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Crítica | O Último Amor de Mr. Morgan

por Gabriela Miranda
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Foi Claude Lelouch, o diretor de Um Homem e Uma Mulher, quem disse: ¨em uma história de amor, quanto mais frio, mais se almeja o calor¨. Essa sensação pode ser reconhecida na solidão invernal em que Michael Caine se isola no filme O Último amor de Mr. Morgan. Diferente do que o título tende a indicar, esse amor se dá na forma do reencontro com o amor que está em falta para Matthew Morgan, após a morte da esposa.

Um encontro inusitado entre o protagonista e uma jovem sorridente chamada Pauline, em quem esbarra no ônibus, abre a oportunidade para uma relação que tenta preencher o vazio de cada um deles. Afinal, quando ele passa a ter o impulso de cuidar de outra pessoa, ele se sente útil novamente. Matthew enxerga nessa moça o passado feliz do qual não consegue se desapegar. Nessa dor ele havia se tornado um viúvo que vive a apatia crescente em virtude da solidão, o que vai se dissipando com a presença de Pauline.

A relação com a esposa aparece como uma forte ligação. Morando em Paris há anos, Matthew nunca aprendeu a falar francês. O desinteresse em aprender o idioma é apenas uma maneira de demonstrar como ele criou uma relação de dependência com a esposa. Era através dela que ele vivia e sem ela já não havia livros, não havia os detalhes que criam motivos para apreciar a vida. Essa cumplicidade entre o casal remete ao filme de Michael Haneke, Amour.

Esse roteiro é costurado com cenas-chave que servem para descrever visualmente a narrativa, de forma que o uso de palavras não se faz necessário. Um exemplo disso é a cena em que Matthew caminha sozinho pela rua e, de repente, vemos uma mão segurando na sua e em um instante isso se desfaz e assistimos o caminhar desse homem desacompanhado, numa clara motivação narrativa para indicar que a presença da esposa se fazia presente dentro dele.

No entanto, o filme tem muitas outras cenas com apelo visual e cheias de momentos ricos de significados. Como quando ele abre uma janela emperrada e consegue avistar a Torre Eiffel, construindo o sentido de que ele está mais uma vez receptivo aos estímulos de confiança e simpatia que Pauline instiga nele.

Com a trilha sonora assinada por Hans Zimmer, a eloquência entre som e visual é inevitável, criando uma aura que combina com o gênero de filme e consegue dar graça e sutileza à apatia em que está entregue Matthew. Em geral, esse filme assume um caráter um tanto quanto previsível, mas ainda assim cativa por esses momentos poéticos que são enfatizados pela estética da fotografia que consegue legitimar as tonalidades do inverno. O inverno de Matthew, que se apega à Pauline pela forma calorosa com que ela o trata. 

O Último amor de Mr. Morgan (Mr. Morgan’s Last Love, Alemanha/Bélgica/EUA/França – 2013)
Diretor: Sandra Nettelbeck
Roteiro: Sandra Nettelbeck
Elenco: Michael Caine, Michelle Goddet, Jane Alexander, Miles Morgan, Pauline Laubie, Karen Morgan
Duração: 116 min.

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3 comentários

Decio Forni 6 de julho de 2014 - 11:57

Bacana Gabriela. Fui ver o filme, muito porque obviamente sou fã de Micahel Caine e porque queria ver uma visão feminina de uma situação destas. O título do filme já sugeria algo profundo.
Vi que se apegou na questão do inverno versus o amor que esquenta este frio. Para mim o filme traz uma bela lição de vida e sua relação com seu final. Por vezes se almeja o ideal, mas o que ocorre no meio é o fato real. Creio que esta é a idéia principal, mas a sabedoria de Morgan o faz saber desde o início que Deus guiava algo. Acho que há uma forte discussão sobre o divino ali.

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Gabriela Miranda 7 de julho de 2014 - 12:32

Obrigada, Decio. Um filme sempre pode ser lido por diversos olhares, fico contente de ter a oportunidade de enxergar esse seu ponto de vista. Para mim, não sei se chega a ser uma lição de vida pelo final trágico. Mas entendi onde você quis chegar. Realmente é um retrato bastante tocante sobre os medos e solidões que as pessoas carregam não importa a idade e como sempre é tempo de reencontrar a fenda por onde passa a luz. E eu vi um homem mais cético na figura de Morgan. É certo que neste filme a despedida da vida não é retratada de maneira a supor uma fraqueza e sim uma coragem de seguir em frente. Mas isso pouco tem a ver, na visão que tive, com a crença em Deus ou a esperança de um plano maior. Passou uma visão de livre arbítrio. E me apeguei a poesia porque foi o que mais me cativou.

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Decio Forni 8 de julho de 2014 - 12:17

Obrigado também Gabriela pelo post. Eminentemente para mim está muito presente um olhar feminino da diretora. Caine atua bem sugerindo com detalhes a opção de ser estrangeiro, do racionalismo exigido dos homens. Já a atuação dela o contrário, o instintivo, a luz que você citou, alguém com ternura e que percebeu nele isto também, mesmo encoberto. Sem dúvida muito poético.

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