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Crítica | O Tigre Branco

por Iann Jeliel
3591 views (a partir de agosto de 2020)

À primeira vista, O Tigre Branco é um filme bem semelhante ao vencedor do Oscar de 2009, Quem Quer Ser um Milionário?. É sobre uma mesma realidade, mas que busca denunciá-la com direcionamentos diferentes. Enquanto o filme de Danny Boyle era mais lúdico, vendendo a escapatória da miséria e de tradições retrógradas indianas em formato de sonho possível, por conta da americanização – o que tornava sua narrativa romantizada, mas relacionável com o público de premiações –, o longa original Netflix, dirigido por Ramin Bahrani, ironiza a possibilidade desse sonho, curiosamente com o mesmo recurso de começar sua história pelos fins, com o protagonista já com esse sonho “realizado”, dentro da própria Índia.

Ora, se essa grande ironia já de cara não gera uma natural curiosidade para saber o percurso que a levou ser feita. Da mesma forma que Boyle, Ramin busca uma acessibilidade rítmica na sua contagem de história e a consegue através dessa via irônica presente na estrutura retroativa da narrativa, misturada ao recurso bem implementado da quebra da quarta parede. Como é uma história de fins certos, ou seja, uma moral já previamente definida para o seu final, o narrador como participante e protagonista da história se permite contá-la através dessa proximidade assumidamente indutora do seu público ao seu posicionamento com relação ao ambiente em que está colocado. É um filme bem determinista nesse sentido, expositivo até, mas com coerência na proposta porque está sendo contado pelo personagem já com seu ponto de vista definido, após a jornada por qual passou.

Até por isso, o realismo do tratamento do cenário não parece interessado em manipular suas imagens para efeitos dramáticos que poderiam muito bem ser puxados para o melodrama pelos fatos ocorridos na jornada. Veja, a Índia e seu povo são retratados aqui da forma mais crua possível, e quando digo crua não é cruel, mas sem filtros. E o engraçado é que a montagem filtra ao máximo a exploração do ambiente nas imagens para conseguir esse efeito verdadeiro. A estilização da montagem no núcleo central consegue transformar o entorno opressor em uma realidade tão natural como inescapável. Então,, aos poucos, o filme vai começando a destrinchar seu lado específico que nunca esteve no país, mas na temática da luta de classes, de modo amplo. Nesse ponto, o texto não consegue ir muito além por limitações dramáticas mesmo.

Até há um ponto implícito interessante, na passividade dos fatores culturais locais como amarras àqueles povos viverem o mesmo ciclo – a família, a religião. Uma particularidade que poderia ser mais trabalhada pelo diretor a ponto de o público discernir com olhar crítico a exaltação à figura do protagonista e suas tomadas egoístas. Eu consigo enxergar ali a intenção dessa separação, mas falta ao filme assumir um exercício de gênero mais explícito na sua climática para que isso funcione. Um dos pontos mais interessantes do longa são as cenas em que o protagonista, por sua personalidade, disfarça com sorrisos falsos que geram um engasgo extremamente incômodo na impotência da servidão, como também vão gerando o acúmulo de um espírito revanchista. Mas esse espírito não é convertido somente como motivação ou justificativa, também como gancho relativizador das falhas morais do personagem.

Sim, o filme está sendo narrado por ele, mas quem disse que ele mesmo não tem um olhar crítico sobre o que fez? A quarta parede e o caráter irônico do texto estão ali para expor isso, contudo o discurso acaba se deturpando um pouco em algumas escolhas do terceiro ato. Por isso que digo que faltou virar mais um filme de gênero, há uma dificuldade tremenda de fechar as pontas com um efeito catártico eficiente e recompensador do espírito revanchista levantado. O Tigre Branco definitivamente sabe melhor tencionar do que resolver seus conflitos, tanto para a história como para a conclusão da ideia. O final fica com dificuldade em saber para onde ir e decide apelar à repetição de suas várias metáforas verborrágicas mencionadas durante a narrativa (o galinheiro, o tigre) que tinham um efeito irônico eficiente, perdido ou inseguro nesse término de duração. Faltou a sagacidade mais afirmativa de todo o resto, que tem em suas melhores virtudes a falta de sutileza para provocar debate sobre qual destino os oprimidos estão escolhendo para sobreviverem.

O Tigre Branco (The White Tiger | Índia, 2021)
Direção: Ramin Bahrani
Roteiro: Ramin Bahrani, Aravind Adiga
Elenco: Adarsh Gourav, Rajkummar Rao, Priyanka Chopra, Vedant Sinha, Kamlesh Gill, Sandeep Singh, Tilak Raj, Satish Kumar, Harshit Mahawar
Duração: 125 minutos

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