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Crítica | O Terceiro Olho (1966)

por Luiz Santiago
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Embora haja uma famosa indicação de que este filme foi inspirado no serial killer Gilles de Rais (assassino francês que provavelmente inspirou Perrault a criar Barba Ruiva), isto não é verdade. Trata-se apenas de uma afirmação marqueteira. O roteiro de O Terceiro Olho foi escrito por Mino Guerrini (também diretor do filme) juntamente com Gilles De Reys, Piero Regnoli e Phil Young (pseudônimo do produtor Ermanno Donati), sendo um dos gialli da primeira fase do gênero a verdadeiramente caprichar na violência, mudando os estilos de crime — inclusive com uma cena inspirada em Psicose — e trabalhando o motivo através de uma linha psicológica.

Mino Guerrini enfrentou diversos problemas com a censura italiana à época do lançamento de O Terceiro Olho, que foi classificado como “contrário à moral pública“, tendo sua estreia adiada de fevereiro para junho de 1966. Assistindo ao filme, vemos o que pode ter chocado os censores, e o texto oferece uma boa lista de motivações para quem quer se ofender com uma ficção, sendo a maioria delas centradas no miolo da fita, quando o personagem de Franco Nero começa a enlouquecer e sai matando uma mulher atrás da outra.

O conde Mino Alberti (Nero) mora com sua mãe, uma mulher que não aprova nem um pouco o casamento do filho com Laura (Erika Blanc) e confabula sobre isso com a criada da casa, Marta (Gioia Pascal), que é assumidamente apaixonada pelo belo herdeiro. O clima de inimizade é sentido desde as primeiras cenas do filme e a forma como Nero escolheu construir o seu personagem nos dá a entender que ele causará algum tipo de problema. Seu olhar, sua impaciência, seu aparente ciúmes e a dificuldade de aceitar um “não” o tornam ameaçador, impressão reforçada pelo fato de ser taxidermista (olha aí mais um eco de Norman Bates!) e por isso lidar com a morte de uma maneira confortável até demais.

A relação entre o conde e a condessa é marcada por traços fortemente edípicos, criando um núcleo de problema bastante óbvio e conhecido do público. Mas a outra mulher da casa, a criada Marta, também possui uma relação complexa com os patrões, por ser apaixonada por um e por odiar a outra. Isso faz com que Mino tenha apenas uma fuga em suas relações, e essa fuga é Laura, a noiva. Todos os seus problemas de interação com mulheres transbordam e o fazem enlouquecer no momento em que ele se vê sem duas dessas pessoas ao seu lado. A morte da mãe e da noiva descortina algo adormecido nele, e seu reinado de terror começa, sempre terminando os assassinatos com uma postura verdadeiramente infantil e subserviente, aos pés da empregada. Isso só muda quando ele acredita que sua noiva-fuga realmente “voltou para casa” e que agora ele poderá se casar.

O encaminhamento psicológico que o texto dá para Mino é muito bom. Mesmo com as atuações sendo estragadas pela péssima dublagem — que em muitos momentos fica com o som diegético fora de sincronia, matando parte de cenas bem importantes da fita –, o público aproveita tranquilamente a descida de Mino aos porões de sua mente doentia; até o final enganando-se e tentando encobrir os seus atos. Há certos requintes de crueldade aqui que o diretor apenas sugere com a câmera, aumentando a culpa do protagonista e ao mesmo tempo nos fazendo vê-lo pelos olhos de um homem profundamente doente e perigoso. Um giallo com aqueles esperados problemas de construção dramática (a coesão aqui às vezes ri demasiadamente da nossa cara) mas com um resultado final interessante e apreciável.

O Terceiro Olho (Il terzo occhio) — Itália, 1966
Direção: Mino Guerrini (sob o pseudônimo de James Warren)
Roteiro: Mino Guerrini, Gilles De Reys, Piero Regnoli, Phil Young
Elenco: Franco Nero, Gioia Pascal, Erika Blanc, Olga Solbelli, Marina Morgan, Gara Granda, Richard Hillock
Duração: 98 min.

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