Crítica | O Último Concerto de Rock

Não sei se chega a ser exatamente correto classificar O Último Concerto de Rock como documentário. Primeira incursão de Martin Scorsese na música em longa não ficcional, no ano seguinte de New York, New York, o filme nasceu de uma encomenda de Robbie Robertson, guitarrista, compositor e vocalista ocasional da banda The Band que, tendo apreciado a forma como a trilha sonora foi usada em Caminhos Perigosos, produzido por Jonathan Taplin, que fora gerente da banda e responsável pelas apresentações, arregimentou o diretor para filmar o último show da formação original do grupo, que aconteceria no Winterland Ballroom, de São Francisco, lugar onde eles primeiro tocaram, no Dia de Ação de Graças de 1976 (25 de novembro). A ideia era capturar a performance de maneira modesta, em 16 mm, mas Scorsese não é exatamente modesto e, sob sua batuta, a filmagem tornou-se uma enorme produção capturada com nada menos do que sete câmeras de 35 mm operadas não por técnicos, mas sim por diretores de fotografia como Vilmos Zsigmond, de Contatos Imediatos do Terceiro Grau e László Kovács, de Sem Destino, com grande foco no show em si, mas por vezes lidando com a história do grupo e até um número musical separado.

E o evento realmente merecia essa abordagem mais sofisticada, ainda que a The Band não tenha encerrado seus shows naquele ano (na verdade, com formações diferentes, a banda continuaria até 1999) e, ainda com o grupo original, lançaria um último álbum em 1977, Islands. Seja como for, a proposta era de tributo às inspirações e parceiros do grupo ao longo de seu desenvolvimento, com a participação não só de Rick Danko, Levon Helm, Garth Hudson, Richard Manuel e Robbie Robertson, como também grandes nomes como Bob Dylan (um dos grandes responsáveis pelo surgimento do grupo), Eric Clapton, Neil Diamond, Joni Mitchell, Neil Young e Ringo Starr. Só para se ter uma ideia, o público de 5 mil pessoas foi recebido com um jantar pré-show, depois foi organizado um baile com a Berkeley Promenade Orchestra e leitura de poemas. Todo o cenário foi alugado da montagem de La Traviata, ópera que estava em andamento na cidade, com Boris Leven, designer de produção de obras-primas como Amor, Sublime Amor e A Noviça Rebelde, tendo criado o palco e a iluminação.

Apesar de pessoalmente não me encantar pelo estilo musical da banda, o que não interessa para fins da presente análise, Scorsese traz uma elegância inegável ao show, evitando tomadas em planos gerais do palco completo e focando em cada performer de maneira quase intrusiva, tentando ao máximo trazer humanidade para cada um dos músicos e seus convidados. Não é, portanto, um show normal, até porque Scorsese começa pelo bis – “Don’t Do It”, de Marvin Gaye –  e, só depois, começa a lidar com o show de forma razoavelmente cronológica, mas não completa, já que alguns convidados acabaram ficando de fora, com a performance de “Mannish Boy”, por Muddy Water, só sendo capturada (e depois mantida na versão final) porque Kovács, famosamente, não aguentando mais as instruções do diretor, jogou fora o fone e, com isso, não ouviu as ordens para as câmeras serem desligadas.

Entre cada música, cujas tomadas de câmera receberam tratamento de produção cinematográfica, inclusive com storyboards por Scorsese, o diretor inseriu curtos clipes de entrevistas dele com os membros da banda que mais ou menos contam sua origem, mas que mais parecem uma sucessão de anedotas sobre as experiências passadas deles, sem estrutura, sem profundidade, sem um objetivo maior que não seja o de fazer a filmagem do show transformar-se em um documentário que tenta ir além, mas que, na verdade, somente quebra a imersão das performances. Ao querer fazer de O Último Concerto de Rock algo mais do que a filmagem do último concerto ao vivo do The Band, Scorsese acaba ficando no meio do caminho, não entregando completamente nem uma coisa, nem outra, Nem entrarei aqui no mérito sobre o alegado foco excessivo de Scorsese em Robertson, ponto que gerou e ainda gera discórdia em relação ao documentário, pois realmente grande parte da filmagem é enamorada dele, que também é produtor executivo. Isso deve ter gerado incômodo para a banda, mas o meu ponto aqui não é esse, já que a manutenção de Robertson quase que constantemente no foco não quebra a narrativa musical, mas sim o que ele e os demais simplesmente não tem a dizer sobre a história da banda, algo amplificado pela montagem que somente deixam alguns comentários quase soltos entre uma música e outra. Além disso, mais estranhamente ainda, há uma performance “de estúdio” do The Band com Emmylou Harris e o The Staple Singers, gravada posteriormente e inserida no meio do show sem maiores contextualizações, também contribuindo para a quebra de fluidez do momento histórico e forçando cortes de performances como a de Stephen Stills.

No sentido mais estrito da palavra, O Último Concerto de Rock é sim um “documento” que marca a última performance ao vivo da formação original do The Band, mas ele não é nem puramente a gravação altamente sofisticada de um show de música, nem um documentário que vá além da definição estrita. Esse hibridismo estranho retira do filme o brilhantismo absoluto que ele poderia ter, ainda que sua adoração seja quase unânime por aí. Scorsese mostra toda sua categoria e detalhismo na captura desse momento histórico da música americana (ok, a banda é canadense-americana), mas falha ao não se decidir exatamente sobre o que quer com sua obra.

O Último Concerto de Rock (The Last Waltz, EUA – 1978)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro (tratamento): Mardik Martin
Com: Rick Danko, Levon Helm, Garth Hudson, Richard Manuel, Robbie Robertson, Eric Clapton, Neil Diamond, Bob Dylan, Joni Mitchell, Neil Young, Emmylou Harris, Ringo Starr, Paul Butterfield, Dr. John, Van Morrison, Ronnie Hawkins, Muddy Waters, Ronnie Wood, Martin Scorsese
Duração: 117 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.