Crítica | O Último Amor de Casanova

Casanova não é o tipo de personagem histórico que aceita qualquer base de enredo. Mesmo que o roteirista pense ou queira adaptar algo da vida e obra do homem, focando em sua velhice ou num pitoresco episódio de sua vida, a questão vai muito além de uma simples retratação do grande aventureiro com as mulheres que ele foi, dentre muitas outras cosias. Mas parece que Benoît Jacquot não pensa assim. E tanto sua direção quando seu roteiro escrito em parceria com Jérôme BeaujourChantal Thomas não conseguem nem capturar o espírito da época e do personagem, nem transmitir o que quer que tenham pensado neste terrível O Último Amor de Casanova (2019).

A obra se passa no final do século XVIII, com Casanova já velho, escrevendo e narrando uma de suas aventuras mais marcantes, a “última”, que vivera 30 anos antes, em Londres, onde se refugiou depois de ter sido exilado. E o primeiro grande problema do filme foi caracterizar o ator Vincent Lindon da pior maneira possível, numa espécie de anti-Casanova desde a escolha das perucas (uma pior e mais bagunçada que a outra) e da maquiagem também horrível — se bem que o diretor que fotografia resolveu escurecer tanto o filme e colocar tanto filtro desnecessário nas cenas, que a maquiagem acaba sendo um problema menor. Lindon também não é o tipo de homem lindão que se espera de um ator representando Casanova, mas isso não teria problema se sua caracterização fosse cheia de classe, garbo e bastante cuidado, mostrando ao menos em público um lado mais asseado do famoso escritor e aventureiro italiano. Só que esta está longe de ser a realidade aqui.

O público espera uma acomodação mais rápida do exilado em Londres e imagina que sua última aventura seja qualquer coisa, menos o produto de um melodrama que descaracteriza tudo o que conhecemos do personagem. E sim, estamos falando de uma ficção, logo, o diretor e os roteiristas poderiam fazer qualquer coisa aqui, desde que obedecessem a um princípio narrativo coerente. Se eu quero desconstruir uma figura qualquer da História (real ou fictícia), minha proposta geral deve girar em torno dessa desconstrução e não começar aludindo a absolutamente todo o escopo “mítico” que se tem diante de tal indivíduo, para depois fazê-lo se comportar como alguém completamente diferente. Falta coerência, falta foco no estabelecimento e desenvolvimento do romance e falta… Casanova.

Um dos setores com o qual não temos nenhum problema no decorrer da obra é a trilha sonora. O compositor Bruno Coulais (Coraline, O Diário de uma Camareira, versão de 2015) alterna bem o uso das peças para cravo com belíssimas (e bastante sombrias) linhas para orquestra. Através da música, a sensação de deslocamento e falta de rumo do personagem consegue ser passada de maneira clara, justamente pelo contraste no uso dos instrumentos, mas essa ambientação é algo que o roteiro não consegue acompanhar. O Último Amor de Casanova é uma história de amor que não funciona com personagens comuns e muito menos com o seu personagem-título. Os ótimos figurinos e a direção de arte são outros aspectos que ajudam a nos segurar um pouco mais na sessão, e a cena do baile tem uma estranha e ao mesmo tempo interessante dinâmica na direção de Jacquot. Todo o restante é uma confusão insossa coberta por uma calda de melodrama cuja missão principal parece ser irritar o público. A tirar pela qualidade do filme e aquilo que pretende retratar, não é espantoso que este tenha sido o último amor de um dos homens mais sedutores da História.

O Último Amor de Casanova (Dernier amour) — França, 2019
Direção: Benoît Jacquot
Roteiro: Benoît Jacquot, Jérôme Beaujour, Chantal Thomas (baseado na obra de Giacomo Casanova)
Elenco: Vincent Lindon, Stacy Martin, Valeria Golino, Julia Roy, Nancy Tate, Anna Cottis, Hayley Carmichael, Christian Erickson, Nathan Willcocks, Jesuthasan Antonythasan, Jean-Chrétien Sibertin-Blanc, Lionel Robert, Wolfgang Pissors, Catherine Bailey, David Tudor-Glover
Duração: 98 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.