Crítica | O Tigre – Uma História Real de Vingança e Sobrevivência, de John Vaillant

Os felinos são animais deslumbrantes. Promovem um misto de temor e fascinação. As possibilidades de construção de uma narrativa com tigres, por exemplo, é garantia de um passe do leitor para o território do exotismo, de uma representação “mágica” da natureza. Ao passo que as páginas de O Tigre – Uma História de Vingança e Sobrevivência avançam, ficamos cada vez mais abismados com a maneira como os animais desta espécie utilizaram estratégias instintivas para a sobrevivência, tendo em vista a existência de um predador perigoso e mortal, o “homem”, disposto a eliminar essas imponentes criaturas, para fins de comprovação da masculinidade e outras justificativas sem qualquer comprovação científica, numa caminhada de destruição vertiginosa.

Num estilo de escrita e apresentação dos fatos com aproximações ao gigantesco Moby Dick, de Herman Melville, o jornalista e escritor John Vaillant nos apresenta uma publicação que mescla elementos literários, jornalísticos, ecológicos e políticos que torna complicado adequar o livro em questão em padronizações. É um detalhe importante, pois para quem espera uma aventura puramente literária, a decepção é tão vertiginosa quanto a caça aos tigres e sua ameaça de extinção. Digo isso porque ao longo de suas 352 páginas, todos os capítulos começam com uma epígrafe sobre os tigres, extraídas da literatura, da filosofia e dos estudos biológicos, mas a quantidade de representações literárias das situações é muito menor quando comparadas ao denso e extenso processo de descrição de biografias e dados históricos situados na publicação.

John Vaillant inicia a abordagem de uma cena e nos empolgamos com a maneira eficiente de sua narração, peculiar, detalhista, antropomórfica diante dos tigres. E, como alguém que conta uma história no formato oral, com as idas e vindas para conectar dados e estreitar ligações, ele para subitamente uma tradução de um acontecimento da realidade num empolgante formato literário e expõe a história geográfica e biológica do lugar em questão. Comenta a neve, a vegetação, os acontecimentos políticos, expõe fotos, etc. Isso não coloca em descrédito a cuidadosa pesquisa, a abordagem jornalística dos fatos, ao contrário, demonstra que Vaillant é um pesquisador notável. O apontamento aqui é para quem de fato foi seduzido, como quem vos escreve, ao relato literário, num contorno de possibilidades que tirou bastante o interesse em seguir adiante, algo retomado depois que o livro foi encarado como uma missão a ser cumprida.

E ao final, uma trajetória de muito aprendizado, mesmo que a história não tenha sido apresentada da maneira que eu desejava. Isso, caro leitor, é um problema meu, não do livro, cabe ressaltar, para que possamos dar continuidade. Sigamos. Com formação jornalística, John Vaillant é um autor conhecido por mesclar ficção e não-ficção em suas publicações. Crime, violência e meio ambiente estão situados em O Tigre – Uma História de Vingança e Sobrevivência, escrita pelo canadense focado nos ataques de tigre conhecidos como “devoradores de homens”, na Rússia, nos anos 1990. O ponto nevrálgico de sua reflexão é a descrição de um acontecimento pontual na década mencionada, mas para que possamos compreender em detalhes, o autor faz uma digressão bastante longa. Quando chega ao seu objeto de estudo, a sensação de informação adquirida para transformação em conhecimento é gratificante, mas estamos exaustos.

O que sabemos é que um ataque de tigre apontado como cruel chama à atenção de uma agência de proteção. Teria o animal matado aleatoriamente ou havia “motivações” e “planejamento” em seu ataque? Os animais agem por instinto, sabemos, mas há determinados traços de algumas espécies que os seres humanos e seus investimentos científicos ainda não conhecem em profundidade e por isso, a especulação ganha lugar face aos dados comprobatórios. E esse mistério é que transforma a criatura apresentada no livro num “monstro” misterioso, no patamar de Tubarão, de Spielberg e com traços na baleia vingativa da história real, transformada em ficção por Melville no século XIX. A associação com o tubarão-branco mais famoso do cinema se faz por causa da estratégia do autor em esconder ao máximo o seu felino e realizar a exposição pomposa apenas próximo ao desfecho, algo que cria uma atmosfera de suspense ao livro.

