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Crítica | O Último Duelo

O (infeliz) poder dos homens.

por Kevin Rick
5.178 views (a partir de agosto de 2020)

Um conto medieval sobre misoginia e patriarcado mascarado como honra (intencionalmente), O Último Duelo é um filme histórico com um discurso progressista e atual. O roteiro escrito por Matt Damon, Ben Affleck e Nicole Holofcener, é baseado em um livro sobre o último duelo judicial oficialmente reconhecido travado na França, mas com um subtexto (às vezes até literal) no aqui e agora. Damon interpreta Jean de Carrouges, um cavaleiro que desafia seu amigo e escudeiro Jacques Le Gris (Adam Driver) para um duelo depois que a esposa de Carrouges, Marguerite (Jodie Comer), acusa Le Gris de estuprá-la.

Eu digo “mascarado”, porque o Último Duelo parte de uma estrutura de perspectivas, estruturado à la Rashomon, de Akira Kurosawa, em que vemos todas as circunstâncias que levaram ao duelo dos pontos de vistas de Carrouges, Le Gris e Marguerite, nessa ordem, dividindo a obra em três grandes atos. Entre campos de batalhas sangrentos e heróis de guerra, o roteiro e montagem prezam por um estudo de personagem doméstico, “mascarando” a história com o visual épico ao mesmo tempo que continuamente desconstrói a mitologia masculina de honra e nobreza do período. Ridley Scott até parece um diretor de aluguel luxuoso, basicamente contratado para filmar o roteiro (muito bem-escrito, diga-se de passagem), com pequenos interlúdios de ação extremamente bem-filmados pelo experiente cineasta – Scott até se distancia de sua costumeira romantização da batalha, com cada golpe sendo violento, duro e de uma tremenda carga dramática.

O primeiro elemento que pensamos em um filme desse tipo, de “ele disse-ela disse”, está na ambiguidade narrativa, transformando a história objetiva da obra em uma interpretação da verdade de cada espectador. Em um primeiro instante o filme parece tomar esse caminho ambíguo, mas ao longo da obra somos apresentados à verdade (já vou chegar nesse ponto). É a partir desta revelação que o longa acaba ressignificando suas intenções, pois a proposta deixa de partir do questionamento sobre o fato, mas sim sobre como os personagens veem a si mesmos. Carrouges se enxerga como um herói injustiçado e um bom marido, enquanto Le Gris acredita ser um homem digno. À medida que a narrativa avança, podemos ver como os personagens são gradualmente desmontados e reconstruídos devido às perspectivas rotativas, gerando uma ótima complexidade em termos de arco e construção de personagem.

Para isso acontecer, cada capítulo revela certos detalhes que são diferentes, pequenas nuances, diálogos e olhares que constantemente remodelam a narrativa. Não consigo nem imaginar a dificuldade posta à frente da editora Claire Simpson, mas a montagem é eficiente em trabalhar cada ponto de vista sempre a progredir a narrativa, enquanto a decupagem de Ridley Scott é inteligente no diferente uso de ângulos dos personagens e do ambiente para cenas repetidas. Infelizmente, existem várias sequências que pouco agregam ou mudam o rumo da história ou até mesmo de personagens, gerando problemas de ritmo (a longa minutagem da obra certamente não ajuda), além, claro, de uma certa agonia com alguns repetecos desnecessários.

Além disso, o fato do progresso narrativo se basear em mudanças de cenas já vistas restringem o desenvolvimento de alguns personagens, especialmente o boêmio Pierre d’Alençon (Ben Affleck), totalmente desperdiçado em um pano de fundo político superficial, como também, de certa forma, a própria Marguerite. A versão da personagem tem um tom moral e crítico com o sofrimento da mulher frente ao patriarcado, fazendo um reflexo do século XIV com a atualidade. Os comentários são bem construídos nessa (infeliz) sensação atemporal de vários problemas sociais abordados, seja através de algo mais literal, como o comportamento da igreja, seja por um lado às vezes mais sutil com a dinâmica da personagem com homens à sua volta. Meu problema não está necessariamente no discurso, mas em como Marguerite acaba servindo apenas a ele (tanto vítima quanto como corajosa), e não ganha um tratamento pessoal mais complexo e aprofundado como Carrouges e Le Gris ao longo da fita.

Por fim, O Último Duelo acaba sofrendo de um desequilíbrio narrativo e de montagem, reflexo da corajosa e intrigante abordagem doméstica de diferentes perspectivas de um evento polêmico, inseridos em um épico medieval, sempre em desconstrução do que esperamos do gênero. Algumas sequências em repetição poderiam ser cortadas ou diminuídas para dar espaço a algumas subtramas e personagens mal desenvolvidos, especialmente para expandir a história de Marguerite, mas o saldo continua positivo. Acho Ridley Scott meio passivo e automático (até à mercê da montagem) no filme, mas o diretor é excepcional quando as espadas colidem, assim como quando necessita causar repulsa. Envolvido em seu drama, esta repulsa e indignação nascem em O Último Duelo de um tremendo exame multifacetado sobre poder e privilégio masculino, espelhando seus temas e ato final em uma moral e reflexão entre dois períodos que podem não ser tão distintos como pensamos.

O Último Duelo (The Last Duel) – EUA, 13 de outubro de 2021
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Nicole Holofcener, Ben Affleck, Matt Damon
Elenco: Matt Damon, Adam Driver, Jodie Comer, Ben Affleck, Harriet Walter, Nathaniel Parker, Sam Hazeldine, Michael McElhatton, Alex Lawther, Marton Csokas
Duração: 153 min.

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