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Crítica | O Testamento de Ann Lee

A hipnotizante Amanda Seyfried e a história dos Shakers.

por Ritter Fan
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Há um efeito perverso no mundo contemporâneo repleto de entretenimento facilmente acessível em que vivemos e que se tornou uma corrida por uma quantidade substancialmente maior e mais diversa de produções: o esquecimento rápido de várias delas e, talvez pior ainda, sequer a lembrança de que elas existem. Tenho para mim que a mais recente vítima desse fenômeno inevitável é O Testamento de Ann Lee, filme dirigido pela atriz e produtora norueguesa Mona Fastvold em nova parceria com Brady Corbet e com Amanda Seyfried no papel da personalidade histórica do título. O filme, que percorreu festivais e foi lançado em circuito limitado nos EUA no apagar das luzes de 2025, passou despercebido pelo público em geral tanto pelo fator mencionado acima, como pela evidente falha em sua divulgação.

E é uma pena ver um filme assim perder-se no turbilhão de obras, pois ele não só conta com facilmente o melhor trabalho de Seyfried nas telonas, como aborda de maneira pouco ortodoxa a vida de Ann Lee que, no século XVIII, na Inglaterra primeiro e, depois, na colônia britânica do outro lado do Atlântico em momento de revolução, fundou a seita cristã derivada dos Quakers que foi primeiro conhecida como Shaking Quakers e, depois, somente Shakers, em razão da peculiar movimentação corporal extática durante os cultos. Trata-se de uma menos conhecida narrativa real sobre algo infelizmente muito comum na História do Mundo: a intolerância e perseguição religiosa que leva Ann Lee e seu pequeno grupo de fervorosos seguidores a atravessar o oceano e a organizar e expandir suas ideias no interior do estado de Nova York, somente para eles encontrarem mais intolerância e perseguição religiosa em uma terra que supostamente tinha – e, dizem, ainda tem – a tolerância religiosa como um de seus alicerces.

Mas o que torna O Testamento de Ann Lee um filme realmente relevante é como o roteiro de Corbet e Fastvold usa os aspectos conhecidos da perseguição religiosa para mirar no coração da história que toca fundo tanto na maioria das religiões organizadas hoje existentes quanto no tecido das sociedades de quase todos os países do mundo, ou seja, a dificuldade de se aceitar irrestrita e verdadeiramente a igualdade de gênero, algo que é base dos Shakers que acreditam que, como o Homem foi feito à semelhança de Deus, então Deus necessariamente é macho e fêmea ao mesmo tempo. Em templos religiosos, mulheres têm espaço e voz limitados e, na vida, elas têm funções específicas de que não podem se desviar. Em outras palavras, elas devem rezar, mas não pregar e devem procriar e cuidar do lar e não procurar independência se assim quiserem. Como o celibato é outra base para os Shakers, afeta-se de imediato a instituição do casamento, com Ann Lee como a voz máxima da seita, a Mãe, como os padres são os Pais, afetando a reserva de mercado masculina dos pregadores das grandes religiões do mundo. É, para todos os efeitos, uma utopia, mas uma utopia pacífica com os membros vivendo vidas simples, sem afetar aqueles que eventualmente não concordem com o que acreditam. No entanto, claro, por repaginar a função da mulher dentro de uma sociedade eminentemente patriarcal e, mais ainda, por ter uma mulher como líder, os Shakers são vistos como ameaças, exatamente como hoje, em pleno 2026, a emancipação das mulheres é vista por muita gente – imaginem o “muita” em caixa alta e em negrito, por favor – como ameaça à ordem, à família, à tradição e aos costumes, seja lá o que esses substantivos realmente signifiquem para aqueles que são frágeis o suficiente para se recusar a aceitar as mulheres como iguais.

Com uma direção de arte belíssima que conta com cenários físicos variados, figurinos cuidadosos e maquiagem delicada, além de uma fotografia de William Rexer, Mona Fastvold ainda tem a coragem de agregar musicalidade à sua obra. Sim, musicalidade. Muitos que forem procurar o gênero do filme encontrarão o termo “musical” usado largamente, mas tenho para mim que esse é um erro interpretativo. Se O Testamento de Ann Lee é musical, então Pecadores também é, e não vemos ninguém classificar o magnífico filme de Ryan Coogler como tal, pois a questão, nos dois casos, é que a música é da essência da narrativa e uma coisa não é separável da outra. Em outras palavras, a música não é uma forma de se contar a história, mas sim parte indissociável dela, com as composições usadas no filme derivando diretamente dos hinos historicamente cantados pelos Shakers e o mesmo acontecendo com as coreografias de exaltação religiosa. Não há manifestação possível dos Shakers sem música e sem essa movimentação vigorosa que pode ser interpretado como dança e o uso que Fastvold faz desses elementos está sempre atrelado ao que ocorre diretamente em tela.

Por outro lado, na mesma proporção que o trabalho de Fastvold acerta nesses aspectos de musicalidade e também nos elementos formais da narrativa, ele se equivoca na forma como usa a narração por todo o longa, narração essa que vem de Mary Partington (Thomasin McKenzie), melhor amiga e mais fiel seguidora de Ann Lee que abre o filme em meio a uma “dança” na floresta já depois da morte da protagonista, estabelecendo o tom de estranheza da película. Ainda que seja importante, para fins de contexto, que os Shakers sejam explicados diante do pouco que comumente se sabe deles, a narração vai muito além e didatiza pensamentos, sentimentos e aspectos que são visualmente explorados, tornando-se um bis in idem que acaba mais incomodando do que ajudando e, com isso, quebrando a imersão e até criando uma distância emocional difícil de afastar. Ironicamente, ao invés de servir de atalho e acelerar a narrativa, a narração, aqui, desacelera o longa e o faz ratear por tanto tempo que o ritmo começa a ficar pesado e lento demais, sem que haja uma decupagem eficiente que distribua melhor o tempo entre Inglaterra e Colônias Unidas (e, depois, EUA) e entre culto e perseguição, com foco excessivo nos primeiros e apenas um mero resvalo nos segundos.

Mesmo cansando um pouco, O Testamento de Ann Lee é um filme valioso tanto pelo resgate histórico dos Shakers – nem que seja como mera curiosidade – quanto pela forma como entrelaça suas críticas muito atuais ao preconceito sofrido por eles há mais de 200 anos. E, claro, a interpretação de Seyfried é hipnotizante do começo ao fim, um dos melhores trabalhos dramáticos de 2025 sem dúvida alguma, mesmo que ninguém sequer tenha levantado as sobrancelhas para ele. Fica a esperança que, com o tempo, o filme seja descoberto e prestigiado, pois ele merece muito mais do que grande parte do que vem sendo derramado indiscriminadamente por aí pela indústria audiovisual.

O Testamento de Ann Lee (The Testament of Ann Lee – Reino Unido/EUA, 2025)
Direção: Mona Fastvold
Roteiro: Brady Corbet, Mona Fastvold
Elenco: Amanda Seyfried, Esmee Hewett, Millie Rose Crossley, Lewis Pullman, Benjamin Bagota, Harry Conway, Thomasin McKenzie, Matthew Beard, Christopher Abbott, Viola Prettejohn, Stacy Martin, Scott Handy, David Cale, Jamie Bogyo, Tim Blake Nelson, Daniel Blumberg, William Van Der Vegt, Maria Sand, Alexis Latham, Shannon Woodward, Matti Boustedt
Duração: 138 min.

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