Crítica | O Último Hurra

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Existem diversas versões sobre quem deveria assumir o papel de Frank Skeffington neste Último Hurra, filme de 1958 que traz um John Ford maduro, nostálgico e fortemente ligado a questões políticas e sociais, independente de seu conhecido ponto de vista político. Dentre os atores cotados para viver o papel do prefeito populista que se vê diante de uma nova categoria de campanha e adversário político, com apoio e trabalho intenso em uma nova mídia (a TV), estava Orson Welles, este também com distintas histórias em torno de sua não escalação para o filme, dentre as quais, duas são verdadeiras. A primeira, é que o ator Ward Bond, aliado ao macarthismo, tornou pública uma denúncia de que Welles estava “envolvido em atividades comunistas, antiamericanas e subversivas“, o que deixou Ford furioso, porque a despeito de saber a posição política de Welles, havia um grandioso respeito entre os dois diretores, que admiravam o trabalho um do outro.

E como se não bastasse essa dificuldade de negociação, o agente de Welles coroou a problemática recusando a oferta oficial sem consultar o ator, enquanto este viajava, posteriormente alegando a Welles que “o cachê era baixo demais“. Seja como for, o personagem Frank Skeffington foi cair em excelentes mãos, sendo interpretado por Spencer Tracy, que disse, à época, que ele andava brincando de que iria se aposentar e que aquele parecia ser o filme perfeito, a começar pelo título. Não foi o que aconteceu, todavia. O ator ainda trabalharia em mais 6 longas, dentre os quais um que Ford co-dirigiu (A Conquista do Oeste) e aquele que representaria de fato o seu canto do cisne, Adivinhe Quem vem para Jantar.

Em O Último Hurra, Spencer Tracy assume a postura de alguém já tradicional na política e que chega a um ponto de cansaço na vida e de certa recusa da opinião pública. Há uma cena, ainda na primeira parte da obra, onde Skeffington conversa com o sobrinho Adam (Jeffrey Hunter) e faz uma excelente análise de conjuntura para o seu tempo histórico, tendo plena consciência do papel que representava na política daquela “nova era”, também olhando para a sua própria vida, para a velhice e para suas conquistas e legado, algo que o roteiro de Frank S. Nugent (baseado na obra de Edwin O’Connor) não deixa de aliar a um espírito nostálgico, a um certo componente moral e ético e também a algumas questões sociais, dada a posição política do prefeito. O texto jamais deixa de lado a vida pessoal e a trajetória profissional do protagonista, inclusive aproveitando esse casamento para delinear certas veredas da obra.

Como exímio manipulador da imagem, sabendo exatamente o que colocar em quadro e como fazer isso de modo a beneficiar cenas, personagens e obra, John Ford consegue um primoroso resultado dramático, humanizando mas jamais deixando de criticar ideias ou de mostrar insatisfações referente ao longo trajeto político de seu protagonista. Spencer Tracy incorpora de maneira aplaudível esse populista de retórica apaixonante e de atitudes moralmente incômodas aqui e ali, para mostrar os muitos lados possíveis de um político nessa categoria. Para mim, a sequência de um certo velório é a mais representativa de tudo o que o filme prega, inclusive tendo nesta sequência um esforço ainda maior da direção, que filma um grande número de pessoas em um pequeno espaço cênico, fazendo isso de maneira visualmente atrativa e com bom ritmo interno, embora a montagem não esteja o tempo inteiro a favor desse ritmo.

Aliás, se tem algo que realmente tropeça em O Último Hurra é a montagem que (pasme) é assinada por Jack Murray, que trabalhou com Ford pela primeira vez em O Prisioneiro da Ilha dos Tubarões (1936) e que estivera em produções icônicas do diretor naquela mesma década de 50, como Rastros de Ódio (1956), Rio Bravo (1950) e Caravana de Bravos (1950). Aqui, porém, seu trabalho não tem o refinamento observado em algumas outras obras e chega a fazer transições abruptas, desconsiderando até o trabalho de som entre um momento e outro, tornando algumas cenas do filme um pouco truncadas. O remédio para isto é a força do roteiro, que a despeito de falhar em alguns aspectos (leia-se o personagem intragável de Arthur Walsh, filho do prefeito), mantém o realismo de uma obra que é também a memória de uma vida.

Existem boas referências ao passado sem a necessidade de um flashback formal (o espectador “espera” por isso, mas o flashback não vem, e eis aí foi um baita acerto do diretor e roteirista) e uma conclusão muitíssimo apropriada para a temática levantada pelo filme. Aqui está o adeus após uma luta em um cenário onde Frank Skeffington passou mais da metade de sua vida. A exibição da disputa política e dos ideais de um homem como uma parte indissociável da vida, alcançando aqui e sua derrota mais simbólica, acontecendo no campo profissional e também pessoal… O fim de uma era. O último hurra.

O Último Hurra (The Last Hurrah) — EUA, 1958
Direção: John Ford
Roteiro: Frank S. Nugent (baseado na obra de Edwin O’Connor)
Elenco: Spencer Tracy, Jeffrey Hunter, Dianne Foster, Pat O’Brien, Basil Rathbone, Donald Crisp, James Gleason, Edward Brophy, John Carradine, Willis Bouchey, Basil Ruysdael, Ricardo Cortez, Wallace Ford, Frank McHugh, Carleton Young, Frank Albertson, Bob Sweeney, William Leslie, Anna Lee, Ken Curtis, Jane Darwell, O.Z. Whitehead
Duração: 121 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.