Home QuadrinhosMinissérie Crítica | O Último Deus: Livro I das Crônicas de Fellspyre

Crítica | O Último Deus: Livro I das Crônicas de Fellspyre

por Ritter Fan
733 views (a partir de agosto de 2020)

Apesar de não ser comum para uma editora mainstream de quadrinhos, é compreensível que a DC Comics tenha querido aproveitar-se da revitalização das histórias de alta fantasia – ou high fantasy – bem no estilo O Senhor dos Aneis ou Dungeons & Dragons. O que é incrível e realmente fora de esquadro é que The Last God (ou O Último Deus em tradução direta já que a HQ não foi ainda publicada no Brasil) é uma aposta de grande qualidade em praticamente todos os seus quesitos, da história à arte, das caracterizações dos personagens à ameaça que eles precisam enfrentar, da abordagem adulta e extremamente violenta aos detalhes da construção de mundo, que há muito tempo não se via em qualquer uma das duas grandes editoras de quadrinhos americanas.

Ler O Último Deus é como ler as dezenas de álbuns desse gênero que a indústria de quadrinhos europeia, notadamente a francesa, solta por ano, o que torna o esforço de Phillip Kennedy Johnson (roteiro) e Riccardo Federici (arte) ainda mais louvável, especialmente porque não deixa nada a dever aos melhores exemplares lá do outro lado do Atlântico. Muito ao contrário até pois, apesar de ser uma minissérie de 12 edições com pelo menos 30 páginas cada uma, Johnson mostra, ao mesmo tempo, uma capacidade impressionante de construção de um vasto mundo a partir do zero e de concisão narrativa que consegue estabelecer tudo o que quer sem exageros expositivos.

Evidentemente, porém, o roteirista americano vale-se de arquétipos do gênero estabelecido desde que a literatura passou a abordá-lo lá pelo final do século XIX, chegando, claro, no ponto mais alto com J.R.R. Tolkien. Johnson definitivamente constrói em cima de ombros de gigantes, mas ele realmente constrói, realmente faz das tripas coração para estabelecer um universo com sua própria lógica, com sua própria ordem e com ingredientes suficientes para ele orgulhosamente poder dizer que é uma criação com sua assinatura. E o mesmo vale para seu parceiro de jornada, o desenhista romano Riccardo Federici, ainda razoavelmente desconhecido nos quadrinhos mainstream, mas que já chega arrebentando, em um estilo que tem a mesma qualidade épica do trabalho do croata Esad Ribic, mas com traços mais enevoadas, fluidos e com extremo cuidado com detalhes.

Há uma excelente simbiose entre roteirista e artista que merece nota. Federici é muito visual, claramente capaz de contar uma história sem a necessidade da ajuda de textos e, com isso, ele sabe aproveitar os espaços ao mesmo tempo em que “permite” a inserção dos diálogos e da narração econômicas de Johnson, com uma coisa sempre ajudando a outra e nunca, em momento algum, parecendo redundante ou cansativa. E olha que estou falando de 12 edições que contam não só a aventura imediata, mas, também, a origem desse fantástico mundo, com todos os seus incríveis povos e lendas.

E que história seria essa, alguém pode perguntar já que até agora eu não ofereci algo semelhante a uma sinopse. Sem entrar em muitos detalhes, pois a progressão narrativa é cheia de surpresas e parte da diversão é desbravá-las e avaliar se elas fazem sentido em relação ao que veio antes, Johnson escreve um épico em dois momentos. O primeiro deles se passa no presente desse mundo batizado de Cain Anuun, na chamada Era de Tyrgolad, com a formação de uma nova “sociedade” do anel que, assim como outra liderada pelo agora Rei Tyr, precisa sair em uma jornada perigosa para impedir que o último deus, o monstruoso Mol Uhltep, residente em um vazio, invada esse universo pela mítica Escadaria Sombria, quando sinais de que esse deus não está morto começam a aparecer na forma dos chamados Flowering Dead, horrendas fusões de plantas com seres de carne e ossos que infectam tudo como uma devastadora praga. O segundo momento é 30 anos antes, na Era de Olvargolad, contando justamente a formação da primeira sociedade, inicialmente composta apenas por bandidos que esbarram nos mesmos “mortos florais” (ou seja lá a tradução que um dia farão de Flowering Dead) e cujos feitos tornar-se-iam lendas.

