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Crítica | O Último Golpe (1974)

por Ritter Fan
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Não é sem querer que Clint Eastwood sedimentou-se como uma verdadeira instituição americana. Não só ele soube trabalhar muito bem sua imagem como ator, arriscando-se inclusive em tentar carreira fora dos EUA, o que o beneficiou tremendamente, como também fundando sua própria produtora e arregaçando as mangas atrás das câmeras como diretor, o que o levou a ganhar nada menos do que dois Oscar na categoria. No processo, Eastwood também descobriu e deu oportunidades a muita gente e uma de suas mais notáveis descobertas foi ninguém menos do que Michael Cimino que, em 1978, colocaria o premiadíssimo O Franco Atirador nas telonas.

A primeira vez que Cimino trabalhou em algum projeto de Eastwood foi logo no ano anterior a O Último Golpe, como co-roteirista de Magnum 44, segundo filme da série do icônico Dirty Harry. Quando Stan Kamen veio com a ideia para o que seria sua estreia na direção, Cimino agarrou a oportunidade e escreveu o roteiro no risco, ou seja, sem receber qualquer tipo de compensação e o resultado acabou chegando aos olhos de Eastwood que procurava um road movie para fazer. Considerando que o ator imediatamente adorou o que leu e que, àquela altura de sua carreira, ele já havia dirigido três filmes – Perversa Paixão, O Estranho Sem Nome e Interlúdio de Amor -, sua vontade foi também dirigir O Último Golpe, voltando atrás quando conheceu Cimino pessoalmente e percebeu seu potencial ao imediatamente convidá-lo para dirigir seu primeiro filme.

Diferente do que a campanha publicitária da época deu a entender – e que Eastwood detestou – O Último Golpe não é exatamente uma comédia e nem exatamente um filme de ação. Há um pouco dos dois, claro, mas o longa de Cimino desafia classificações binárias como essas, reunindo características de faroeste, road movie, filme de assalto e buddy movie em um conjunto surpreendentemente harmônico que resulta talvez na segunda melhor obra do diretor e um dos melhores papéis de toda a carreira de Eastwood e isso sem contar com a segunda indicação de Jeff Bridges ao Oscar na categoria de Melhor Ator Coadjuvante.

A premissa pareia o experiente ladrão Thunderbolt (Eastwood) com o aprendiz de ladrão Lightfoot (Bridges) em uma divertida sequência inicial que já marca o tom do filme, além de estabelecer sua estética a partir da bela fotografia em locação de Frank Stanley (que já trabalhara com Eastwood por duas vezes) que faz o melhor uso da beleza do interior dos EUA, com campos de trigo, vales e rios que funcionam para legitimar a conexão imediata entre os protagonistas. Thunderbolt foge de homens que querem matá-lo e Lightfoot não se importa com nada que não seja aproveitar a vida como ela vem para ele, em uma espécie de choque de gerações benigno que permite uma troca saudável entre os dois personagens (e atores, já que eles têm quase 20 anos de diferença).

Ao longo de praticamente metade da projeção, Cimino leva o espectador por uma aventura de parceiros em fuga pelas estradas americanas que funciona para criar intimidade entre eles e que aos poucos vai revelando o passado de Thunderbolt que é inicialmente apresentado como um pastor em uma paróquia perdida no meio do nada com coisa nenhuma. Sem entregar detalhes do filme, basta dizer que o passado de Thunderbolt retorna com força e ele, juntamente com Lightfoot e outros dois personagens que prefiro não mencionar aqui para não estragar a experiência de quem porventura decidir conferir o filme, partem para repetir um momento definidor da carreira de Thunderbolt, momento esse inclusive responsável por seu apelido. A transição entre um “capítulo” e outro é interessante e original, ainda que o desenvolvimento do plano do grupo seja um pouco atropelado e corrido, mas nada que realmente atrapalhe o longa como um todo.

Mas a ação tradicional em O Último Golpe – que existe e é muito boa, vale afirmar – é o menor dos detalhes da obra. O que realmente interessa para Cimino em seu roteiro são seus personagens. O longa, afinal de contas, pode ser visto como uma história de amor e essa talvez seja a melhor forma de encará-lo. E esqueçam a tentativa de taxar esse amor como homossexual ou qualquer outra coisa nessa linha. Não que Cimino descarte a hipótese, que fique claro, mas sim que isso não é realmente importante, além de o diretor ser muito mais elegante nesse subtexto do que diversas outras obras mais famosas, como Top Gun. O que efetivamente interessa é a genuína amizade entre dois homens de idades e experiências diferentes que se unem peça força do destino e estabelecem laços que vão além de bobagens rasas tão comuns em buddy movies.

Cimino escreveu – ou reescreveu – seu roteiro e seu Thunderbolt especificamente para Eastwood, resultando em um papel que cuidadosamente bebe de todos os grandes personagens do ator até aquele momento. Sua natureza estoica do começo remete ao Homem Sem Nome da Trilogia dos Dólares, da mesma maneira que, mais para frente, seu tom ameaçador parece sair diretamente de Dirty Harry, tudo embebido em um coração claramente generoso e carente, que precisa – mas jamais dirá isso com todas as letras – de seu companheiro tão aberto, franco e feliz com tudo a seu redor. Se Eastwood, não exatamente conhecido por sua profundidade dramática, tem um dos melhores papeis de sua vida, Bridges absolutamente rouba o filme para ele com sua expansividade. A mera presença, mesmo silenciosa, do ator com sua farta cabeleira loira e olhos de admiração por Thunderbolt e com os EUA como um todo, vale lembrar, é magnética e encantadora. Cimino extrai da dupla uma cumplicidade rara de se ver por aí.

O Último Golpe certamente fica naquela categoria ingrata de filmes esquecidos, especialmente quando o nome de Clint Eastwood é mencionado. Mas o longa que revelaria Michael Cimino para o mundo não só merece uma segunda chance, como deveria ter um lugar de respeito na filmografia de Eastwood, Bridges e Cimino. Um fascinante e delicado estudo de personagens que acerta em quase tudo que tenta fazer e olha que ele não tenta fazer pouco não…

O Último Golpe (Thunderbolt and Lightfoot – EUA, 1974)
Direção: Michael Cimino
Roteiro: Michael Cimino
Elenco: Clint Eastwood, Jeff Bridges, George Kennedy, Geoffrey Lewis, Catherine Bach, Gary Busey, Jack Dodson, Gene Elman, Burton Gilliam, Roy Jenson, Claudia Lennear, Bill McKinney, Vic Tayback, Dub Taylor, Gregory Walcott
Duração: 115 min.

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