Crítica | O Túmulo Vazio

o túmulo vazio plano crítico 1945

Em 1828, a Escócia se espantou diante dos homicídios cometidos por Wiliam Burke e William Hare, que mataram 16 pessoas em Edimburgo para venderem os cadáveres para a escola de medicina. Os crimes se tornaram célebres tanto por sua crueldade, quanto pelo impacto nos estudos anatômicos, já que chamaram a atenção da opinião pública sobre a necessidade da dissecação de cadáveres para o avanço da medicina e de órgãos reguladores que policiassem essa questão, extinguindo a prática de roubo de túmulos. Inevitavelmente, os crimes inspiraram obras de ficção como o conto O Ladrão de Cadáveres, de Robert Louis Stevenson, adaptado pelo produtor Val Lewton, e por Robert Wise no filme O Túmulo Vazio.

Na trama situada em Edimburgo, no ano de 1831, o Doutor MacFarlane (Henry Daniell) é um renomado professor de medicina, que aceita como seu novo assistente o jovem estudante Donald Fettes (Russell Wade). Logo, o rapaz descobre a estranha relação que existe entre MacFarlane e o misterioso John Gray (Boris Karloff), um cocheiro que secretamente é um ladrão de túmulos que fornece cadáveres para o médico dissecar e ampliar os seus conhecimentos anatômicos. Os segredos que ligam os três homens tornam-se ainda mais sombrios quando Gray percebe que há formas mais rápidas de conseguir os corpos que MacFarlane e Fettes precisam para seus estudos.

O roteiro escrito por Philip Macdonald, e pelo próprio Lewton (usando o pseudônimo de Carlos Keith) aposta na ambiguidade como canalizador do terror da narrativa, embora neste caso, a ambiguidade seja de natureza moral. O começo do filme estabelece o sofrimento que o roubo de cadáveres provoca às famílias, o que leva Fettes, personagem que funciona como nosso guia, a considerar abandonar o curso de medicina. Entretanto, quando o jovem conhece a bela viúva Marsh (Rita Corday) e sua filha, Georgina (Sharyn Moffett), menina cadeirante que sofre de uma condição degenerativa na coluna e que só pode ser curada através de uma cirurgia experimental, conseguir cadáveres para estudos deixa de ser algo tão hediondo. Claro, quanto mais Fettes tenta acreditar que “os fins justificam os meios”, mais preso ele fica no ciclo de morte que seu mentor e Gray vivenciam há anos, passando por uma jornada que ameaça corrompê-lo.

Embora o conflito moral de Fettes desempenhe um papel importante, é na relação de dependência e aversão de Gray e MacFarlane onde o coração do filme reside. MacFarlane não possui os conflitos morais de seu pupilo, pois diferente de Fettes, não vê os seus pacientes como pessoas; ele não empatiza com seus dramas, portanto, não está interessado realmente em como Gray consegue os corpos que lhe traz. Gray é quem rouba cadáveres, e eventualmente mata pessoas, mas ele só o faz para que MacFarlane tenha o seu material de estudo. Os dois são necessários para que os crimes ocorram, ainda que o médico tenha prestígio enquanto Gray vive á margem da sociedade.

Ao ligar os dois homens com os crimes de Burke e Hare (tomando a liberdade artística de colocar os assassinatos muito mais no passado do que de fato ocorreram) o roteiro também coloca a co-dependência e rivalidade de Gray e MacFarlane como uma questão de classe social, por ambos terem sido afetados de formas diferentes por suas participações nos macabros eventos. O texto de Lewton e Macdonald constrói o desprezo entre os dois com base em sua percepção sobre a sua relação. O médico odeia o ladrão de túmulos por ele lembrá-lo de seu próprio lado sombrio e Gray odeia MacFarlane por ele fingir não fazer parte do ciclo macabro que é a sua vida. E ainda assim, ambos precisam um do outro para dar sentido às suas vidas.

Robert Wise, colaborador de longa data de Val Lewton, faz um ótimo trabalho de direção, criando uma atmosfera claustrofóbica e sufocante, mas que ao mesmo tempo utiliza bem os belos cenários da Edimburgo do século 19. Wise faz um bom uso da profundidade de campo e do desenho de som para trabalhar o terror pela sugestão, como na sinistra cena em que o coche de Gray anda lentamente atrás de uma cantora de rua que aos poucos desaparece nas sombras, seguida pelo veículo, enquanto ouvimos o canto da mulher até o momento em que, abruptamente, não ouvimos mais.

Na parte das atuações é preciso destacar o excelente trabalho de Boris Karloff, que na pele de John Gray, entrega uma de suas melhores atuações. O ator vive John Gray como um homem de modos humildes, mas que ao mesmo tempo claramente se deleita ao ver-se em uma posição de poder, vide as cenas em que lembra a MacFarlane sobre o passado que ambos compartilham; ou o momento em que alegremente conta a uma vítima a história de Burke e Hare. Karloff domina todas as cenas de que participa, mas encontra em Henry Daniell um parceiro de cena perfeito. Daniell interpreta MacFarlane como alguém que exibe para os outros uma postura de grande confiança, mas que é apenas uma fachada para seus medos e inseguranças. Se o personagem de Karloff parece tão ameaçador, muito disso se deve ao incômodo que vemos refletido na atuação de Daniell. O elenco ainda conta com a presença de Bela Lugosi, vivendo um criado do Doutor MacFarlane; um papel pequeno, mas que pelo menos permite ao ator húngaro (na época já com problemas com o vício em morfina) participar de uma das cenas mais tensas do longa.

Sendo um dos últimos projetos do ciclo de filmes de terror de Val Lewton para a RKO, O Túmulo Vazio revela-se um ótimo thriller psicológico, trazendo uma atmosfera de suspense fantástica e interessantes dilemas morais para os seus personagens. A elegante direção de Robert Wise, o bom roteiro de Lewton e Macdonald, mais as atuações fortes de Boris Karloff e Henry Daniell fazem desse filme uma joia esquecida do terror.

O Túmulo Vazio (The Bodysnatcher) – Estados Unidos, 1945
Direção: Robert Wise
Roteiro: Philip Macdonald, Val Lewton (Baseado em conto de Robert Louis Stevenson).
Elenco: Boris Karloff, Henry Daniell, Russell Wade, Bela Lugosi, Edith Atwater, Rita Corday, Sharyn Moffett, Donna Lee
Duração: 77 Minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.