O leitor que tenha um mínimo de intimidade com a alta fantasia, perceberá que não se tratam de ideias inéditas, mas o que realmente importa é a execução delas e Johnson revela-se um mestre primeiro na forma como faz a transição de uma era para a outra, mantendo um diálogo constante entre elas, com Federici usando sua arte e pequenos sinais, notadamente o machado e a coroa no canto esquerdo da página para representar o momento de troca entre passado e presente. Há personagens que vemos em duas versões, há outros que só existem em um dos momentos temporais, mas existe uma belíssima organização que, claro, talvez confunda alguns no começo, mas que logo torna possível a aclimatação, ainda que esse épico mereça uma segunda leitura para a apreciação de detalhes e de algumas reviravoltas que remetem a seu início.

Única publicação não super-heróica do selo DC Black Label, O Último Deus é, sob todos os aspectos, algo improvável de se ver na DC Comics. Com muito esforço, talvez na Era Vertigo (ah, a finada Vertigo!) pudéssemos encontrar algo assim. Mas o que realmente importa é que a editora parece ter apostado de verdade nessa ideia, abrindo inclusive espaço para continuação com o empolado título contendo “Livro I” (mas fiquem tranquilos, pois a minissérie conta uma história fechada). Se os leitores não quiserem só mais do mesmo – pois não é possível que todos queiram somente ler Batman e derivados por mês… – e a HQ fizer sucesso, O Último Deus pode ser o começo de todo um novo universo independente no seio da editora.

O Último Deus: Livro I das Crônicas de Fellspyre (The Last God: Book I of the Fellspyre Chronicles – EUA, 2019/21)
Contendo: The Last God: Book I of the Fellspyre Chronicles #1 a 12
Roteiro: Phillip Kennedy Johnson
Arte: Riccardo Federici
Cores: Mat Lopes, Arif Prianto, Sunny Gho
Cartografia: Jared Blando
Letras: Tom Napolitano
Capas: Kai Carpenter
Editoria: Amedeo Turturro, Maggie Howell
Editora: DC Comics (DC Black Label)
Data original de publicação: 30 de outubro de 2019 a 26 de janeiro de 2021

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6 comentários

Yan Fernando 3 de fevereiro de 2021 - 19:46

(Meio que OFF) Ritter, você sabia que o roteirista de The Last God vai assumir os supertítulos (Superman e Action Comiscs) após a saída do lindo, fantástico e careca BENDIS?🌚

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planocritico 3 de fevereiro de 2021 - 22:26

Bom para a carreira dele, mas potencialmente péssimo para o futuro de The Last God…

Abs,
Ritter.

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Starr-Lord 3 de fevereiro de 2021 - 19:46

Ainda não li essa, até por não estar lendo tantos quadrinhos nesse ano pela maratona de livros do site, mas fico feliz em ver que é uma obra de qualidade, porque o Philip Kennedy Johnson vai assumir os títulos do Superman quando o Future State acabar e seria bom ver o personagem voltar a ter histórias que impressionem.

Pelo que vi, a arte do Federici é muito bonita mesmo, comparação certeira com o Ribic que é um dos meus ilustradores da Marvel favoritos. Uma aposta e tanto do Black Label, bom ver que não estão se limitando só ao Batman, que é o mais explorado no selo com Três Coringas, Batman/Catwoman e Amaldiçoado.

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planocritico 3 de fevereiro de 2021 - 22:26

Também não estou lendo muitas HQs não, mas não resisti a essa aqui que eu estava só esperando chegar próximo do final para começar a ler! Sobre o PKJ, o fato de ele estar indo para o Superman é legal para a carreira dele, mas péssimo para o futuro de coisas diferentes como The Last God… Tomara que alguém pegue esse bastão e continue a história ou crie outras com essa qualidade!

Abs,
Ritter.

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Kevin Rick 2 de fevereiro de 2021 - 13:02

Cara, que imagem sensacional… Grita fantasia clássica. E a nota me empolgou bastante! Voltarei para ler a crítica após devorar essa belezura.

Responder
planocritico 2 de fevereiro de 2021 - 13:11

É uma baita minissérie. Merece atenção!

Tomara que a Panini ou outra editora lance por aqui para todo mundo poder ler.

Abs,
Ritter.

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