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Crítica | O Testamento do Dr. Mabuse

por Luiz Santiago
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A cópia que eu tive a oportunidade de assistir desse filme veio com um importante aviso a respeito da duração e restauração da obra, um aviso que achei muito proveitoso para o leitor, e por isso o reproduzi na íntegra a seguir. “O Testamento do Dr. Mabuse estreou em 21 de abril de 1933, em Budapeste. Originalmente com 124 minutos, o filme foi proibido na Alemanha até 24 de agosto de 1951, quando foi exibido pela primeira vez, numa versão mais curta de 111 minutos. O original daquela versão sobreviveu no Instituto do Cinema Alemão, mas estava severamente danificado. Entretanto, uma duplicata de 1951 da coleção do Instituto serviu de base para a restauração. Sempre que possível, cenas até então desaparecidas foram inseridas. Na sua forma atual, o filme tem 121 minutos”.

Não é à toa que esta sequência de Dr. Mabuse, o Jogador (1922) tenha sido banida pelos nazistas na Alemanha. Considerado o filme de encerramento do Expressionismo Alemão e a obra que deu o alerta para a saída de Fritz Lang de seu país, indo exilar-se inicialmente na França, O Testamento do Dr. Mabuse nos traz um enredo que mescla questões psiquiátricas (pelo menos como símbolo) com criminalidade organizada em nível macro e grande influência de um personagem, um gângster-líder, sobre as pessoas por ele comandadas. De imediato, a cobrança de obediência máxima é observada. Os personagens que orbitam Mabuse não possuem alternativas, não podem voltar atrás em sua decisão de servir ao “Império do Crime”.

Uma forte sensação de vigilância é conseguida pelo diretor aqui. A maneira como o filme é editado e a atuação incrível de Karl Meixner (que interpreta Hofmeister) contribuem para a urgência dos eventos já na abertura do longa, fechando o cerco em torno do homem que quer recuperar seu prestígio diante do Inspetor Lohmann (Otto Wernicke, que trabalhou com Fritz Lang em M) e empreende uma investigação que o coloca na mira da gangue chefiada por Mabuse. A impressão que o espectador tem é que não há saída e que o tal Doutor consegue descobrir todos os passos e opiniões dos que os servem, de modo que a única escapatória real de suas garras é a morte. Essa forma cega de servir ordens (especialmente as de caráter violento) já era um assunto discutido e observado na Alemanha, diante das ações de milícias nas ruas que passavam ignoradas pelo sistema judiciário e criavam uma aura de medo permanente na população não-ariana, um medo que só iria aumentar a partir dali.

Esse controle de Mabuse e o tamanho de suas ações fazem uma larga escalada ao longo do filme, apresentando-nos a narrativa através de duas ou mais linhas de ação, criando no público uma sensação fixa de ansiedade e expectativa pelo próximo passo do vilão ou pelo que irá acontecer com este ou aquele personagem. Esse estágio que grande atenção que nos toma é uma réplica daquilo que o diretor imprime em seus personagens, uma percepção que se torna épica na reta final da obra, com o ataque à um indústria química e a “passagem do manto” de um homem horrendo para outro. A grande estilização expressionista dos encontros do Prof. Dr. Baum (Oscar Beregi Sr.) com Mabuse nos guia para uma leitura de “contaminação ideológica”: alguém que passa tanto tempo estudando e investigando o comportamento e os escritos de um gênio do crime que acaba sendo dominado por essas ideias, assumindo o posto de comando quando o criminoso original vem a morrer.

O Testamento do Dr. Mabuse é um alerta para o gigantesco perigo que é o fato de ninguém jamais poder matar uma ideia. Seja ela boa ou ruim, continuará dando frutos e criando seguidores, muitos dispostos a fazer qualquer coisa para trilhar o caminho de um líder, ideólogo ou instituição doutrinária e exterminar aqueles que pensarem em sair das regras impostas pelo Império que criaram. É um filme sobre a passagem de um mal para as mãos de um sucessor, que após ser vencido pelas “forças do bem” daquela conjuntura histórica, é tido como louco e incapaz de responder pelos seus crimes. Até que a admiração em torno de suas ideias e ações cresçam mais uma vez e o ciclo de perpetuação de suas desgraças permaneça vivo.

O Testamento do Dr. Mabuse (Das Testament des Dr. Mabuse) — Alemanha, 1933
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Fritz Lang, Thea von Harbou (baseado nos personagens de Norbert Jacques)
Elenco: Rudolf Klein-Rogge, Thomy Bourdelle, Gustav Diessl, Rudolf Schündler, Jim Gérald, Oskar Höcker, Theo Lingen, Monique Rolland, Maurice Maillot, Camilla Spira, Ginette Gaubert, Paul Henckels, René Ferté, Otto Wernicke, Raymond Cordy
Duração: 122 min.

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