Crítica | O Último Guerreiro das Estrelas

Saudações, guerreiro! Você foi convocado pela Liga Estelar para defender a fronteira contra Xur e a Armada Ko-Dan.

Ah, que memória boa que eu tinha de O Último Guerreiro das Estrelas. Um jovem sonhador que, ao quebrar o recorde de um videogame disfarçado de teste de habilidade de um caça espacial, é levado para lutar uma guerra intergalática, é a perfeita metáfora infanto-juvenil para trabalhar amadurecimento e reiterar, de maneira descomplicada e direta, que não devemos nunca desistir de nossos desejos. Tive receio, portanto, que conferir o filme novamente depois de tanto tempo e com olhar mais clínico, não sobrasse muita coisa dessa fábula oitentista de Nick Castle, em seu segundo trabalho nesta cadeira que, porém, ironicamente, nunca o alçaria a grandes voos.

Mas, se considerarmos as limitações da época, O Último Guerreiro das Estrelas surpreende, mesmo décadas depois, não só por não ter nenhum pudor em usar e abusar de cenas de computação gráfica (27 minutos!), fazendo dobradinha com Tron: Uma Odisseia Eletrônica, de dois anos antes, como um dos filmes que mais fizeram uso de CGI nessa fase ainda embrionária, como também por imprimir um ar de inocência e deslumbramento capaz de trazer um sorriso aos rostos mais cínicos. Os consideravelmente inexpressivos Lance Guest, como Alex Rogan, que se torna o tal “último guerreiro das estrelas” do título e Catherine Mary Stewart como Maggie Gordon, namorada do protagonista, encarnam descompromissadamente os papeis de jovens apaixonados destinados a mais do que apenas viver, com suas respectivas famílias, no modesto estacionamento de trailers no meio de nada com coisa nenhuma. E, em contraste aos dois, os veteranos Robert Preston, em seu último papel no cinema (descontando duas pontas posteriores), como o recrutador Centauri e Dan O’Herlihy irreconhecível como o navegador Grig, ambos alienígenas, amplificam essa pegada leve que o filme carrega do começo ao fim, mesmo quando lida com mortes.

Apesar de um roteiro de Jonathan R. Betuel em sua estreia no audiovisual (não que isso signifique alguma coisa especial, já que seu currículo consegue ser mais indigente do que o do diretor) que faz de tudo para fugir de qualquer nível de complicação ou de qualquer tentativa de construção de personagens fora do estrito núcleo principal – e mesmo assim sem arroubos de imaginação – a história universal que é contada é capaz de, muito facilmente, atrair qualquer um para o filme. O jovem hesitante que é arremessado em meio a uma impossível missão e que acaba assumindo o manto de herói conversa bem com a criança em todos nós, fazendo-nos reviver ideais básicos e reconhecíveis que dialogam com uma visão de mundo ainda imaculada e imberbe, que tem muito clara a divisão entre o bem e o mal, sem tons de cinza, e que acredita que basta força de vontade e perseverança para conseguirmos o que quisermos. É bem verdade que Betuel não arrisca absolutamente nada e cria um texto que chega a ser bobo de tão simplório, mas O Último Guerreiro das Estrelas é, quase que literalmente, a criança brincando com capacete de astronauta que vemos logo na abertura da fita, ou seja, um passatempo que fala de uma era – a infância – em que nos deslumbramos ou deveríamos nos deslumbrar com tudo.

Falando em deslumbramento, outra razão para a simplicidade da narrativa repousa, certamente, na computação gráfica utilizada sem freios aqui. Ela é a estrela da fita, não há dúvidas disso. Acho que é perceptível que Nick Castle estava tão extasiado com a novidade, com o novo “brinquedinho” visual que tinha em mãos, que nada mais interessava de verdade a não ser fazer, basicamente, um grande videogame passivo. Afinal de contas, como afirmei acima, quase um terço do filme conta com CGI, algo raríssimo para a época, ainda que o olhar moderno, mal-acostumado com o dilúvio de pixels que banalizou esses efeitos, possa desdenhar do que a Digital Productions conseguiu fazer na obra. Pode ser que muita gente considere que o que vemos na tela não passe do que hoje seria considerado como efeitos inacabados que poderiam ser gerados a partir de um app de celular, mas é importante saber transportar-se para quando o filme foi produzido e entender o fascínio das crianças e jovens da época secos por novidades desse naipe. Além disso, há também muito uso de efeitos práticos, notadamente próteses faciais para criar os alienígenas que, arriscaria dizer, não deixam muito a desejar a trabalhos igualmente importantes da época como a Trilogia Star Wars. Em outras palavras, vê-se muito claramente um carinho e um cuidado extra aqui nesta obra sci-fi menor, mas que retrata bem a época em que veio à tona.

O Último Guerreiro das Estrelas, afirmo sem medo de errar, é uma pequena pérola oitentista que não só é gostosa de se ver e rever, como é capaz de trazer o mesmo senso de deslumbramento para as crianças modernas que trouxe para os jovens dos anos 80. Talvez até mesmo para os adultos! Precisamos demais disso hoje em dia, na verdade…

O Último Guerreiro das Estrelas (The Last Starfighter, EUA – 1984)
Direção: Nick Castle
Roteiro: Jonathan R. Betuel (Jonathan Betuel)
Elenco: Lance Guest, Catherine Mary Stewart, Dan O’Herlihy, Robert Preston, Dan Mason, Norman Snow, Barbara Bosson, Chris Hebert, Kay E. Kuter, Vernon Washington, John O’Leary
Duração: 101 mim.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.