Crítica | O Vazio – 2ª Temporada

  • spoilers. Leiam, aqui, a crítica da 1ª temporada.

A 2ª temporada da produção canadense O Vazio apareceu na grade do Netflix com o mesmo alarde da , ou seja, absolutamente nenhum e é provável que, por isso, muitos deixem passar essa divertida animação infanto-juvenil que é muito agradável de se assistir. Se a temporada original dependia fortemente do mistério sobre a situação impossível em que os jovens desmemoriados Adam (Adrian Petriw), Mira (Ashleigh Ball) e Kai (Connor Parnall) se encontravam, agora tudo mudou e os roteiros tratam de focar nos personagens em si, o que é uma boa notícia.

Com a revelação de que a trinca estava em um jogo de realidade virtual ao final da 1ª temporada, os showrunners tinham a opção de fazê-la retornar ao Vazio de algum jeito ou, simplesmente, criar a impressão de normalidade somente para adiantar a reviravolta e revelar que Adam, Mira e Kai jamais saíram do jogo. E é a segunda opção que eles acertadamente escolhem e, mais acertadamente ainda, não demoram a revelar essa circunstância ao interromper a breve sensação de normalidade com os maiores medos de cada personagem materializando-se na cidade onde moram.

A vantagem dessa abordagem é que o espectador ganha dois episódios iniciais bem diferentes de tudo o que veio antes que servem primeiro para permitir um vislumbre das famílias dos protagonistas, o que já começa a aprofundar em suas respectivas personalidades e outros aspectos de suas vidas pessoais, includindo condição sócio-econômica e sexualidade. Não há, porém, sutileza alguma nos roteiros e todos esses elementos ganham exposição didática, trabalhada com todas as letras para não deixar dúvida na cabeça de ninguém. Mas logo há o retorno ao jogo em si – ou melhor dizendo, a troca da ambientação “normal” pela ambientação de fantasia do Vazio – e esses aspectos são deixados um pouco para trás, com a inter-relação dos personagens ganhando foco, incluindo a adição do time inimigo anterior formado por Reeve (Alex Barima), Skeet (Jesse Moss) e Vanessa (Diana Kaarina). O objetivo, agora, é entender o que raios está acontecendo e, para isso, eles precisam achar novamente o Esquisito (Mark Hildreth), processo que os fazem esbarrar em antigos e novos obstáculos por uma variedade de “mundos” diferentes como se espera de um videogame.

Se as surpresas da estrutura anterior eram os artifícios para prender a atenção do espectador, agora há um pouco de amadurecimento da narrativa, com menos criaturas para serem enfrentadas e quebra-cabeças para serem resolvidos e mais construção de personagens, o que traz, novamente, bom equilíbrio para a temporada. Vai certamente depender do gosto de cada um, mas diria que essa evolução natural faz sentido e impede que a nova temporada seja, apenas, a repetição da última. Há até uma mudança muito interessante e, diria, ousada de status quo mais para o final quando a natureza exata dos protagonistas é finalmente revelada que realmente altera a percepção do espectador sobre os personagens e leva a uma boa discussão de cunho filosófico sobre o que é estar vivo que, confesso, jamais esperaria ver em uma série como essa.

O estilo da animação em computação gráfica é simples, com traços básicos e puramente funcionais, mas que cumprem a função de diferenciar fisicamente os personagens e criar mundos fascinantes. No entanto, apesar de isso não ser um aspecto que realmente detraia tanto do todo, por diversos momentos tive a sensação de uma simplificação excessiva, de um engessamento de personagens menores que revela talvez pressa em encerrar a produção ou, simplesmente, falta de orçamento. Falos de momentos como a primeira luta contra o caramujo gigante, do fogo verde na floresta mais para o final ou a pancadaria contra o final boss no ferro velho que, em minha percepção, ficaram abaixo da média geral da série. A criatividade e variedade da 1ª temporada também não estão tão presentes aqui, ainda que isso seja justificável pelo fato de que não mais acompanhamos os protagonistas jogando o jogo normal, mas sim à margem do que vimos antes.

Espero que O Vazio encontre seu nicho perante o público jovem e quiçá também seus pais, pois a animação tem muito a oferecer em termos de lições construtivas para a vida, além da história em si, que é inegavelmente divertida, ganhando uma bem-vinda profundidade extra nesta nova temporada. Não é uma série para explodir mentes, mas ela sem dúvida merece ser apreciada nos mais diferentes níveis.

O Vazio – 2ª Temporada (The Hollow, Canadá – 08 de maio de 2020)
Showrunners: Josh Mepham, Kathy A. Rocchio, Greg Sullivan, Vito Viscomi
Direção: Josh Mepham, Greg Sullivan
Roteiro: Whitney Rails, Laura Sreebny, Steve Sullivan, Hillary Benefiel, Al Schwartz
Elenco: Adrian Petriw, Ashleigh Ball, Connor Parnall, Alex Barima, Diana Kaarina, Jesse Moss, Mark Hildreth, Kazumi Evans, Khamisa Wilsher
Duração: 230 min. (10 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.