Dividido em Mapas (situacionais, para exposição científica ao leitor), Prólogo (literário e envolvente), Parte Um: Markov (muito longa e detalhista, mas impressionante), Parte Dois: Pochepnya (talvez a parte mais voltada aos detalhes específicos da geografia política) e Parte Três: Trush (desfecho com mescla de jornalismo, literatura e muita aventura). Cultuado por muitos povos, seja pelo medo diante de magnitude ou fascinação por sua representação de força, os tigres são colocados como criaturas que também fazem parte da luta por sobrevivência, tal como os humanos, na Rússia Ocidental e Oriental dos tempos modernos, ponto geográfico do planeta que situa a extensa, enigmática e diversificada região siberiana, com sua vegetação, clima, fauna e outras estruturas muito peculiares.

Para Vaillant, o que há de misterioso nesta história é que os tigres dificilmente atacam humanos, por isso, a experiência narrada no livro é demasiadamente exótica. Beira ao absurdo, pois parece literatura ou a narrativa de alguma arte do espetáculo. Markov foi o primeiro aldeão morto pelo tigre que não é transformado em vilão, mas um animal que age por sua natureza própria. Pochepnya foi o segundo e Trush, o pesquisador, era o único vivo para registrar essas informações transformadas em livro. Uma obra que por sinal, precisa ser lida com muita cautela, pois a contaminação ideológica de Vaillant vez e outra faz críticas pontuais aos modos de vida da região, haja vista o seu ponto de partida ocidental do “outro”. Não é algo grave e que prejudique a pesquisa exposta, mas apenas um dado que precisamos saber para seguir munidos de um olhar mais apurado ao que é descrito, para saber separar exatamente o que é muito pessoal em termos de opinião e o que é ciência.

Para que possamos entender os mistérios por detrás destes ataques, o autor levanta questões constantemente, ou seja, faz uso do método indutivo. Como um homem experiente, algo de errado ocorreu com Markov, atacado num vilarejo chamado Soboloyne, bem próximo de uma região florestal. Trush, agente do Inspection Tiger, programa que protege felinos caçados ilegalmente, é chamado para o local e começa a sua investigação. O frio é delineado como um dos maiores desafios, juntamente com a fome e o armamento daqueles que o seguem para analisar um ataque que transmitia a sensação de algo calculado, com intenções de matar, tudo muito além do natural, como se o tigre tivesse premeditado seu ataque por vingança por algo do passado. Interessante observar que Vaillant não transforma as lendas e as caracterizações atribuídas aos tigres, num discurso sensacionalista de horror e morte. Ele é parcimonioso na apresentação dos dados, interpretados cientificamente para evitar equívocos e “achismos”.

Há um trecho que retrata a trajetória interessante de Dersu Uzala, figura popular na história oriental, conhecida passar parte de seus últimos dias na cidade grande e abdicar de seus costumes, mas que segue outros rumos depois dessa experiência pouco confortável. Vladimir Arseniev, um dos personagens do livro, conheceu Uzala, “imortalizado” também no cinema com o filme de Akira Kurosawa. É a ponte para o autor versar sobre natureza selvagem versus civilização urbana. Em determinada passagem do trecho que cita Uzala, ele traz os questionamentos sobre viver na cidade grande. Vivemos como queremos ou como o outro quer? É algo para se perguntar por nós, leitores, mergulhados nesta história envolvente e fascinante. A edição brasileira, da Intrínseca, foi traduzida com eficiência por Lucas Peterson, profissional que esteve diante de um desafiador estudo com muitas notas de rodapé e expressões culturais para explicar aos leitores em língua portuguesa.

A capa de Peter Mendelsund é da edição canadense de 2010, aproveitada por aqui, metonímica na representação do tigre e suas armas de defesa, isto é, as garras, capazes, segundo o autor, de aplicar em seu alvo cortes mais profundos que incisões cirúrgicas. Tigres, em seu ritual de caça e alimentação, não mordem as suas presas. Eles estraçalham para a realização do banquete. Ademais, de volta ao que foi apontado sobre o fascínio que temos diante do exotismo por animais selvagens, como podemos ver muito bem em A Máfia dos Tigres, minissérie lançada recentemente, os seres humanos, quando não se comportam como monstros, tornam-se atraídos por eles. John Vaillant é bem pontual quando diz que dificilmente nos interessamos pela história de um porco, uma galinha ou qualquer outro animal mais comum ao nosso olhar. Os tigres siberianos, apresentados como criaturas ameaçadas de extinção, como qualquer outro animal da selva, possuem as suas funções biológicas para a manutenção do ecossistema. É algo que, infelizmente, parece ser preocupação para poucos, pois restam menos animais desta espécie em ambiente natural do que é cativeiros, você sabia?

O Tigre – Uma História Real de Vingança e Sobrevivência (The Tiger – A True Story of Vengeance and Survival -Estados Unidos, 2010)
Autor: John Vaillant
Tradução: Lucas Peterson
Editora no Brasil: Intrínseca (2016)
Páginas: 352

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.