valer a pena conhecer mais a fundo a sétima arte e tornar-se íntimo dela. Íntimo tal qual a discussão apresentada nesta obra.

O Talentoso Ripley (The Talented Mr. Ripley) — Estados Unidos, 1999
Direção: Anthony Minghella
Roteiro: Patricia Highsmith, Anthony Minghella
Elenco: Matt Damon, Jude Law, Gwyneth Paltrow, Philip Seymour Hoffman, Cate Blanchett, James Redhorn
Duração: 139 minutos

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.