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Crítica | O Talismã, de Peter Straub e Stephen King

por Rafael Lima
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Em 1977, ao visitar a Inglaterra com a sua família, Stephen King conheceu o escritor Peter Straub, de quem era fã. Também sendo um admirador do trabalho de King, os dois escritores passaram a considerar a possibilidade de escreverem um livro em parceria, mas essa união em primeira instância ficou apenas no terreno das ideias. Somente cinco anos depois, quando Straub se mudou para os Estados Unidos, é que os dois autores voltaram a conversar sobre uma colaboração, e assim nasceu o romance O Talismã.

O livro conta a historia de Jack Sawyer, um garoto de doze anos que vive extremamente angustiado, pois a mãe está padecendo de um câncer terminal. Ao conhecer um misterioso zelador de um parque de diversões, Jack descobre sobre a existência de uma dimensão paralela conhecida como Os Territórios, habitada por duplos de pessoas da nossa dimensão. Nesse mundo, existe um poderoso objeto mágico conhecido como o Talismã, algo que Jack imagina ser a chance de curar sua mãe. Tendo a capacidade herdada do pai de viajar entre as dimensões, o menino parte em uma viagem em busca do talismã, mas o inescrupuloso sócio do falecido pai de Jack também conhece a existência dos Territórios, e pretende usar o talismã para os seus próprios fins.

O Talismã configura-se como uma aventura infanto-juvenil de fantasia bastante tradicional (ainda que tenha passagens bastante sombrias). Este é o primeiro romance escrito pelos dois autores a ser produzido em parceria, mas para esse tipo de processo é preciso que os dois autores estejam muito bem afinados com o estilo um do outro para não criar uma prosa esquizofrênica, e infelizmente, nem sempre este livro consegue atingir esse equilíbrio. Uma coisa muito legal nos livros de King é que vemos pessoas normais tendo que lidar com problemas fantásticos e aceitando o fantástico aos poucos. Nem sempre é o que vemos neste livro, onde alguns personagens parecem reagir ao fantástico de maneira mais natural, porém, em outros momentos, não é o que acontece, faltando à obra certa unidade de estilo.

Outro problema é que o livro é desnecessariamente longo. Várias vezes, os autores botam os personagens narrando um fato sem grande importância para o desenvolvimento da narrativa, mas que em alguns casos, serve para dar nuances para estes personagens. O problema, entretanto, surge quando é aberto um flashback para nos narrar este fato, quando ele já havia sido totalmente explicitado antes. Usado mais de uma vez, este artifício acaba soando extremamente redundante e desnecessário, criando uma barriga enorme para a obra.

Com suas mais de setecentas páginas, O Talismã tenta ser uma historia épica, mostrando a jornada de Jack tanto pelos Territórios como pelos Estados Unidos, mas a verdade é que a história não precisava se estender o tanto que se estendeu. Poderia tranquilamente se tirar umas cem páginas do livro que não mudaria muita coisa, já que em alguns momentos King e Straub simplesmente enchem linguiça.

Por outro lado, não se pode negar que os dois autores criam uma mitologia fascinante envolvendo Os Territórios e a relação existente entre essa dimensão mágica e a nossa, criando paralelos bem interessantes entre os perigos fantasiosos que o protagonista enfrenta nos Territórios, com os perigos mais terrenos aos quais é submetido quando está nos Estados Unidos, como pedófilos de estrada e guardas abusivos de reformatório. Jack Sawyer é construído como um protagonista simpático, mesmo que não exatamente profundo. O que impede Jack de se tornar enfadonho, é que diferente de boa parte dos protagonistas de histórias infanto-juvenis que giram em torno da narrativa do escolhido, o garoto é um personagem que comete erros, e não necessariamente é bom em tudo aquilo que se dispõe a fazer. Sua jornada em busca do talismã é também uma jornada de amadurecimento, com seus pontos de virada estabelecidos de forma inteligente por King e Straub. Os coadjuvantes desempenham um papel importante nesse arco de amadurecimento, com especial destaque para Lobo, um garoto lobisomem que se torna grande amigo de Jack em sua jornada pelos Territórios.

Apesar dos pesares, O Talismã não chega a ser um livro ruim. Só que é desnecessariamente longo e irregular. Se existem momentos em que o leitor vai devorar trinta ou quarenta paginas, existem outros em que o leitor vai penar para ler meras dez paginas, de tão monótono que fica. Mais de quinze anos depois, os dois autores voltariam a se reunir para escrever uma sequência para este livro, intitulada A Casa Negra, e conseguindo resultados bem melhores, mas isso já é outra história.

O Talismã (The Talisman) – Estados Unidos. 1983
Autores: Peter Straub, Stephen King.
Editora: Suma de Letras
Tradução: Mario Molina
752 Páginas.

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4 comentários

TitioAvô 23 de agosto de 2019 - 15:40

Eu amei tanto o Talismã quanto Casa Negra, dizem que eles vão fazer um terceiro…

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Rafael Lima 25 de agosto de 2019 - 15:41

Sim, existe um projeto para o fecho da trilogia de Jack Sawyer, mas ninguém ainda sabe quando isso sabe acontecer.

Também gosto dos dois livros, embora sejam bem diferentes um do outro.

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Alessandro 23 de agosto de 2019 - 14:51

Eu vou discordar de você. Apesar de “O Talismã” ter alguns problemas, acho que é um livro superior a sua “continuação” “A Casa Negra”, que também foi uma parceria entre King e Staub. Eu achei esse último bastante descritivo, a ponto de ter que pular várias páginas do livro. Também não gostei da abordagem do horror nesse livro. Achei excessivamente violento, grotesco. Sinceramente não curti “A Casa Negra”, para mim dos piores livros de King – tanto é que não consegui termina-lo. De Staub, eu gosto muito de “Os Morto-Vivos” que parece que vai ganhar uma edição da Darkside, prometida para esse ano. Vamos ver. Abraço.

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Rafael Lima 25 de agosto de 2019 - 16:31

Devo confessar que não conheço praticamente nada da literatura do Straub, excetuando os trabalhos que ele fez com o King.

Então, são dois livros bem diferentes em vários aspectos, inclusive em sua abordagem do terror e da fantasia. De fato, “A Casa Negra” é bastante descritivo, mas sinto o mesmo em “O Talismã”. Pra mim, o que torna a sequência superior é um senso de unidade maior no trabalho dos dois autores, enquanto em “O Talismã” sinto um descompasso de estilo. Mas os seus argumentos pra preferir a primeira aventura de Jack Sawyer são bastante válidos também.

Grande abraço, e obrigado pela leitura e pelo comentário!

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